sábado, 24 de junho de 2017

Carta aberta aos amigos que agora concluem o 11º ano


Caríssimos:

"Aquele que vive dessa vida nova é o Homem novo, que não possui a vida por si nem para si. O Homem novo é aquele que reconhece e vive a vida como dom de Deus - e não como produto da sua autoconstrução orgulhosa - para dar a Deus - e não para guardar e salvaguardar, numa atitude de sobrevivência estéril e, em última instância, inglória, devido ao assalto final da morte. E note-se que não é mais fácil acolher a vida como dom gratuito, imerecido, injustificado, do que dar a vida por Deus. Ao herói orgulhoso, até pode ser mais fácil o segundo. Só aquele que se reconhece «ontologicamente» pobre é que é capaz de acolher a vida como dom gratuito. E só esse será capaz de a dar completamente, já que o dom de si se encontra implicado no acolhimento de si, e vice-versa (...) Trata-se de viver a existência como acolhimento da vida a partir do outro, enquanto irmão, e para o outro, enquanto próximo. O acolhimento da vida e a doação da vida a Deus não constituem uma alternativa, relativamente ao acolhimento e doação da vida ao próximo. Antes pelo contrário: só na medida em que esse acolhimento e doação se realizam em relação aos outros, com que nos relacionamos concretamente, é que se pode falar em acolhimento e doação, relativamente a Deus. Por outro lado, só na medida em que o acolhimento e doação ao outro procedem do acolhimento e doação a Deus é que se tratará de autêntica solidariedade (...) sem o perigo de estar simplesmente sob a alçada de interesses próprios ou de grupo (...) Por isso, todos nascemos filhos - de Deus e dos nossos pais - e todos nascemos para ser pais, isto é, para darmos a vida e para gerarmos outros humanos ou algo noutros humanos. Sempre que somos férteis - sempre que originamos algo, seja o que for e como for - para bem dos outros, para lhes dar vida, estamos a realizar a nossa paternidade (e maternidade). A perdição dos humanos resulta da sua não aceitação da condição filial - por orgulho da autoprodução de si mesmos - e da recusa da condição paternal - por fixação na pura autorrealização de si mesmos"

João Manuel DuqueFátima. Uma aproximação, Paulinas, Prior Velho, 2017, pp.74-80


Neste magnífico passo, um conjunto de anotações:

1. Se entendo a vida como (me sendo) dada de graça, dom, ela reclama de mim uma resposta (a essa gratuitidade). Um reconhecimento. O reconhecimento da existência como não sendo um "produto" de uma (minha) "autoconstrução" (orgulhosa). Se  me reconheço fundado/filiado Noutro, e lhe estou grato pela gratuitidade e dom da vida, esta, a vida, não serve para ser "guardada", ou "salvaguardada" - ficar quieto, no meu canto, sem fazer nenhum erro, mas nunca metendo a mão na massa, sem arriscar nada, sem dizer um palavrão, fazendo tudo correto, mas nunca me implicando na realidade e na vida, nunca sendo ou fazendo parte de um "hospital de campanha", que "suja as mãos" -, até porque estaríamos perante uma "sobrevivência estéril", "inglória" (que vitória em não fazermos nada - de errado; porém, nem de certo -, deixar passar a vida, não a tocar, para desaparecermos depois?), dado que a morte advirá.

2. Quando se fala aqui em "herói orgulhoso" podemos pensar em alguns "terroristas"/kamikazes que pensam que ao dar a vida por Deus (no entanto, um deus completamente abstrato, vingativo, que é tudo menos misericórdia e amor) são capazes de gestos "brutais" como arrasar com uma comunidade. Neste sentido, eles julgam ganhar, por si, pelo seu mérito, só pelas suas forças, o "Além". Não se sentem pobres, enraizados no Outro, irmãos com os outros; eles são, ainda, "uma orgulhosa autoconstrução".

3. Não se pode, porém, morrer por Deus, matando os outros. Não se pode amar a Deus, e (ou mesmo) que se odeie os humanos. Não. Não se trata de uma alternativa (Deus vs humanos). Nós só podemos amar Deus nos humanos (no cuidado por toda a criação): "só na medida em que esse acolhimento e doação se realizam em relação aos outros, com que nos relacionamos concretamente, é que se pode falar em acolhimento e doação, relativamente a Deus". Mas, não menos relevante, o melhor fundado desse acolhimento dos outros é compreendê-los como irmãos referidos ao mesmo Pai, como criados à imagem e semelhança de Deus, como tendo dignidade (isto é valor - e não preço). Esta radicação do meu entendimento sobre o porquê do valor do outro é decisivo para que esse acolhimento do outro não incorra no "perigo de estar simplesmente sob a alçada de interesses próprios ou de grupo ".

4. Eu não me auto-justifico (não é meu mérito andar e permanecer ainda, e isso é um milagre quotidiano) e, nessa media, eu sou intrinsecamente filho (mesmo que venha a ser pai). Mas eu nasço para ser fértil - sempre que fazemos "algo, seja o que for e como for - para bem dos outros", isto é, sempre que "damos vida" (em qualidade e bem) aos outros, estamos a assumir a nossa paternidade/maternidade (não se nega aqui o biológico, mas o olhar para a paternidade/maternidade, como se percebe, recebe uma adicional compreensão).

5. O ser humano perde-se quando recusa que foi originado ("não aceitação da condição filial - por orgulho da autoprodução de si mesmos"), que não é uma construção sua - quer dizer, que nem tudo depende dele, que não controla tudo, que está numa relação a que lhe cabe responder -, ou quando recusa a sua missão e tarefa de ser para os outros, de sair de si, de se preocupar com os demais; quando é egoísta, narcísico, quando não quer saber dos outros está a recusar a paternidade (gerar vida - de qualidade - nos outros). Isto é, quando recusa ser pai/mãe de outros (se quisermos, quando recusa assumir a responsabilidade pelos outros). É a "fixação na pura autorrealização de si mesmos". 

6.Nesta altura, em que irão fazer esse exercício de discernimento sobre a vocação a que se crêem chamados - para realizar, tanto quanto possível - ao longo da existência, cabe dizer, desde logo, que não há lugares interditos (profissões/atividades) a este acolhimento do dom, a este reconhecer que não nos fazemos - o mito do self made man -, mas que se nos oferecendo o dom gratuito de termos sido criados (por amor), cabe-nos responder oferecendo-nos e arriscando-nos por inteiro pelos outros, santuários de Deus que nos cumpre cuidar, sendo férteis a partir de Deus, em Deus, para os outros (para Deus).  

Para além do significado que isto possa ter no interior de uma comunidade crente, creio, sinceramente, também e ainda, na pertinência antropológica do que aqui se assinala (face à finitude da vida, sermos férteis com e para os outros, sem nenhum outro interesse que não o deles mesmo - o agapê). E, nessa media, para além de toda a infra-estrutura técnica, a validade do discernimento espiritual nessa imersão no futuro, a um ano da universidade.

Quando se pensam, no futuro, a partir de missões a realizar, pessoas a ajudar, resgates de refugiados no mar, por exemplo, diria que estas categorias e este entendimento estão já como que subsumidos/interiorizados. Mas o Espírito sopra onde quer, e demanda a criatividade de todos nós para no dia a dia o actualizarmos.

Boas reflexões, boas decisões.
Abraço fraterno,
Pedro

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