terça-feira, 27 de junho de 2017

Emprego e resposta política


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Robert Reich: A teoria da austeridade, tal como a teoria trickled-down [políticas económicas que favorecem os mais ricos, crendo que estes privilégios acabam por beneficiar as camadas de baixo] é uma ideia falhada, não funciona. A única forma de reduzir a dívida é fazer crescer o PIB e, com políticas de austeridade, não é possível. Keynes tinha razão quando dizia que a melhor resposta para combater o desemprego é através do investimento e da despesa pública, como recurso final. Não é um problema, é uma solução: esse investimento é um multiplicador ligado a cada dólar gasto, que cria mais postos de trabalho e, por isso, mais receitas. Quem não compreende isto, não sabe matemática básica.

Expresso: A austeridade não faz sentido...

Robert Reich: Não. O mesmo acontece com a teoria de que se se cortar nos impostos sobre os mais ricos a economia vai crescer, porque geram-se receitas que compensam perdas fiscais. A única forma de as empresas crescerem é gerando mais clientes, e só podem tê-los se a classe média, que é mais propensa ao consumo, tiver mais dinheiro. Estas duas teorias já tiveram resultados terríveis. Fascina-me que ainda estejam vivas.

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Os cidadãos têm de ser mobilizados e ser agentes de mudança. É o que está a acontecer com Trump. Desde a guerra do Vietname que não via tanto activismo. A maioria dos protestos é contra ele, mas este activismo tem de se virar a favor das reformas económicas e da democracia. Por outro lado, as elites económicas, por causa de Trump, começaram a perceber - é uma esperança - que ficariam melhor com uma fatia menor da riqueza numa sociedade menos zangada, ao invés de uma economia de fraco crescimento desigual, polarizada e instável por causa da política. 

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As desigualdades são criadas por três factores: a globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas das elites. Este terceiro factor é determinante, porque não há nada nos dois primeiros que por si conduzam inevitavelmente à desigualdade. Com investimento público como forma de criar emprego e apostando em educação e em formação contínua para capacitar os trabalhadores, já é possível melhorar. Não é lógico nem inevitável que as pessoas que perdem o trabalho tenham novos empregos onde lhes pagam menos


Expresso: Então?

Robert Reich: Podem ter um salário subsidiário, um crédito fiscal para os que estão abaixo de um certo nível salarial. Eventualmente todos poderemos vir a ter um rendimento básico universal. Não é politicamente possível agora, mas à medida que a tecnologia tirar cada vez mais empregos, terá de ser. É o que me dizem os executivos de empresas de alta tecnologia.


Expresso: Tesla, afirmou que essa é a solução.

Robert Reich: Sim. Os empresários já perceberam que estão a eliminar postos de trabalho a um ritmo muito elevado. Se continuar assim, quem irá comprar os seus produtos? Foi o mesmo argumento de Henry Ford no início do século XX para argumentar os salários: quem iria pagar pelos seus carros?

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Existem três grandes questões, que vão dominar o mercado laboral. A inteligência artificial e a consequente eliminação de empregos; o fim do emprego tal como o vemos hoje e o aumento do número de trabalhadores independentes ou contratados a projecto; e o monopólio que está a ser criado pelas empresas de tecnologia, que usam o efeito rede e os big data, para aumentarem as suas posições de mercado. Todos estes problemas podem ser resolvidos, mas há uma questão política: estes grupos têm cada vez mais poder. A Google é a maior lobista em Washington. 

Expresso: De onde virá a vontade política para fazer o que é preciso?

Robert Reich: Com o desemprego tecnológico será necessário um rendimento básico universal. Mas quem abrirá o caminho? Até podem ser as empresas...Quanto ao fim da relação de trabalho tradicional, a resposta é dar às pessoas formas diferentes de segurança laboral, porque durante todo o século XX o contrato de trabalho baseou-se no emprego. Não há nenhuma razão para que os trabalhadores independentes ou temporários não possam usufruir de protecção. Já as empresas de tecnologia dependem da propriedade intelectual, das patentes e dos direitos de autor. Estes direitos e leis antimonopolistas podem ser adaptados a este novo mundo. 

Expresso: Faz sentido o rendimento básico universal para todos, ricos ou pobres?

Robert Reich: Pode ser estruturado como um salário de subsistência. Ninguém ficará rico com ele, mas também não cairá na pobreza. Se quiser trabalhar e aumentá-lo, OK, se arranjar um óptimo emprego bem remunerado, melhor. Esse salário não será generoso e a sociedade não poderá provavelmente dar mais do que um subsídio de subsistência. Mas será muito importante. 

Expresso: E onde irá o Estado buscar receita para o pagar?

Robert Reich: Pode vir de várias fontes. Basta uma pequena parcela das receitas geradas pela propriedade intelectual, já que as patentes e os direitos de marca geram receitas elevadíssimas. Em 1928, John Keynes previu que em 100 anos, a tecnologia eliminaria todos os empregos e que o maior problema seria como ocupar as pessoas no seu tempo de lazer. Deixou de fora da previsão o mecanismo de como fazer circular o dinheiro. Se este é um dos problemas centrais no futuro, podemos legislar de modo a retirar parte dos rendimentos gerados pela propriedade intelectual, ou criar um imposto sobre o rendimento, como sugere Thomas Piketty. Ou outra coisa. O aumento da capacidade tecnológica vai gerar mais rendimento é riqueza, tornando as sociedades mais prósperas.

Robert B. Reich foi secretário de estado (o equivalente a ministro) da Administração Bill Clinton, nos EUA. Entrevistado por Joana Pereira Madeira e Luísa Meireles, para o suplemento de Economia do Expresso de 13 de Maio de 2017.

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