segunda-feira, 12 de junho de 2017

O futebolzinho, sem disfarces


1. O que de mais perverso resulta das denúncias, feitas, de modo reiterado, pelo FCP, sobre a captura, do (sub) mundo da arbitragem (e suas adjacências, disciplinar e/ou de justiça), pelo clube da luz, é o seguinte: em fazendo a demonstração de que quem manda (ou mandou nos anos mais recentes, mais ou menos recentes), quem detém (deteve) o poder (total e absoluto) no futebol português são os encarnados, o FCP reforça essa consciência no futebol português, nos adeptos do futebol, e muito concretamente, nos próprios árbitros. Ora, a consciência, pelos árbitros, de onde se situa o poder, leva, certamente o indicam testemunhos de antigos agentes deste meio, e assim o constatamos de modo permanente, a atitudes, de defesa ou de ambição (desmesura) que em tudo procurem agradar (por acção ou omissão) a esse mesmo poder. A denúncia sistemática de um poder que indiscutivelmente é ocupado sem pruridos pelo clube da luz pode, pois, ter o efeito perverso de o reforçar. Foi isso, de resto, o que foi escrito numa das conhecidas cartilhas encarnadas distribuídas a quem está disposto a repeti-las: após um jogo entre os da luz e o Vitória de Setúbal, no início do mais recente campeonato português, o autor dos textos, perante as queixas de responsáveis do clube visitado, exorta os comentadores a não protestarem em demasia: isso poderia fazer perpassar a ideia de que o clube da luz havia perdido poder, e tal seria perigoso, dado que os árbitros tendem a ser subservientes perante este (escrevia-se então). Entre a complacência, e mesmo a cumplicidade, perante a constante adulteração de um módico de credibilidade no futebol português, e uma denúncia que, paradoxalmente, não está isenta do perigo de reforçar esses mecanismos de adulteração, eis o ponto em que se encontra o Porto.

2. De tudo o que foi dito e escrito por estes dias, o mais importante foi, sem dúvida, a intervenção do ex-árbitro Marco Ferreira. Ele que era um dos três melhores árbitros (de futebol) do país foi despromovido no final da época 2014/2015. Contou, agora, que pediu e obteve uma reunião privada com Luis Filipe Vieira. No final da época 14/15. Que se conheça, a segunda reunião privada entre um presidente de um clube grande e um árbitro nos últimos 15 anos. Mas um procedimento que resultou, neste caso, de Marco Ferreira - que sempre demonstrou qualidade a arbitrar e integridade pessoal - ter sérias suspeitas de que a sua descida de divisão terá sido desencadeada pelo clube dirigido por Vieira. De aí, ter pretendido esclarecer pessoalmente essa questão com o presidente encarnado, que terá negado tal influência, o que não deixou o ex-árbitro madeirense mais descansado, ou esclarecido. Mesmo que pensássemos, ou ficcionássemos, que tais influências não existiriam, que dizer do que pensava este árbitro - e, não será especular demasiado, o conjunto dos árbitros - sobre quem detinha o real poder de classificar (fazer árbitros descer de categoria)? É verdadeiramente espantoso: Marco Ferreira não se derige ao (então) Presidente do Conselho de Arbitragem, ou ao Classificador do mesmo Conselho a pedir explicações (ou, pelo menos, não se dirige a estes em última instância); dirige-se a Filipe Vieira. Em que estado arbitrarão os agentes (de arbitragem) que pensam o mesmo?

3. Conhecidos os relatórios que eram enviados a comentadores para os papaguearem; vistas as imagens, de indivíduos a repetirem, à mesma hora, na mesma noite, em diferentes canais, a mesma cartilha; admitidos por uns o recebimento dessas instruções sobre o que transmitir, o que fizeram os canais onde essas vozes do dono exibiam o seu magnífico intelecto? Rescindiram contratos, por fraude? Nada. Mantiveram-nos, como se nada fosse, nuns dias a ouvir que não queriam pronunciar-se sobre a burla aos espectadores em nome da quinta emenda - a sério? -, para uns programas depois dizerem que todos os clubes mandam cartilhas aos seus comentadores (sem se preocuparem em fazer qualquer demonstração...no mesmo programa em que se faziam quase passar por juristas tal o prisma de onde decidiram analisar o caso dos emails). Carlos Janela elogia Sérgio Conceição como o treinador ideal - por certo, para lançar a confusão, porque estando formalmente como independente é percebido como dependente; e por certo, para dali a uns meses escrever relatórios a mandar atacar o mesmo Conceição, perante o fingimento de quem cauciona semelhante faz de conta, enquanto na rádio pública, a antena1, é convidado para se pronunciar sobre as contas do FCP na qualidade de gestor de activos (é tudo tão mau que nem merece comentários).

4. Francisco J. Marques revelou a existência de uma cartilha e demonstrou-se que existia; apresentou uma troca de correspondência entre o presidente da APAF e o clube da luz, no sentido de solicitar bilhetes para uma instituição de solidariedade, e o presidente da APAF veio reconhecer que devia ter sido mais prudente (e, portanto, que o que havia sido revelado era verdade); agora, revelou mais uma história e ninguém a desmentiu. O diretor de comunicação do FCP tem sido muito atacado, mas uma coisa é certa: não é por as revelações que tem feito não virem depois a serem confirmadas.

5. Em todo o caso, penso que seria lamentável se se viesse a provar que houve violação de correspondência privada, invasão de correio electrónico, etc. Mesmo para procurar demonstrar uma situação como aquela que agora está em causa, não considero admissível utilizarem-se esses meios. Embora muitas das pessoas que agora falam disso não tenham qualquer autoridade moral para o fazer, em virtude das suas intervenções em casos análogos de violação desses mesmos valores de privacidade e intimidade no passado, tais valores permanecem válidos e devem ser defendidos com toda a veemência. Não podemos querer viver, ainda mais do que aquilo que vivemos, num mundo orwelliano, onde, com o pretexto de apanhar qualquer ilícito, sejamos controlados e invadidos nas nossas comunicações, sem quaisquer limites.

6. A opção do jornal ABola de, nesta conjuntura do futebol português, trazer uma entrevista com o ex-árbitro Carlos Calheiros, como fez na edição de ontem, não só entra para a antologia do anedotário jornalístico, momento zen para programas de humor, tesourinho deprimente que só pode envergonhar quem o promoveu, como, bem mais do que isso, atendendo a que o jornal é visto, em todo o país, e independentemente da opção clubística de cada um, como um jornal oficioso do clube da luz, como uma admissão de culpabilidade no caso presente (tal o que disseram de Calheiros na década de 90; Calheiros, e isto é factual, que tendo arbitrado, em toda a sua carreira, 10 jogos do FCP, foi juíz em 5 vitórias dos azuis-e-brancos; ou seja, 50% de êxito, com ele, para o FCP, bem longe, muito muito longe, dos índices de sucesso, por exemplo, de um Nuno Almeida a apitar as águias). Uma opção editorial, a de ontem, que não lembrava ao...Pedro Guerra

7. Ninguém espera consequências jurídicas do que foi revelado, na troca de emails, conhecida agora. Nem quem fez essas revelações, estou em crer, espera isso. Se Francisco J. Marques não utilizasse a expressão "esquema de corrupção", o caso ainda teria sido mais atirado para canto do que aquilo que sucedeu. Estou convencido que Francisco J. Marques fez, com quem de direito, essa avaliação e, mesmo assim, decidiu por tal formulação, no sentido de que a compreensão das (mais variadas) realidades não se esgota no mundo do direito (até porque, se se esgotasse, as pessoas não estariam sempre a evocar processos, no mundo do futebol, que no campo do direito, deram zero, bola), e a avaliação política e/ou ética das mesmas não se pode subsumir numa decisão jurídica.

8. Pelos vistos, os adeptos encarnados tratam o seu presidente por Primeiro-Ministro. No auge das conquistas europeias e mundiais, Pinto da Costa era tratado por muitos portistas como Papa. Ao fim e ao cabo, compreensíveis os cognomes: têm a ver com a escala das vitórias, em ambos os consulados.

9. Depois de muitos anos em que a par da disputa futebolística, se assistia a guerras intestinas pelo poder no futebol português, agora que de futebol sobeja muito pouco - Vitória veio dizer, em entrevista ao canal do clube a que está vinculado, que o melhor jogo da sua equipa, esta época, foi em Alvalade...imaginem-se, então, os restantes!... -, e o campeonato desliza ainda mais de qualidade, parece ter ficado, apenas, a guerra nua. Este ano não há defeso.

10. A comentar este caso, um editor do Record, Vítor Pinto afirmou, na televisão, que, de facto, na época da troca dos emails, "o comportamento dos árbitros era muito estranho". Pena que nunca tenha tido a oportunidade de o ouvir, ou ler, a proferir tais declarações á data dos acontecimentos e nas épocas seguintes.

11. É muito interessante, para quem tem memória, voltar a Vítor Pinto. Era ele, já, jornalista de Record, quando, na segunda metade dos anos 90, uma conversa de António Oliveira, treinador do FCP, á época, vem detalhada nesse jornal desportivo de Lisboa. Off the record quebrado. Declarações bombásticas. Fita da gravação passada com honras de abertura de telejornais. Motivo para os Donos da Bola. Não me recordo, com poucas excepções como a corajosa por banda de Trindade Guedes (RR) vir falar de deontologia profissional, de respeito por Oliveira, de "bufos", de "ter vergonha de ser jornalista". Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

12. Momento vintage ver Paulo Garcia, que fez parte do programa Os Donos da Bola, preocupado com a quebra da correspondência privada. Ainda a segunda parte da década de 90. Nesse programa de perseguição semanal ao Porto, a sic transmite uma entrevista com o então secretário-geral da Uefa, sr. Gerhard Aigner (creio que era assim o nome). Com o fito de uma conversa privada, mesmo que no escritório da UEFA, sem gravações (à vista), o jornalista português (que não Paulo Garcia) tenta tudo para apanhar um comentário, um desabafo, uma boca sobre Pinto da Costa (sempre insinuado na conversa pelo jornalista da sic, pelos piores motivos). Ora, a conversa tinha micro escondido. estava a ser gravada. Aí não houve preocupação nenhuma com a deontologia. Certos personagens. transformados em moralistas, quando soubemos onde estiveram no Verão passado, desafiam/provocam, a propósito dos piores motivos, a nossa memória.

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