sábado, 24 de junho de 2017

Voando sobre um ninho de cucos


Creio que ao longo da semana tudo (o que podia ser) foi dito - até porque não houve silêncio - sobre a tragédia de Pedrógão Grande. Na noite de Domingo, a Sic já tinha os seus separadores, na película a preto e branco, na música fúnebre, na "poesia" (em voz off), no que António Guerreiro chamou, e bem, "a estetização da dor" alheia (e Pacheco Pereira relatou como "masturbação da dor"). Depois, como também denunciado, saltaram especialistas, a cada minuto, sobre gestão florestal, ordenamento do território, combate a incêndios (a doxa habitual, no achismo tipicamente português, repleto de palpites, na tal logomaquia perturbante). Pelo meio, claro, o jogo partidário, nunca deixou de estar latente, quando não explicitado, particularmente duro numa circunstância como esta: entre quem subsume todo o sucedido ao curso da natureza, a quem nega que esta tenha qualquer papel que não possa ser contrariado; entre quem acha que tudo foi feito, e quem considera que há um único culpado; entre quem considerou um artigo no ElMundo a coisa mais importante para o país na última semana, e os que se dedicaram a atacar o seu subscritor (que não conhecemos, dado, pelos vistos, tratar-se um pseudónimo). Pelo meio, o Público fez um bom trabalho, colocou várias questões pertinentes, trouxe-nos um conjunto de dados pertinentes para avaliarmos como cidadãos: desde o sistema de comunicações adquirido, pelo Estado, a um preço exorbitante e que não funciona, até ao consórcio que o vendeu, e onde encontramos os suspeitos do costume, culminando na manutenção dos equipamentos ao dobro do custo do mercado, segundo uma auditora (consultada pelo Estado), até à redução, em negociação, do preço deste equipamento de manutenção, acordado, há dois anos, mas estranhamente não colocado em vigor no momento em que o acordo foi concluído (com o Secretário de Estado de então, Fernando Alexandre, a vir agora dizer que é necessário averiguar porque não foi concretizado/implementado, no devido tempo, esse acordo). Tudo isto, espanta o leitor/cidadão e faz-nos temer que o ar intoxicado possa ainda deteriorar-se. Em que circunstâncias, e com que cumplicidades, se fizeram este conjunto de negociações, ao longo de vários anos, e diferentes governos? Ontem, a manchete do DN era bem reveladora, a propósito daquilo que se seguirá, por certo: "ao fim de 5 dias, verniz estalou entre o PS e a direita". Vai ser muito feio de ver, estou em crer, ainda que seja absolutamente essencial também apurar responsabilidades (políticas). Ricardo Costa, no Expresso, chama a atenção para as novas condições em que o Governo passa a estar - claramente mais precárias, e necessariamente um Executivo "menos autosuficiente" - no diálogo com o país. 
Mas, desta feita, é com Henrique Monteiro, um articulista que está longe de entrar no meu lote de favoritos, que estou mais de acordo: "Podem começar uma enorme discussão sobre as culpas dos incêndios. Afinal, já se passou uma semana, os mortos estão enterrados e as populações podem voltar, de novo, ao esquecimento. Aqui não há compaixão nem luto. Há ataques de baixa política. A uns porque não coordenaram, a outros porque permitiram eucaliptos. No auge da crepitação pediram-se cabeças, fosse a da ministra atual fosse a da líder do CDS por ter feito uma lei há dois anos e meio. O ministro da Agricultura também andou perto de ter a cabeça a prémio. Quem não anda, nesta altura? Mas há uma sentença que abarca todos. Todos os políticos presentes e passados, assim como as cadeias de comando dos bombeiros, da Protecção Civil, da GNR. O crime é simples de identificar: abandono, puro e simples, do território. 
Meus caros: todos vós, uns com mais culpas do que outros, abandonaram o interior. E esse abandono nem compensado foi por uma descentralização. Pelo contrário - colocaram quase tudo no litoral. (...) Deixaram aldeias inteiras com velhos. 'O mais novo devo ser eu, que tenho 56 anos', dizia numa delas um homem. Nem uma criança nem um motivo para lá se viver. E depois indignam-se porque as pessoas não limpam as matas ou não sabem sequer onde ficam as suas matas. E vós que fizésteis? Governantes, Protecção Civil, bombeiros? Acaso exigiram, mais do que equipamentos de combate, que fosse feito o cadastro de propriedade? Acaso pediram (e nisto estou de consciência muito tranquila) que não cedessem às 'jotas' partidárias e utilizassem um serviço cívico obrigatório que auxiliasse o interior (com a vantagem de reunir jovens de todas as origens e estratos sociais)? Acaso se sobressaltaram, sabendo que ali, no Pinhal Interior como noutras zonas, tudo pode arder como um fósforo? Que interessa aos mortos e aos que sofrem a sua partida saber se tudo começou com um raio ou mão criminosa? Tanta gente que enche a boca com a igualdade promove a mais iníqua situação nas aldeias que vai abandonando. O que não arde são as cuidadas matas das fábricas de celulose. Tudo o resto não tem valor: é confusão. É assim há 30 ou 40 ou 50 anos. É por isso que, mais do que conclusões, são necessárias acções. É por isso que nem tudo pode ser visto com os olhos de Lisboa" (Expresso, 24-06-2017, p.40).

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