domingo, 30 de julho de 2017

Jasmim


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CONTRABALANÇAR

Parece um verbo idiota, este contrabalançar. Não seria mais correto pensar que as coisas simplesmente são ou não são e deveriam aspirar por todos os meios a essa clareza, ponto final?
Contrabalançar dá a ideia de ficar a meio caminho, abdicando daquela inteireza  que, contra ventos e marés, objetiva a nossa verdade. Soa a uma prática de equilibrismo existencial, um pé aqui e outro ali, o balanço de lá e cá. É como se, em vez de lutar por uma unidade imediata, aceitássemos a divisão como ponto de partida ou como processo, condescendendo com a disparidade que nos coube e enredando-se num jogo de compensações. É como se assumíssemos a nossa trajetória biográfica como alguma coisa que está e não está completamente nas nossas mãos, alguma coisa cindida que, ao mesmo tempo, dominamos e nos ultrapassa, determinando que viver seja, dessa maneira, uma incessante e dolorosa iniciação à arte do possível, sem passar disso. Estranho verbo este, contrabalançar, que se diria esconder dentro de si a nossa capitulação.
E, contudo, em muitas etapas da vida, contrabalançar é precisamente o contrário: é um necessário e desassombrado exercício de sobrevivência. É a única forma de não desistir de escutar e de dar legitimidade, nas condições reais que nos coube experienciar, não apenas àquilo que nos atinge exteriormente, mas àquilo que emana de dentro de nós, a essa vida soterrada, mas que nos pertence mais do que qualquer outra, porque é a expressão singular da nossa alma. Se ficamos à espera das condições ideais, há dimensões do nosso ser que jamais tocaremos, porque a pressão externa é implacável e foge continuamente ao nosso controle. O mais habitual é que tenhamos de viver tudo ao mesmo tempo, esforçando-nos por contrabalançar com sabedoria o que poderiam ser descritos como os opostos: o previsto e o inesperado, o familiar e o estranho, o choro e o riso, o dever e o desejo. Como dizia Etty Hillesum, uma das grandes vozes espirituais da contemporaneidade, morta em Auschwitz, em 1943: “A vida é difícil, mas isso não faz mal.” Ou melhor, não é isso que nos faz mal. Porque depressa aprendemos, como ela aprendeu, que sobre aqueles segmentos de caminho interrompido por arame farpado não deixa de existir o mesmo céu que cobre os maravilhosos campos desimpedidos, o vasto céu que bloqueio algum é capaz de interromper. Contrabalançar é uma forma de contornar, de resistir e de acreditar. Sempre que dissermos, por exemplo, dentro de nós e com todas as forças do nosso ser, que a vida é bela, recomeçaremos livres, em relação a tudo o que a desfigura e o resto já nem importa, seguirá como pó ao sabor do vento. Pois, no fundo — e são palavras de Etty —, “o maior roubo que nos é feito somos nós mesmos que o fazemos”. E isso acontece mais frequentemente do que pensamos, quando nos esvaziamos do melhor de nós por causa de uma visão unilateral, que não foi devidamente contrabalançada com as razões profundas do nosso coração. Quando permitimos que aquilo a que erradamente chamamos “realidade”, e que estamos tentados a aceitar como voz única que nos fala, seja afinal um rolo compressor que esmaga não só o que a nossa vida é, mas também o que ela poderia ser. Contrabalançar é um ato de insubmissão da maior importância. Etty Hillesum no campo de concentração punha-se a descrever o desabrochar de duas míseras flores que tinha num vaso. E os outros diziam-lhe: “Como é que tens cabeça para pensar em flores no meio destes escombros.” Mas Etty sabia que a derrocada fatal ocorre quando desistimos de ligar a nossa vida a uma porção, ínfima que seja, de eternidade. Aí tornam-se impossíveis os milagres e morremos.

José TOLENTINO MENDONÇA,  Expresso. A Revista do Expresso, n. 2335,  29. 07. 2017, 94


sábado, 29 de julho de 2017

O fim do quarto poder?


Eles [os media] são o motor do «impensar» a que me referi atrás. Hoje, em rigor, não há quarto poder. Penso que eles fazem parte de uma nova forma de poder, com várias facetas, e que trabalham num regime de verdadeira colaboração com a política e com a finança. Estamos sem dúvida perante uma transformação sem dúvida fascinante, ainda que algo aterrorizadora. O quarto poder, que era crítico dos outros três poderes - e foi-o duramente muito tempo, com resultados assinaláveis na história dos séculos XIX e XX - integrou-se progressivamente numa forma inédita de poder que, mais do que primeiro, é o único poder. E está hoje, como permanentemente vemos, completamente colado aos interesses dos outros poderes. Mais, os media contribuem para colocar a política como o bode expiatório de tudo o que há de mau na sociedade (...) Os media fazem muito bem isso, exibem a política e protegem a finança, mas trabalham com os dois lados do biombo... (...)
Hoje, a grande dificuldade para uma intervenção política diferente prende-se, a meu ver, com a dificuldade em sermos contemporâneos do nosso tempo (...) Sermos contemporâneos do nosso tempo passa por falar uma outra linguagem que não a dos folhetins «telejornalescos», em conseguir fazer as perguntas que efectivamente interessam às pessoas. Por exemplo: o que é que deve ser, hoje, uma escola? Eu tenho feito esta pergunta a políticos de todos os partidos e ninguém é sequer capaz de ouvir a pergunta, só conseguem ouvir as reivindicações corporativas dos professores, se deve haver mais ou menos exames, a história das metas ou dos perfis, tudo coisas completamente irrelevantes quando se sabe que, hoje, qualquer criança inicia quase no berço a sua formação nos ecrãs...E a escola reproduz a sua mesma organização, o mesmo modelo, se vir bem, de há praticamente cem anos. Penso que os grandes problemas são, hoje, os da adequação das instituições que herdámos às realidades do nosso tempo, o que pode implicar tanto a sua eliminação como a sua reinvenção.
Vejamos, por exemplo, como tudo é hoje dominado pelo fantasma da saúde. A pouco e pouco, com o apogeu do individualismo, a saúde tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais central e decisivo na política. Não sei se está de acordo comigo, mas, se olharmos para o lugar que tinha a educação há cem, 50 anos, esse lugar está hoje ocupado pela saúde, o que se deve em grande parte à ilusão individualista da imortalidade (...)
A finitude é intrínseca ao ser humano, que é, de todos os animais, o único que tem essa noção. É a nossa diferença. É isso que faz de nós animais políticos, no sentido de pensarmos o nosso destino e termos algum poder sobre ele. É por isso que a crise da política é, também, uma crise dessa consciência da nossa finitude.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.133-135 e 149.

Europa e decomposição


De 2002, quando o euro começa a circular, até 2010, assistiu-se ao espantoso fenómeno de, todos os anos, estes factores positivos do sonho europeu [maior equilíbrio financeiro, uma maior convergência económica e uma maior solidariedade social], serem crescentemente tão desmentidos como ignorados pelas elites dirigentes europeias, que, ainda por cima, alinham alegremente no erro colossal do alargamento de 2004!
E quando chegamos a 2010, e essa situação se torna visível para todos, o impacto é brutal. Com a crise grega, temos a indisfarçável exibição da falta de solidariedade entre os vários países, e temos uma coisa que é muito complicada que é a percepção de que a divergência entre o Norte e o Sul continua, e continua de muitos pontos de vista, não só económico mas também fiscal, social, cultural
E os nossos políticos, sejam de direita ou de esquerda - e este facto contribui muito para o descrédito da política -, continuam a ter um discurso que não tem nada a ver com esta realidade. Continua a falar-se de crescimento como se o crescimento fosse uma evidência, de convergência como se nos estivéssemos a aproximar das economias mais fortes, de solidariedade quando, nas coisas mais elementares, como constantemente temos visto, não há qualquer solidariedade.
A União Europeia tornou-se, assim, numa ficção em decomposição, e essa decomposição pode vir a ser uma decomposição violenta. Dramática já o é, porque não é de todo assumida, pelo contrário, é permanentemente negada, e o discurso político colou-se a essa negação, está refém dessa negação. E não só o discurso político em geral como, a meu ver de um modo injustificado, o discurso político socialista.
Isto teve origem - poucos o reconhecem, mas foi o que se passou - no «golpe de génio» de Miterrand, que conseguiu fazer o ersatz, a substituição do fiasco das suas políticas nos primeiros dois anos da sua presidência com...o projecto europeu. O sonho europeu foi o estratagema de que Miterrand lançou mão em 83/84, a seguir ao grande fracasso das nacionalizações e da sua política anticapitalista que o levou a, dois anos depois da sua vitória, ter de privatizar grande parte do que tinha nacionalizado e a mudar o eixo das suas políticas, o que ele nunca assumiu explicitamente. Fez isso com inegável talento, realizando o que os psicanalistas chamam uma denegação, que é negar «convictamente» aquilo que se está a fazer. E lança então o tema do sonho europeu, o famoso destino europeu de França, como substituto do fracassado sonho socialista.
O socialismo europeu, sem ideias sobre quase nada, embarcou nesta conversa. Isto pareceu-me sempre muito claro, lembro-me de perguntar a Mário Soares: «Mas o que é que este sonho europeu tem de socialista? A liberalização dos mercados? A livre circulação das pessoas, das mercadorias, dos capitais? O que é que isto tem de socialista? Temos la a Carta Social, está bem, mas não passa de um texto de enquadramento geral, sem alcance vinculativo». O que é que a Europa tem de esquerda, insisto? Porque é que a esquerda se enfeudou completamente a este sonho e abandonou a mais elementar atenção às grandes transformações então em curso no mundo, às consequências da globalização, aos impasses ligados à transformação do trabalho, aos enigmas ligados à revolução da educação, aos desafios da robotização? É que não há um único destes problemas decisivos em que se veja a esquerda, os partidos socialistas e os partidos social-democratas trabalhar de há 20 anos para cá. (...)
Vejo a Europa, ou melhor, a União Europeia, o que, atenção, não é de todo a mesma coisa, em decomposição, sem condições nenhumas para se pensar em saltos federais - já as houve, mas isso já la vai. Pelo contrário, nós vemos cada vez mais os povos a fecharem-se nas suas identidades históricas, apesar de isso não colidir - o que é novo e verdadeiramente interessante - com um assumido cosmopolitismo. (...)
Hoje, as nossas elites políticas e mediáticas esconjuram com a acusação de populismo tudo o que pode pô-las em causa, é o reverso do medo do povo em que elas vivem, mas, a meu ver, o populismo contém aspectos muito positivos que merecem reflexão, muito mais do que condenação...
Neste contexto, Portugal tem um espaço único muito desprezado, que é o do Atlântico, que se pode tornar num novo centro do mundo, certamente num dos seus centros mais importantes. A abertura do canal do Panamá, as transformações da globalização, tudo aponta para isso. São circunstâncias em que a lusofonia podia, como dizia, ser um trunfo, mas todos os dias se perde gás, em vez de o ganhar...Nós estamos na origem da língua, mas as potências que contam são as que têm grandes populações, no caso, Angola e o Brasil, que, infelizmente, atravessam períodos muito difíceis. E, depois, estamos em todo o mundo, estamos espalhados, estamos disseminados pelo globo. Penso que, neste momento, apesar das dificuldades que há na CPLP, se devia olhar para ela com outras perspectivas. Não diria em alternativa à Europa, mas como uma saída para diversas dificuldades que estamos a ter na Europa, e vamos ter cada vez mais.


Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.121-129

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O filósofo da contingência e o erro dos deterministas


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Sou um filósofo da contingência, penso que tudo pode acontecer...ou não. A necessidade é uma ilusão fomentada pelo determinismo, e o determinismo é um erro metafísico. Penso que não só tudo podia ter acontecido de outro modo (na história, na vida, etc.), mas que tudo pode vir a acontecer de modos que ninguém previu. O «acontecimento» é, como disse J.L. Marion, justamente o que ocorre de um modo imprevisível, inesperado, seja na política ou na vida pessoal. E a verdadeira sabedoria, que nunca existe sem uma forte componente de coragem, revela-se no modo como se responde a esse acontecimento.
Na vida, como na política, o imprevisível é que é a norma, só os nossos medíocres dirigentes actuais é que pensam que ele é a excepção...No que diz respeito á democracia, digo sempre que nada está garantido. E há, hoje, um novo factor a ter em conta, de que falámos atrás, que é o individualismo, que toma formas extremas muito inquietantes na medida em que abdica cada vez mais das dimensões colectivas da acção em favor da satisfação meramente individual. Penso que está em curso uma verdadeira transformação antropológica do indivíduo, que é muito menos exigente, hoje, com formas de vida colectivas, com a própria solidariedade, e muito mais centrado no seu umbigo e nos seus caprichos. Por isso, não me admira que a democracia possa acabar. Ou que venha a tomar formas a que hoje não chamaríamos democráticas (...) Nada nos garante que a forma democrática continue como tem existido. E não se esqueça de que a forma política democrática é uma forma que foi odiada até ao século XIX. Muitas vezes, pensamos o contrário, temos uma ideia idílica da democracia, como se tivesse sido algo que começou nos Gregos e se foi aperfeiçoando no decorrer dos séculos. Nada mais falso! A democracia foi mesmo muito odiada, desde os Gregos até aos grandes debates da primeira metade do século XX. (...) Partidos completamente minados por dentro, preocupados com a sua própria reprodução e com os seus interesses, tudo isso foi dito e redito há cem anos. É exactamente a crítica que se faz hoje. E foi esta crítica dos partidos que, note, mais tarde, nomeadamente com Roosevelt, levou à grande viragem que consistiu na fuga dos cidadãos aos partidos e na aposta política nas personalidades, nas «grandes personalidades». Na minha leitura, o século XX é um século que começa com uma crítica que as sociedades ultrapassaram investindo num outro modelo, o dos protagonistas individuais excepcionais - Roosevelt, Adenauer, De Gaulle, Churchill, etc. -, modelo que desvalorizava o legislativo e reforçava o executivo, mas que é um modelo que teve o seu tempo, que, por sua vez, também entrou cada vez mais em crise à medida que os protagonistas individuais se revelaram, eles próprios, numa espécie de «partidos uninominais», ou melhor, em Sarkozys, em Berlusconis, em Sócrates, etc. E os cidadãos, agora, já não sabem para onde olhar, o vazio cresce a toda a volta, não há personalidades exemplares para investir. Foi a descrença no sistema partidário que, de certo modo, produziu essas personalidades, os chamados «grandes homens». Ora, hoje, o cidadão olha para quê, para quem?

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.130-132

Aprender ao mesmo tempo que se ensina. A ligação paixão-conhecimento


Foi sempre assim que eu gostei de ensinar, experimentando, procurando caminhos que pusessem as coisas a mexer, por onde o conhecimento pudesse avançar...O fundamental é isso, temos de aprender ao mesmo tempo que ensinamos. Para mim, ensinar é, acima de tudo, fazer as pessoas gostarem daquilo que nós gostamos, apaixonarem-se por aquilo que nós estamos apaixonados, pelas ideias que temos, pelos conhecimentos que partilhamos. O conhecimento e a paixão estão sempre ligados, sabemo-lo bem desde Aristóteles.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, p.42

Ligação conhecimento/saber e política


A ideia deste ministério [da Cultura] não foi uma mera ideia eleitoral, ela nasceu e consolidou-se num processo inédito que durou um ano, que foi o dos Estados Gerais. Nunca houve, em Portugal, um período como esse, que foi o de, durante praticamente um ano, se pensar, se preparar um programa de governo. Em Portugal (e não só, sei-o bem...), faz-se política duma maneira muito improvisada, e os resultados estão à vista. Não se estuda, não se prepara, não se debate, dão-se uns palpites e, em geral, depois fazem-se grandes disparates.
Eu sei que isto está generalizado. Por todo o lado, a articulação da política com o conhecimento, com o saber, foi progressivamente substituída pela ligação - na verdade, pela dependência - da política com a comunicação, com a pequena frase eficaz, com a frase de ocasião.
E nós não temos a tradição que têm os alemães, que, como sabe, têm fundações muito substanciais para apoiar propostas políticas. Se perguntar, na Alemanha, quantos engenheiros vão precisar daqui a quatro ou cinco anos, neste ou naquele sector, eles sabem. Nós não sabemos nada sobre nada, porque não se estuda, não se prepara. Por cá, reina o improviso. A ligação da política com o conhecimento foi sempre frágil e fugaz, devemos reconhecer que António Guterres tentou criá-la - foi, de resto, isso o que mais me motivou a entrar então naquela aventura política, em 1995. Infelizmente, ele desistiu ao primeiro embate, sabe que essa foi uma das razões das minhas posteriores divergências com ele.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.64-65.

Tecnologismo, financismo e individualismo


Vivemos uma era em que se conjugam, de um modo inédito e de consequências imprevisíveis, três deslumbramentos globais. O do tecnologismo, que - para dar um exemplo na área cultural - hoje não é preciso uma política para os museus porque podemos ir a todos os museus do mundo através do computador, etc. A tecnologia ajuda muita coisa, e traz grandes progressos, claro, mas a tecnologia é de ordem instrumental, não da ordem dos fins, é nuclear não se confundirem os fins, os objectivos, com os meios, os instrumentos.
Depois, temos o financismo, que impôs uma nova ordem económica, que é dominada por um grupo relativamente restrito de bancos e de sociedades financeiras no mundo. O problema, aqui, é muito difícil, mas ele é resolúvel. Acabo de ler um estudo muito interessante, L'Hydre mondiale - l'oligopole bancaire, sobre quem hoje domina o mundo. É de François Morin, que é um economista consagrado, e ele mostra que o essencial dos produtos derivados nasce, e se coloca, em 14 bancos. Ora, não me digam que o poder político não pode resolver um problema que está situado em 14 bancos. O que há é falta de vontade política, e isso é outra coisa. (...)
O terceiro deslumbramento tem raízes mais longínquas e é, digamos, mais civilizacional. É o deslumbramento do indivíduo consigo mesmo, com a espiral dos seus sempre crescentes direitos, numa situação tal que quase se pode dizer que, hoje, qualquer capricho pode ambicionar transformar-se num direito. A novidade é nós vivemos numa sociedade de massas que é, simultaneamente, e cada vez mais, uma sociedade de indivíduos (...). Mas isto conduz-nos a um paradoxo imenso, que é o de que, se, por um lado, este processo de individualismo tem aumentado permanentemente os nossos direitos individuais, por outro, ele conduz-nos a uma situação inédita que é a de, ao mesmo tempo, nos tornar colectivamente cada vez mais impotentes.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.88-90.

Transformadores na Cultura


Ainda por cima, a herança era fraca, o mais interessante vinha já do tempo da Teresa Patrício Gouveia, o que eu, apesar de alguns amigos socialistas não gostarem, fiz sempre questão de lembrar. Deve-se a ela o lançamento da rede de bibliotecas, deve-se a ela a compra de Serralves. Fomos nós que fizemos o museu, mas foi dela a ideia, como foi ela que protegeu aquele espaço no centro da cidade.

p.66


Em relação a esse tempo [como Ministro da Cultura], tive grandes cúmplices, devo confessá-lo, sem os quais tudo teria sido muito diferente, e certamente mais difícil. Antes de mais, tive um cúmplice de excepção no Prof. Sousa Franco, que era o ministro das Finanças e que tinha uma grande compreensão pelo novo papel da cultura, mas também pelo modo como nós trabalhávamos. Dou-lhe um exemplo: em 1997, pegando na herança da Teresa Gouveia das bibliotecas municipais, havia já umas 30 ou 40. Apresentei um plano para que todo o país, todos os municípios tivessem bibliotecas. A aposta era fazer a cobertura integral do país, de modo que todos os concelhos tivessem uma biblioteca (...) Eu lembro-me, e guardo isso com satisfação, de o Prof. Sousa Franco dar esse projecto como exemplo ao Conselho: fundamentado e orçamentado. O apoio dele também foi decisivo na parte final do Museu de Serralves...

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp. 82.

Desleixo relativo à cultura


Hoje, passados 20 anos, uma política pública de cultura tem de ser algo completamente diferente do que se pensou em 1995 e fez nos cinco anos seguintes. O problema é que se destruíram as bases essenciais para que se possa fazer o que quer que seja...(...)
Basta olhar para Lisboa, toda a gente fala do boom no turismo, mas não vejo uma única realização cultural ligada a esse boom. Tenho muitos amigos estrangeiros, alguns até compraram cá casa, que me dizem: «Isto tem sol, isto é bonito, a cidade emana uma nostalgia particular, tudo isso é verdade, mas não há espectáculos, não há ópera, não há exposições, os museus estão numas condições deploráveis, não há um só festival musical de referência...». Ora, como é que, assim, se vai fidelizar este fluxo turístico? Só com sol?...Duvido muito. (...)
Eu não me lembro, por exemplo, de ter havido, nos últimos dez, 15 anos, um único debate no parlamento sobre cultura.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp. 84 e 88.

Bem lembrado


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Temos actualmente uma classe política muito inculta. Falando francamente, penso que temos uma classe política mesmo escandalosamente inculta que - em parceria com os media dominantes - não percebe a importância do papel da cultura (...) O que domina são políticos que só sabem valorizar a cultura quando vêem alguns número, alguns agregados - de resto bem discutíveis - que dizem poder aumentar o PIB...
Perdeu-se completamente de vista o que é o papel da cultura na formação de um povo, na qualificação dum território, na qualificação das pessoas, na qualificação das instituições. É completamente diferente a vida numa cidade que tem um museu, uma biblioteca, um arquivo, uma dinâmica criativa, uma vida cultural própria. Hoje, estamos submergidos por um linguajar «economês-financês», que impede que se pense, melhor, que só sobrevive num ambiente que eu tenho caracterizado como o de um intencional «impensar»...(...)
Quando anunciei que todas as capitais de distrito iriam ter um teatro - 13 das 18 capitais não tinham!...-, diziam-me muitas vezes: «Fazer teatros, mas isso não é esbanjar dinheiro»? Depressa se viu que não, pelo contrário. (...) 
Quando se financia a cultura, está-se a financiar uma actividade relevantíssima para o país, para a economia certamente, mas que vai muito além disso...Está-se a financiar a qualificação das pessoas, do território, das cidades, das instituições, é esta a minha visão das coisas.
Nós hoje vivemos - ia a dizer asfixiamos - num discurso muito redutor, a política está completamente garrotada num «economês-francês» que é muito pobre, que nos dá um mundo com cada vez menos palavras e com palavras com cada vez menos significado. É um linguajar mais ou menos mecânico, começa nos telejornais e nos seus comentadores e acaba...na escola, que infelizmente invade cada vez mais.
Bom, mas retomando o que estava a contar-lhe, quando nós lançámos esse projeto dos teatros, as pessoas diziam: «Mas não será desperdiçar meios, ir agora fazer teatros na Guarda, em Braga ou em Vila Real?». A questão era legítima, claro, mas rapidamente se percebeu que um tal cepticismo não se justificava, nenhum destes teatros teve problemas de público. Onde lançámos projectos que dependiam do público - que, naturalmente, é necessário formar, atrair, fidelizar -, nunca houve problemas. Há sempre público para o teatro, como, de resto, há para o cinema ou para os museus. A cultura tem um enorme potencial público - mas nada é dado, é preciso trabalhar para que assim seja, que é justamente o que tem faltado. 
Penso que o problema da cultura, em Portugal - continuamos a falar apenas de políticas públicas -, é um problema de oferta e de ousadia naquilo que se propõe.


Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.113-116

Leituras diversas


*Hélia Correia sobre Frederico Lourenço

*A grande ironia de discursos xenófobos é ver países, muito naturalmente, preocupados não com o excesso, mas com a falta de imigrantes. Às vezes, até os nossos emigrantes vêm da Suiça com esse discurso anti-imigrantes, como se não partilhassem da mesma condição. Este texto, nesse sentido, tem um carácter muito pedagógico: ler aqui. 


* "Para o investigador e especialista em Educação da Universidade Católica, Joaquim Azevedo, as mudanças previstas [para as escolas, nos curricula e métodos de ensino] são, mais cedo ou mais tarde, inevitáveis”. “Tenho estado em algumas escolas [que aderiram ao projecto] e tenho constatado dificuldades, mas nada que não se possa ultrapassar". Mas para concretizar esta visão optimista, acrescenta, vão ser precisos “recursos adicionais, pessoas experientes e financiamento, seja para a formação [de professores], seja para o acompanhamento e avaliação, seja ainda para a capacitação dos directores e das lideranças pedagógicas intermédias". E depois é preciso contar com esse obstáculo maior que é a resistência à mudança. “As rotinas instaladas são poderosas e na hora de colocar de pé uma escola mais motivadora e promotora do sucesso escolar de todos e de cada um, isso cria muitas dificuldades na concretização dos novos projectos, como se houvesse uma mó que nos prende atrás enquanto queremos seguir em frente”, diz Joaquim Azevedo. Que dá conta também do seguinte: “O drama existe quando os directores e professores nos dizem que já há muito que fazem isto que agora se quer realizar e, de uma penada, prosseguem a execução do projecto, a fazer o que é (seria) novo como sempre fizeram o que é (efectivamente) velho, normalizador e ineficaz”, no Público. Ler: aqui. Joaquim Azevedo foi dos principais responsáveis pela introdução desta reforma curricular, entre nós, na medida em que foi quase pioneiro na defesa pública dessa agenda. Se, na sua área política fosse mais escutado, se no comentariado político tivesse assento (nomeadamente nas tv's), evitavam-se os slogans e as frases feitas, e uma oposição apenas "ideológica" (e fraquinha) e passava-se a uma discussão mais conhecedora.

*Uma deputada do PSD avisou, por email, segundo os jornais, o que aí vinha na liderança daquela bancada parlamentar. A sessão legislativa não podia ter acabado pior.

* João Pedro George, hoje, em entrevista ao I [nesta questão, em particular, de acordo com António Araújo]: Pensa que essa sobranceria é outra chave para perceber a actual irrelevância da crítica? Por se recusar a ter em conta manifestações de ordem social? 

 Em parte sim. Escritores como José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, Margarida Rebelo Pinto, etc., devem ser estudados, não pela fama, pelo prestígio ou pelo dinheiro que possuem, mas porque têm um alcance social enorme. Não só para perceber o que é que há nesses livros que atrai tantas pessoas, mas também para criticar a visão estática, rudimentar e esquemática da realidade que está por trás desses romances. E ainda para chamar a atenção para um determinado clima estilístico, quase sempre bastante rançoso e sem grandes subtilezas intelectuais, onde as metáforas, as comparações, o léxico, a própria estrutura frásica, a arquitectura de conjunto só por caridade é que podem ser considerados literatura. Tanto o Equador como o Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, são bons exemplos da mentalidade machista e marialva em que ele vegeta. As descrições físicas das personagens femininas, de um mau gosto clamoroso, sobrepõem-se quase sempre à caracterização psicológica. Além de que os atributos físicos e eróticos dos homens, que poderiam explicar atracção das mulheres, nunca são descritos, provavelmente porque isso poderia pôr em causa a masculinidade do próprio Sousa Tavares. Depois, as negras e as mulatas são invariavelmente reduzidas à esfera animal dos instintos primários e da sensualidade mais compulsiva, por isso são tantas vezes comparadas a gazelas. No Equador a subjectividade ou o ponto de vista dos negros nunca é descrito e quando aparece é apenas para sublinhar o humanismo de Luís Bernardo, quando ele se opõe às injustiças dos outros brancos. Regra geral, os negros são concebidos como entidades homogéneas, são circunscritos às emoções e pensamentos básicos de agradecimento, medo, submissão, raiva, etc. Mas se até mesmo as personagens principais quase nunca estão submetidas a um grande número de ambivalências… A verdade é que ele revela-se incapaz de articular os problemas pessoais das personagens com as estruturas sociais que os criaram, os amplificaram e lhes colocaram determinados dilemas ou contradições.


*O exemplo da NBA como bem presente na hora de pensar em soluções para limitar uma concentração de poder económico-financeiro e desportivo de determinados clubes: tectos orçamentais a caminho? Multas pelo luxo? Chegam tarde e veremos se chegam a ser concretizadas, estas medidas.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

A ruína no "rust belt". A política. E a cultura (II)

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A tese central de J.D. Vance, em Hillbilly Elegy, pode, pois, ser sintetizada do seguinte modo: do ponto de vista político e ao nível cultural (o enfoque é aqui colocado, porque o livro é também uma carta de amor, por vezes desfeito e desesperado, à comunidade onde nasceu:"era assim o meu mundo: o mundo de comportamentos verdadeiramente irracionais. Gastamos tudo até ficarmos pobres. Compramos televisões de ecrã gigante e iPads. Os nossos filhos usam roupas boas graças a cartões de crédito com juros altos e empréstimos. Compramos casas de que não precisamos, refinanciando-as em troca de mais dinheiro para gastar, e depois declaramos falência e deixamo-las geralmente cheias de lixo. Poupar é para nós uma hostilidade. Gastamos para fingir que somos de uma classe superior. E quando a poeira assenta - quando a falência chega ou algum parente paga a fiança da nossa estupidez -, não sobra nada. Nada para pagar a faculdade dos filhos, nenhum investimento que nos possa manter, nenhum fundo de emergência se alguém perder o emprego. Sabemos que não devemos gastar assim. Às vezes censuramo-nos por isso, mas é assim mesmo que fazemos. As nossas casas estão sempre numa desordem total. Gritamos e berramos uns com os outros como se fôssemos um bando de arruaceiros num jogo de futebol. Pelo menos um membro da nossa família, consome drogas - às vezes, o pai, às vezes a mãe, às vezes, os dois. Em momentos particularmente stressantes, batemos uns nos outros, e à frente do resto da família, inclusive das crianças pequenas; boa parte das vezes, os vizinhos ouvem o que está a acontecer. Um dia mau é quando os vizinhos chamam a polícia para acabar com a confusão. Os nossos filhos vão para um centro de acolhimento, mas nunca ficam por muito tempo. Pedimos-lhes desculpa. E eles acreditam que estamos realmente arrependidos, e é verdade. Mas o nosso comportamento volta ao mesmo poucos dias depois. Não estudamos quando crianças, e não fazemos com que os nossos filhos estudem quando somos pais. Os nossos filhos têm más notas na escola. Podemos irritar-nos com eles, mas nunca lhe damos as ferramentas - como paz e sossego em casa - para vencerem. Mesmo os melhores e mais inteligentes provavelmente frequentarão uma universidade perto de casa, se sobreviverem ao cenário de guerra dos seus próprios lares. «Não me interessa se conseguires vaga na Universidade de Notre Dame», afirmamos. «Podes ter uma formação boa e barata num Community college». A ironia é que, para pessoas pobres como nós, a formação na Notre Dame é, ao mesmo tempo, a melhor e a mais barata. Optamos por não trabalhar quando, em vez disso, devíamos andar à procura de emprego. Às vezes, lá encontramos um, mas não ficamos empregados por muito tempo. (...) Dizemos que trabalhar arduamente tem valor, mas convencemo-nos a nós próprios de que não temos trabalho por causa de alguma injustiça evidente: Obama fechou as minas de carvão, ou os empregos foram todos para os chineses (...) Conversamos com os nossos filhos sobre responsabilidade, mas nunca damos o exemplo (...) A nossa alimentação e os nossos hábitos de exercício parecem feitos para nos mandarem para a cova mais cedo (...) Um estudo recente descobriu que a expectativa de vida da classe branca operária está a cair, algo raro entre os grupos étnicos nos Estados Unidos. Comemos bolos ao pequeno-almoço, Taco-Bell ao almoço, e McDonald's ao jantar. Raramente cozinhamos, apesar de ser mais barato e melhor para o corpo e a alma", pp.158-160 ) criem-se condições para não haver crianças sem grandes probabilidades/possibilidades de virem a singrar na vida.
Mas um outro aspecto essencial, neste conjunto de memórias e reflexões, prende-se com aquilo que se poderia chamar uma reivindicação das instituições. Em particular, podemos dizer, duas: o Exército e a Igreja. Num mundo onde a anomia social dita regras, há aqui, também, um forte elogio a estas instituições. Vance termina o Secundário inseguro. Sem saber exatamente o que fazer. Sem auto-confiança para ingressar numa universidade (e assumir os riscos de um endividamento a ressarcir com um bom emprego futuro). Então, uma familiar com ascendente sobre ele, sugere os marines. E Vance, mesmo contra a vontade, as ordens, as sugestões e imprecações da avó, a mamaw, acaba por ingressar nos marines. Aí, os valores de auto-controlo (fixa o episódio em que um superior hierárquico lhe atira um bolo da sobremesa para o chão, deliberadamente, e consegue não reagir, ao contrário do que sempre fizera na vida), disciplina (o levantar-se às 5h30 da manhã, diariamente) e superação (o recruta que se vê a conseguir alcançar, em termos físicos, o que julgara impossível) dar-lhe-ão um instrumento fundamental para o seu futuro: a nossa de que consegue, de que tem controlo sobre a sua vida e destino, um sentimento de que é indestrutível. Mais: os Marines aconselhá-lo-ão quanto a como e onde abrir uma conta bancária, a que empréstimo recorrer (atendendo a taxas de juro diferenciadas); evitarão que se perca por um BMW e fique por um utilitário mais moderado.
Durante a (sua) permanência nos Marines, a mamaw morre. E, de entre as suas funções naquele corpo militar, destacar-se-á a presença no Iraque (em plena guerra, na primeira década dos anos 2000; ainda que na parte de relações públicas, contactos com os media). A quando da sua presença na universidade, já depois de sair dos Marines, Vance ouve um daqueles jovens convencidos pronunciar-se, de modo rotundo, sobre os militares no Iraque, a sua menor sofisticação intelectual quando comparada com os estudantes como ele. A Vance apetece-lhe desistir, de imediato, do ensino superior (aquela arrogância ignorante irritara-o). E se a alegação era o desrespeito dos militares pelos civis iraquianos, e se a ideia de impreparação e de elefantes em lojas de porcelana, que ignoravam e desrespeitavam, sistematicamente, uma cultura foi fazendo caminho, Vance responde: "Ele explicou que os combatentes eram naturalmente menos inteligentes do que aqueles que (assim como ele) ingressavam na universidade. Isso era evidente, alegou ele, pela forma cruel como os soldados assassinavam e desrespeitavam os civis iraquianos. Era uma avaliação absurda - os meus amigos dos Marines dividiam-se pelo espectro político e tinham opiniões divergentes sobre a guerra. Muitos deles eram liberais que não morriam de amores pelo nosso presidente - George W. Bush, naquela altura - e achavam que ele tinha sacrificado muito por muito pouco. Mas nenhum deles alguma vez disse um disparate tão despropositado. Enquanto o aluno falava sem parar, pensei nas sessões de treino intermináveis sobre como respeitar a cultura iraquiana - nunca mostrar a sola do sapato a ninguém, nunca se dirigir a uma mulher com trajes muçulmanos tradicionais sem antes falar com o parente do sexo masculino. Pensei na segurança que oferecemos a trabalhadores iraquianos e como explicávamos a todos cuidadosamente a importância da missão sem nunca lhes impor a nossa visão política (...) E ali estava aquele imbecil barbudo a dizer à turma que assassinamos pessoas por desporto. Senti vontade de abandonar a faculdade imediatamente" (pp.198-199). 
Quanto ao papel da Igreja, uma observação global, a partir da metanoia do progenitor: "o meu pai tinha mudado para melhor. Ele atribui isto a um envolvimento mais sério com a sua religião. Neste aspecto, o meu pai personificava um fenómeno que os cientistas sociais vêm observando há décadas: as pessoas religiosas são muito mais felizes. Quem vai regularmente à Igreja comete menos crimes, têm uma saúde melhor, vive mais, ganha mais dinheiro, abandona a escola com menos frequência, e termina a faculdade com mais frequência do que aqueles que não vão à Igreja. O economista do MIT Jonathan Gruber observou até que esta relação era casual: não se trata apenas do facto de que essas pessoas mais bem-sucedidas também vão à Igreja; a Igreja é que parece promover bons hábitos" (p.104; Vance cita o seguinte artigo de Linda Gorman: https://www.nber.org/digest/oct05/w11377.html). Apesar do que dizem as sondagens, irrealistas, neste caso, em função da pressão cultural para as respostas, a frequência sulista (nos EUA) à Igreja é baixa: "a justaposição é gritante: as instituições religiosas permanecem uma força positiva na vida das pessoas, mas numa parte do país afectada pelo declínio da indústria, pelo desemprego, pelas drogas e pelos lares desfeitos, a frequência à Igreja diminuiu muito. A Igreja do meu pai oferecia algo de que pessoas como eu precisavam desesperadamente. Para os alcoólatras, dava uma comunidade de apoio e um sentimento de que não lutavam contra o vício sozinhos. Para as mães grávidas, oferecia uma casa de apoio, formação profissional e aulas de cuidados infantis. Quando alguém precisava de emprego, os amigos da Igreja procuravam uma vaga ou davam o contacto de alguém. Quando o meu pai enfrentou dificuldades financeiras, a Igreja juntou-se e comprou um carro usado para a família. No mundo destruído que eu via à minha volta - e para as pessoas que enfrentavam dificuldades nesse mundo -, a religião oferecia uma assistência tangível para que a fé permanecesse" (pp.105-106).
O outro lado da religião do pai de Vance faz parte, no entanto, do desconcerto habitual: a defesa, fundamentalista, do criacionismo (com a rejeição da teoria da evolução), a profecia milenarista ("convenci-me a mim mesmo de que o mundo iria acabar em 2007", p.107) e Satã por todo o lado ("até deitei fora os meus CD dos Black Sabbath", p.107). A desvantagem da "teologia dele"(p.108) era, pois, "promover um certo isolamento do mundo. Eu não podia ouvir Eric Clapton na casa do meu pai - não porque as letras fossem impróprias, mas porque Eric Clapton era influenciado por forças demoníacas. Ouvira dizer, em jeito de brincadeira, que se tocássemos a canção dos Led Zeppelin «Stairway to Heaven» de trás para a frente, ouviríamos um feitiço maligno, mas um membro da igreja do meu pai falava sobre esse mito como se ele fosse realmente verdade (...) Entretanto, eu era um rapaz curioso, e quanto mais mergulhava na teologia evangélica, mais me sentia inclinado a desconfiar de muitos sectores da sociedade. O evolucionismo e a teoria do Big Bang tornaram-se ideologias a ser confrontadas, não teorias a ser compreendidas. Muitos dos sermões que ouvi dedicavam mais tempo a criticar outros cristãos do que qualquer outra coisa. As linhas da guerra teológica estavam estabelecidas, e as pessoas que se encontravam do outro lado não estavam apenas erradas a respeito da interpretação da Bíblia, elas eram de certa forma não cristãs. O meu tio Dan era o homem que eu mais admirava no mundo, mas quando ele falou da sua aceitação católica da evolução, a minha admiração ficou manchada de desconfiança. A minha nova fé pusera-me à espreita de heréticos. Bons amigos que interpretavam partes da Bíblia de modo diferente eram más influências. Até a mamaw perdeu a sua popularidade junto de mim, porque, para ela, as suas crenças religiosas não entravam em contradição com a sua preferência por Bill Clinton (...) Na minha nova Igreja, por outro lado, eu ouvia mais sobre o lobby gay e a guerra contra o Natal do que sobre qualquer traço particular de carácter que um cristão deveria desejar possuir (...) A moralidade era definida como a não-participação nesta ou naquela doença social: a agenda gay, a teoria da evolução, o liberalismo clintoniano, ou o sexo fora do casamento. A Igreja do meu pai exigia tão pouco de mim. Era fácil ser cristão. Os únicos ensinamentos afirmativos que me lembro de ter recebido daquela Igreja foram que eu não devia trair a minha esposa e não devia ter medo de ensinar a palavra de Deus aos outros. Então, planeei uma vida de monogamia e tentei converter outras pessoas, inclusive a minha professora de ciências do sétimo ano, que era muçulmana. O mundo caminhava na direcção da corrupção moral - rumo a Gomorra. O Juízo Final chegaria em breve. Imagens apocalípticas enchiam os sermões semanais e os livros Left Behind (...) As pessoas discutiam se o Anticristo estava vivo na Terra e, se assim fosse, qual dos líderes mundiais ele podia ser. Houve alguém que me disse que esperava que eu me casasse com uma rapariga muito bonita se o Senhor não chegasse antes de eu ter idade para me casar. O Fim dos Tempos era o término natural para uma cultura que escorregava rapidamente na direcção do abismo. Outros autores notaram as péssimas taxas de retenção das Igrejas evangélicas e culparam precisamente essa espécie de teologia pelo seu declínio. Não percebi isso quando era criança. E nem percebi que as ideias religiosas que desenvolvi durante os meus primeiros anos com o meu pai lançavam as sementes para uma rejeição total da fé cristã "(pp.108-111). Já adulto, maduro, depois da passagem pelos Marines, a Ohio State, Yale, vários empregos tidos, formado em Direito, porém, J.D.Vance retoma a fé cristã e, o mais interessante, vincula-a a uma procura de compreender a mãe e não (apenas) julgá-la ("eu tinha jurado a mim mesmo que nunca mais ajudaria a minha mãe, mas a pessoa que tinha feito aquele juramento tinha mudado. Eu estava a explorar, ainda que de maneira confusa, a fé cristã que havia descartado anos antes. Tinha-me apercebido, pela primeira vez, da extensão das feridas emocionais de infância da minha mãe. E cheguei à conclusão de que essas feridas nunca se curam, nem mesmo por mim. Então, quando descobri que a minha mãe estava em apuros, não a insultei baixinho e desliguei o telefone. Ofereci ajuda", p.249). E, como vimos, ainda, no post anterior, ele percebe como a Igreja, e os ensinamentos cristãos sobre o amor seriam/são/serão, ainda, contributos essenciais na sua comunidade para forjar uma personalidade sadia (nos mais novos).
J.D. Vance, após a passagem pelos Marines, ganhou uma auto-confiança poderosa que o ajudou a quebrar barreiras e transpor a classe social de origem. O relato poderia ficar-se por um final feliz, de quem passou para o outro lado, abandonou maus hábitos, trabalhou e passou a ter uma vida bela. Mas havia pesadelos para contar; fugas ao relacionamento com os outros para revelar, explosões e fins de namoro que só não ocorreram porque Usha, a mulher, veio em seu resgate. O pesadelo regressa, como o monstro da infância que se impõe vigiar, porque, possivelmente, nunca será morto (definitivamente). 
Vance teve um Natal sempre recheado de prendas, mesmo sem saber como tal era possível (face aos recursos existentes na família); as pessoas de que dependeu não tinham obrigação de o ter ajudado (p.116); sendo uma velha malvada, nunca a avó (mamaw) lhe bateu, ao contrário do que se passava em casa com a mãe (que lhe oferecia sucessivos "pais" que de imediato deixavam de o ser); com os Marines, viu a incontida e irrepetível alegria de um menino quando lhe ofereceu uma borracha - e sentiu-se, afinal, um privilegiado, nascido no "melhor país do mundo" (algo que a pobreza, como nunca tinha visto, no Haiti, acentuou). De resto, se algo caracteriza a sua comunidade (e a sua avó personificando-a) era ter "dois deuses: Jesus Cristo e os EUA" (p.202).
De aí que seja grave a presente alienação: "não podemos confiar nos noticiários da noite. Não podemos confiar nos nossos políticos. As nossas universidades - as portas para uma vida melhor - estão contra nós. Não conseguimos encontrar emprego. Não se pode acreditar nessas coisas e participar significativamente da sociedade. Psicólogos sociais demonstraram que a crença colectiva é um poderoso motivador para o desempenho (...) É óbvio o motivo: se se acredita que o trabalho árduo compensa, trabalha-se arduamente; se se acha que é difícil vencer mesmo quando se tenta, então para quê tentar?" (p.206).
Porque é que muitas destas pessoas não se reviam em Barack Obama? "O presidente parece ser de outro planeta para muitos dos habitantes de Middletown por motivos que não têm nada a ver com a cor da pele. Lembre-se que nenhum dos meus amigos da escola estudou numa das melhores universidades do país. Barack Obama estudou em duas, e foi muito bem-sucedido em ambas. Ele é brilhante, rico e fala como um professor de Direito Constitucional - e ele é, efectivamente, professor de Direito Constitucional. Nada nele se parece com as pessoas que eu admirava quando cresci: o sotaque dele - limpo, perfeito, neutro - parece estrangeiro; as suas credenciais são tão impressionantes que chegam a ser assustadoras; ele construiu uma vida em Chicago, uma metrópole; e transmite uma confiança que advém do facto de saber que a meritocracia americana moderna foi feita à sua medida. Claro, Obama superou a adversidade por mérito próprio - a mesma adversidade que nos é familiar -, mas isso foi antes de qualquer um de nós o conhecer. O presidente Obama entrou em cena justamente quando tantas pessoas da minha comunidade começaram a acreditar que a meritocracia americana moderna não tinha sido feita para elas. Sabemos que a vida não nos corre bem. Vemos isso todos os dias: nos obituários de adolescentes que omitem a causa da morte (leia-se nas entrelinhas, overdose), nos gandulos com quem vemos as nossas filhas perderem tempo. Barack Obama atinge o cerne das nossas mais profundas inseguranças. Ele é um bom pai, enquanto muitos de nós não somos. Ele vai trabalhar de fato, enquanto nós usamos os macacões, se tivermos sorte em ter um emprego. A esposa dele alerta-nos para não darmos certas comidas aos nossos filhos, e nós odiamo-la por causa disso - não por acharmos que ela está errada, mas por sabermos que tem razão" (pp.203-204). Embora aqui, neste livro, o autor o não tenha escrito, dado o carácter pedagógico que sem dúvida procura inculcar no escrito sobre e para a sua comunidade de nascença, Vance dirá, depois, que os políticos podiam e deviam, a bem do cimento social, fazer um esforço de vinculação empática/emocional com populações de que de facto estão muito afastadas e um modo de vida que lhes é muito longínquo (da fala à alimentação, do vestuário ao desemprego, do tipo de família aos problemas de álcool e droga, passando pelos estabelecimento de ensino frequentado, os cocktails e o networking). Há um abismo, um muro que separa muitos americanos: "outra lição é que não são apenas as nossas próprias comunidades que reforçam a atitude do estranho, são os lugares e as pessoas que a ascensão social coloca em contacto connosco - como o professor que sugeriu que a Faculdade de Direito de Yale não deveria aceitar candidatos de universidades estaduais sem prestígio. Não há como quantificar o quanto essas atitudes afectam a classe trabalhadora. Sabemos que americanos de classe trabalhadora não apenas têm uma menor probabilidade de subir a escada económica, mas também são mais susceptíveis de cair mesmo depois de chegarem ao topo. Imagino que o desconforto que sentem ao deixarem tanto da sua identidade para trás desempenhe pelo menos um pequeno papel nesse problema. Então, a forma pela qual as classes superiores podem promover a ascensão social é não só promovendo políticas sociais mais sábias, mas abrindo os seus corações e as mentes para novatos que não se encaixam perfeitamente" (p.218).
Os pobres (nos EUA) não vestem pijama - "dormimos de cuecas ou mesmo calças de ganga" (p.261). E os saloios estão, na escala social, mais perto dos negros do que dos brancos (p.38). Ao pequeno almoço, pode comer-se ovos mexidos, presunto, batatas fritas e bolachas; ao almoço, sanduíches de mortadela e ao jantar sopa de feijão e milho (p.26). Mudar de estatuto é também mudar de hábitos - da alimentação cuidada, às viagens e à frequência dos concertos de música clássica.
Para a inserção no elevador social, as expectativas desempenham um papel muito importante: "A tua geração vai ganhar a vida com a cabeça, não com as mãos - disse-me ele [o avô, o papaw] uma vez. A única carreira aceitável na Armco era a de engenheiro, não a de operário na fundição. Muitos outros pois e avós de Middletown devem ter sentido a mesma coisa: para eles, o Sonho Americano precisava de um salto em frente. O trabalho manual era honrado, mas era o trabalho da geração anterior - nós tínhamos de fazer algo diferente. Ascender era seguir em frente. Isso exigia ir para a universidade. E, no entanto, não existia a sensação de que não conseguir frequentar a universidade traria vergonha ou qualquer outra consequência. A mensagem não era explícita; os professores não nos diziam que éramos demasiado burros ou pobres para o conseguir. Entretanto, ela pairava sobre nós, como o ar que respirávamos: ninguém na nossa família tinha ido para a universidade; amigos e irmãos mais velhos contentavam-se em ficar em Middletown, não importava qual fosse a perspectiva de carreira que houvesse lá; nós não conhecíamos ninguém numa universidade respeitada noutro estado; e toda a gente conhecia pelo menos um adulto jovem que estava subempregado ou desempregado. Em Middletown, 20% dos alunos de escolas públicas de ensino médio que entram na universidade não chegam a licenciar-se. A maioria não se forma na universidade. Praticamente ninguém irá para uma universidade noutro estado. Os estudantes não esperam muito deles mesmos, porque as pessoas à sua volta também não esperam muito deles. Muitos pais aceitam esse fenómeno. Não me lembro de ter sido repreendido por tirar uma nota má até que a mamaw começou a interessar-se pelos meus estudos no ensino Secundário. Quando a minha irmã ou eu tínhamos dificuldades na escola, eu ouvia coisas do tipo: «Bem, talvez ela não seja muito boa com fracções», ou «O J.D. está mais vocacionado para os números, por isso não me preocuparia com o teste de ortografia»" (pp.66-67).
O Secundário, vivido sozinho com a avó, foi, neste contexto, determinante para Vance: "o professor Selby [e há sempre um professor particularmente inspirador na história, e este é o tal] sugeria (mas não exigia) que os seus alunos tivessem calculadoras científicas avançadas - o modelo 89 da Texas Instruments era o mais recente e melhor. Não tínhamos telemóveis, nem roupas caras, mas a mamaw certificou-se de que eu tivesse uma daquelas calculadoras. Isso ensinou-me uma lição importante sobre os valores da mamaw e fez com que eu me empenhasse na escola como nunca antes tinha feito. Se a mamaw podia gastar 180 dólares numa calculadora científica - ela não me deixou gastar um cêntimo do meu dinheiro -, então eu tinha de levar os estudos mais a sério. Eu devia-lhe isso, e ela lembrava-mo constantemente.
- Já acabaste o trabalho do professor Selby?
- Não, mamaw, ainda não.
- É melhor começares já. Não gastei uma pipa de massa naquele computadorzinho para ficares a coçar os tomates o dia todo.
Aqueles três anos com a mamaw - ininterruptos e sozinho - salvaram-me. Não notei a relação de causa e efeito da mudança, como viver com ela transformou a minha vida. Não percebi que as minhas notas começaram a melhorar imediatamente depois de me mudar para casa dela. E não tinha como saber que estava a fazer amigos para a vida toda" (pp.149-150).
Vance, já empregado, ganhando algum com os Marines irá ajudar a avó com dinheiro para os seus medicamentos e alimentação [além da avó, é especialíssima a relação que estabelece com a (meia) irmã Lindsay que adora; todos os restantes meio-irmãos são como que ignorados]. E, mais tarde, dispõe-se a contrair uma dívida de 200 mil dólares para ficar em Yale (faculdade onde estudará o filho de Tony Blair, que surge ali a dar uma conferência).
Todavia, surpreendentemente, verificará que "o apoio financeiro que Yale oferecia suplantou as minhas melhores expectativas. O meu primeiro ano foi quase todo de graça. Não por causa de nada que eu tenha feito ou merecido - foi porque eu era um dos alunos mais pobres da escola. Yale oferecia dezenas de milhares de dólares em apoios por necessidade. Pela primeira vez, ser tão pobre era uma coisa boa. Yale era não apenas a instituição de ensino com que eu sonhava, era também a opção mais barata que eu tinha. O New York Times noticiou recentemente que as escolas mais caras são paradoxalmente mais baratas para alunos de baixos rendimentos. Por exemplo, um aluno cujos pais ganham 30 mil dólares por ano - não é muito dinheiro, mas essa quantia não permite que a pessoa seja qualificada como pobre; esse aluno pagaria dez mil dólares num dos campus menos prestigiados da Universidade do Wisconsin, mas pagaria seis mil no campus principal da faculdade de Madison. Em Harvard, o aluno pagaria apenas cerca de 1300 dólares, apesar de as propinas geralmente ascenderem a 40 mil dólares" (p.211). Mas, "claro, jovens como eu não sabem disso" (p.211).

Responsabilidades na ruína do "rust belt". As políticas. E as culturais.


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Sobrevivemos à infância? E torná-la susceptível de nos ligar ao futuro, depende de políticas, de culturas, de mentalidades, de quê, afinal? 
Entre a introspecção auto-biográfica, a observação sociológica, a estatística da mobilidade social, o relato fantástico/terrível (fantasmagórico) de uma infância e adolescência em carne viva (permeada, sucessivamente, por violência bastante), entre o acerto de contas com o passado (e a mãe, muito em particular), a assunção da complexidade da realidade e a construção de uma sabedoria que rejeita a condescendência, mas não ignora a literatura dos constrangimentos ao elevador social (norte-americano: "num trabalho em que analisa uma série de dados, Chetty e os outros coautores destacam dois factores que explicam a distribuição desigual de oportunidades: a incidência de pais solteiros e de desigualdades salariais. Crescer perto de muitos pais solteiros e morar num lugar onde a maioria dos nossos vizinhos é pobre reduz muito o terreno de possibilidades. Significa que, a menos que tenhamos uma mamaw e um papaw que se certifiquem de que andamos na linha, não há escapatória", p.254) se faz a elegia de um mundo Hillbilly num retrato cru, de quem, migrando socialmente, continua ligado à corrente de onde proveio. Um livro intenso, este de J.D.Vance, de uma grande vivacidade, que alternando nas pistas entre o amor/ódio para com as origens - como num policial surpreendente - desemboca em uma sabedoria que, mais (e depois de) do que julgar procura compreender, apontando lugares a mudar, se compromete com a dificuldade de rótulos, de soluções, que joga o jogo de quem se assume um vencedor repleto de cicatrizes e falhas que vigia de perto, mas prontas a explodir, afirmando, pois, a sua vulnerabilidade, num sedutor encontro com o saloio que sabe que só singrou na vida por causa dos seus mamaw [avó] e papaw [avô] (nunca o seu nome é self made man, num agradecimento sensível e inteligente a quem o segurou) e outros mentores, familiares, amigos ("em cada nível da minha vida e em cada ambiente, encontrei familiares, mentores e amigos que me apoiaram e me ajudaram. Mas pergunto-me frequentemente: onde estaria eu sem eles", p.265), não enjeitando, contudo, nunca a responsabilidade individual e comunitária - e aí concentrando, diria, a sua atenção. 
Hillbilly Elegy é a história de comunidades operárias brancas, do cinturão industrial norte-americano, nas quais a presença de famílias desestruturadas, a ausência de um amparo (e uma linha) para quem cresce, a emergência das drogas, do álcool, de uma violência larvar com justiça pelas próprias mãos tende a hipotecar as hipóteses de uma vida mais realizada. J.D.Vance passou pelo calvário de uma infância a ver mudar, constantemente, a figura paterna de referência ("nenhum país experimenta nada parecido. Na França, a percentagem de crianças expostas a três ou mais parceiros das mães é de 0,5 - ou seja, cerca de uma em duzentas. O segundo índice é de 2,6, na Suécia, ou seja, cerca de uma em quarenta. Nos Estados Unidos, o índice é chocante, de 8,2% - cerca de uma em doze - e o índice é ainda mais alto na classe operária", p.240), a mãe em cenas de violência conjugal e doméstica, o desperdício de dinheiro, os abusos do álcool, as vezes em que a progenitora foi detida, as incontáveis ocasiões em que aquela esteve em desintoxicação por drogas. Vance quase sucumbiu e abandonou a escola antes da ida para a faculdade. As notas não foram boas, as faltas muitas. Salvaram-no os avós, rústicos que haviam tido o seu próprio historial de pegas e violências, mas que deram o sentimento de acolhimento, hospitalidade, continuidade, estabilidade, coerência, amparo, amor a Vance. O obrigaram a estudar, a fazer os trabalhos de casa, vigiaram as más companhias ["todos os meus amigos planeavam ir para a universidade; o facto de eu ter amigos tão motivados vinha da influência da mamaw. No meu sétimo ano na escola, muitos dos meus amigos do bairro já fumavam marijuana. A mamaw descobriu e proibiu-me de andar com eles. Reconheço que a maioria dos jovens ignora ordens destas, mas a maioria dos jovens não as recebe de Bonnie Vance. Ela garantiu-me que, se me visse com qualquer rapaz da sua lista negra, ela atropelava-o com o carro. «E ninguém ficará a saber», sussurrou ameaçadoramente", p.166]. É delicioso o retrato da avó malvada, de espingarda permanentemente em punho, de linguagem brejeira, durona, sempre de pelo na venta. Tal como o é, nas trocas e baldrocas de casa, a tentativa de morar com o pai, este recém convertido a uma Igreja cristã - pelo menos, com maior fervor que na anterior pertença débil -, com as ideias milenaristas, o rock perverso a ter que ser afastado, e o pecado sempre por perto. Ou, na faculdade de Direito de Yale, pela qual se formará, todo o networking, e os jantares de nove talheres em serões como entrevistas de emprego.
Sim, diz Vance, caberia ao governo não criar guetos (habitacionais) para pobres; a limitação da concentração de pessoas com determinado nível de rendimento, em determinados bairros, permitiria outra interacção social que beneficiaria todos e impediria que uma cultura maciça de um fracasso existencial visto como inelutável se impusesse - a mobilidade social ocorreria com muito mais frequência. Sim, diz Vance, a assistência social devia ter outro cuidado, a legislação devia mudar no que a pais autorizados a ficar com crianças que têm que sair de famílias nucleares desestruturadas, atendendo, de outro modo, a esses critérios, em particular com a restante família.
Mas há um discurso derrotista à partida, desencorajador de trabalhar mais, como se essa ética do trabalho, apregoada sempre, não tivesse, naquela comunidade, qualquer ligação com a realidade ("bem prega Frei Tomás..."). Como se o discurso da impotência, da desculpa da derrota, tivesse infectado todos, e os paralisasse para alterarem a sua situação. Um discurso que os avós de Vance lhe haviam incutido como sendo de rejeitar. Aqui, a questão política assoma com particular densidade: a família de operários da "rust belt" era, desde há muito, democrata. Todavia, uma experiência profissional como caixa de supermercado e, com ela, a dos benefícios sociais, os subsídios concedidos pelo Tio Sam, fez Vance começar a mudar de ideias: quem programou aqueles subsídios teria boas intenções (para com os mais pobres), mas, no fundo, desincentivava a emancipação (dos mais desfavorecidos; já agora refira-se que, basicamente, é este o argumento desenvolvido na tese académica que deu origem ao livro de Martim Avillez Figueiredo com a sua posição sobre o rendimento básico universal). Isto, de resto, como sabemos, como que faz parte do menu habitual de todas as eleições, um pouco por toda a parte: para um social-democrata, a cana de pescar tem que ser dada/ensinada porque, se não, de facto, não se sai da pobreza (e decai-se no assistencialismo), mas, até esta estar adquirida a pessoa precisa (mesmo) do (próprio) peixe. O calibrar/desenhar das medidas de apoio social para que estas não se transformem num ciclo vicioso (embora haja casos de inevitável perpetuação), mas sejam positivas para uma futura emancipação do próprio seria/é o tema (não, propriamente, a caça ao outro, e muito menos um discurso demagógico e pouco sustentado sobre fraude, milhões deitados fora, "os meus impostos!"; um inciso ou parêntesis para a realidade política nacional: num debate para as legislativas de 2009, com Paulo Portas verberando determinado tipo de subsídios sociais e trazendo de novo a metáfora da cana de pesca vs o próprio peixe, Manuela Ferreira Leite respondeu-lhe que se uma pessoa estava com fome, e ia aprender a pescar, ainda morria esfomeado antes de ter a lição aprendida; na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, escrita por Vítor Matos, podemos relembrar o que dizia Marcelo na condição de líder da oposição sobre o então denominado rendimento mínimo garantido: "umas migalhas"; e com efeito, em sendo migalhas, não tem sentido o anátema que tantas vezes se cria sobre as pessoas que dele auferem, num dado momento, como se aquele subsídio permitisse viver à grande e à francesa; e, por outro lado, é preciso perceber o objectivo daquela prestação social não contributiva: combater a pobreza severa; nem sequer a pobreza, mas a severidade desta; e, tendencialmente, com carácter transitório, pois se espera que aquele que dela necessita possa ser reintegrado no mercado de trabalho; já agora, atente-se como os níveis de severidade da pobreza aumentaram largamente na legislatura precedente). 
Vance é, hoje, um republicano, mas, como se percebeu, não é um radical: a questão habitacional, a ajuda precoce à criança, os critérios para o tratamento familiar dificilmente o colariam a uma direita mais contundente. E o jurista não ignora - e aduz ao seu livro - as estatísticas que mostram bem como em tantos países europeus a mobilidade social é superior à dos EUA (como o caso nórdico a uma distância estratosférica, como, aliás, Stiglitz mostrara profusamente em O preço da desigualdade). 
Até certo ponto, há uma tensão entre o reconhecimento da sua singularidade - o primeiro da sua família nuclear a ir para a universidade; o primeiro, em toda a família, a formar-se; raríssimo caso, em Yale, vindo de uma família pobre -, o reconhecimento dos graves problemas de mobilidade social nos EUA e algum discurso que redunda em "se acreditarmos que com o nosso trabalho e esforço podemos subir socialmente, vamos sair do ponto em que estamos" ("não digo que a capacidade não importa. Certamente ajuda. Mas existe algo poderoso em perceber que nos subestimámos - que, de alguma maneira, a nossa mente confundiu falta de esforço com falta de capacidade. É por isso que quando as pessoas me perguntam o que eu gostaria de mudar na classe trabalhadora norte-americana, eu respondo: «A ideia de que as nossas escolhas não importam»", p.189). Diria que o alerta de Vance, bem situado, poderia colocar-se, mais rigorosamente, do seguinte modo: apesar de, face às desvantagens de partida e de todas as dificuldades para entrar no elevador social, a auto-condescendência (comunitária/pessoal) só jogará em "nosso" desfavor e, em assim sendo, "tenhamos" a coragem de "nos" olharmos ao espelho e "mudarmos" aspectos que são nucleares à "nossa" cultura/mentalidade, porque aí nenhum governo pode "ajudar-nos": "a morte da mãe de Brian foi mais uma 'carta má' numa 'mão' já de si péssima, mas ainda há muitas cartas para sair: a família pode conseguir dar-lhe a sensação de controlar o próprio destino, em vez de o incentivar a procurar refúgio em ressentimentos contra forças que estão fora do seu controlo; ele pode ser acolhido na comunidade de uma igreja que lhe ensine sobre o amor cristão, a família e o propósito de vida; e pode sofrer a influência positiva de pessoas que lhe deem apoio emocional e espiritual.
Acredito que nós, saloios, somos as pessoas mais valentes à face da Terra. Facilmente empunhamos uma serra eléctrica contra aqueles que ofendem as nossas mães, ou fazemos outros engolirem umas cuecas para protegermos a honra das nossas irmãs. Mas será que somos valentes o suficiente para fazer o que precisa de ser feito para ajudar um rapaz como o Brian? Somos valentes o suficiente para construir uma igreja que faz com que jovens como eu se integrem no mundo em vez de se apartarem dele? Somos valentes o suficiente para nos vermos ao espelho e admitirmos que fazemos mal aos nossos filhos?
Políticas públicas podem ajudar, mas não há governo que possa corrigir esses problemas por nós" (p.267)
Um aspecto que liga, precisamente, este livro a Pais à maneira dinamarquesa é esta defesa de que se pode fazer alguma coisa, de que não está tudo fora das "nossas mãos", de controlar (em certa medida, diria) "o próprio destino". E uma filósofa liberal (no sentido norte-americano do termo), Martha C.Nussbaum também defende a responsabilidade individual (e, aqui, neste contexto também é defendida a responsabilidade comunitária, por Vance) como sendo um aspecto central a transmitir em qualquer educação. Um dos problemas desta comunidade do cinturão industrial prende-se com o não acreditar praticamente em nenhuma instituição do país, jornais incluídos, o que permite não apenas as fake news, mas todo o tipo de narrativa auto-justificativa para nada se mudar (no interior da comunidade). Todavia, em se perguntando o autor sobre para que se esforçará e trabalhará quem sabe que a seguir não terá a recompensa, nem sairá do mesmo patamar, em que se encontrava, de novo, pode dizer-se, se regista a tensão: o elemento volitivo tem a sua pertinência - deve dar-se tudo, mesmo que se perca, ou que se saiba que a vitória será muito difícil -, mas tal também não permite apagar o elemento sistémico no que à mobilidade social diz respeito nos EUA. E como o retrato, neste livro, é bom e complexo, lá temos o Professor de Yale a dizer que só os alunos das melhores universidades deviam ali estar (ou seja, as grandes universidades públicas, como aquela em que Vance estivera, não valia nada) e o networking a contar mais do que qualquer outra coisa - qual enviar currículos, qual quê - e o forjar da endogamia, com todos os seus trejeitos, exposta em toda a sua feição, admitindo, em realidade, apenas uma improvável excepção (a do rapaz nascido em 1984, que viveu em Middletown e se formou na Ohio State).

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Descobertas de Verão

Verdades inconvenientes

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Entre a roupa doada para Pedrógão Grande, informa a Sábado, estão coisas como máscaras do Homem Aranha, do Zorro, vários fatos de carnaval, uma caixa de lengerie sexy, camisas de dormir em cetim, baby-dolls em rendas, com cuecas a condizer. Saiote de noiva. Vestidos de noite compridos, com lantejoulas e brilhantes, e sapatos de salto agulha. Roupa interior em segunda mão, suja e rota. Calcula-se que 10% do material enviado seja isto. Não, não é só o "bom povo", enganado por espertos, quando participa em campanhas solidárias e vê desvios pelo alheio; é, também, uma parte do "bom povo" que utiliza tais campanhas para se desfazer do lixo, desprezar o próximo, e mostrar a sua cara mais grotesca.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um mundo perdido

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Ler: No livro refere frequentemente os cheiros da montanha. Acha que para o homem moderno, que vive nas cidades, esse mundo de odores é um mundo perdido?

Paolo Cognetti: Sim. Todo o mundo de coisas que podemos fazer com as nossas mãos se perdeu. A relação que nós temos com o mundo através das nossas mãos também se perdeu na cidade


Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, p.44

Puro


Ler: Não queria muito ir por aí, mas tenho de falar dos livros de Elena Ferrante porque abordam o tema da infância e da amizade, neste caso, entre raparigas. E há nessa relação uma grande rivalidade e aqui, entre Pietro e Bruno, nunca se sente a mesma rivalidade violenta, uma luta. Será por serem dois personagens tão diferentes?

Paolo Cognetti: Não quero dizer nada que seja machista, mas acho que nas amizades entre raparigas há sempre grande rivalidade, inveja de alguma coisa, há sempre um ponto em que acontece alguma coisa. E vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro. Talvez seja uma ilusão, talvez não seja real. Mas sinto que há uma lealdade profunda entre Pietro e Bruno, algo que se quebra quando entra uma mulher em cena. Para esta história, imaginei este momento em que a mulher aparece e cria um momento difícil entre os dois amigos.

Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, pp.46-47.