terça-feira, 25 de julho de 2017

A montanha como lugar político


Na recensão de A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq, que fui publicando neste blog, a certa altura, sublinhava:

Embora não fosse a primeira vez que ouvia uma pessoa assumir como desiderato de uma jubilação – tão antecipada quanto possível – uma fuga mundi, o deixar isto e ir viver sozinho para a montanha, não apenas um desabafo, mas uma convicção, um projecto, fazendo da auto-suficiência, e da prova de conseguir viver sem os outros (vou demonstrar que não preciso dos outros para permanecer), uma mostra de músculo e de um estoicismo que continha, igualmente, em potência, e aqui talvez Houellebecq não tenha considerado a perspectiva, uma (forte) crítica à sociedade em que se investe (e não conterá, sempre, qualquer fuga mundi esse protesto, ou pelo menos, uma desadaptação que encerra um desgosto com o estado da arte do mundo?).

Ao ler, agora, a entrevista de Paolo Cognetti, a Bruno Vieira Amaral, no mais recente número da Ler como que vejo corroborada esta leitura que destaquei:

"Sou um leitor de Henry David Thoreau e vejo a escolha de ir viver para a floresta como uma escolha política, de alguém que critica o modo de vida da sua época. Penso que não se trata de uma crítica generalizada à cidade, mas à cidade no meu tempo. Sinto que vivemos num tempo de decadência ao nível político e cultural e sinto que devo procurar não só um outro modo de vida como também de escrita. Para mim, tudo começa no lugar onde vivo" (p.44, Ler nº146, Verão 2017)

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