terça-feira, 25 de julho de 2017

A montanha, o espírito e a pureza

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Ler: Ao longo da História, a ideia da montanha sempre esteve associada à religião e ao divino. Acha que as pessoas hoje em dia vão para lá à procura do divino ou de si próprias? Acha que essa busca tem que ver com uma ligação religiosa que se perdeu com os tempos?

Paolo Cognetti: Penso que sim. As pessoas vão para lá à procura de algo espiritual, a que talvez não chamem «Deus», mas não é apenas a procura da proximidade com os animais, a natureza, a floresta. Há algo mais do que isso que oiço nas histórias que as pessoas que vão para as montanhas me contam, algo que sentem, ou julgam sentir ou que querem sentir. Algo espiritual, sim.

(...)

Ler: Acha que este mito, esta ideia de fugir da civilização é uma escolha a que só nós, os ocidentais, nos podemos dar ao luxo?

Paolo Cognetti: Acha que é um mito ocidental? Acho que é um mito universal, também existe na Índia [Pausa]. (...) Não diria que é algo próprio de uma civilização rica, mas também de uma civilização decadente, outrora rica, e que está em crise. Esta é a história do Ocidente. E em tempos de crise, as pessoas começam a ter necessidades diferentes, como a necessidade de abandonar tudo. Isto não acontece em sociedades que estão em crescimento, como acontece hoje na China, onde penso que ninguém agora tem vontade de ir viver para a floresta. [Risos] Também na Itália, nos anos 60 e 70 ninguém pensava nisso.


Ler: Mas este tipo de pensamento já existia no Ocidente em fases de ascensão económica, durante a Revolução Industrial, com a ideia de construção de comunidades fora do mundo, fora da sociedade. Será que no Ocidente não nos estamos sempre a pensar como estando num período de crise e decadência?

Paolo Cognetti: Penso mais no mito americano da fronteira que associa o Leste às cidades, ao desenvolvimento mas também à impureza, que haveria algo de original e puro que depois se corrompia na cidade. Por isso, era preciso caminhar para o Oeste à procura da pureza, da nossa própria pureza. Nesse mito americano, a pureza perdida pode ser encontrada no Oeste. Talvez as montanhas sejam o meu Oeste, a minha fronteira.

Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, pp.46-47.

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