sexta-feira, 28 de julho de 2017

Bem lembrado


Resultado de imagem para Teatro de Vila Real

Temos actualmente uma classe política muito inculta. Falando francamente, penso que temos uma classe política mesmo escandalosamente inculta que - em parceria com os media dominantes - não percebe a importância do papel da cultura (...) O que domina são políticos que só sabem valorizar a cultura quando vêem alguns número, alguns agregados - de resto bem discutíveis - que dizem poder aumentar o PIB...
Perdeu-se completamente de vista o que é o papel da cultura na formação de um povo, na qualificação dum território, na qualificação das pessoas, na qualificação das instituições. É completamente diferente a vida numa cidade que tem um museu, uma biblioteca, um arquivo, uma dinâmica criativa, uma vida cultural própria. Hoje, estamos submergidos por um linguajar «economês-financês», que impede que se pense, melhor, que só sobrevive num ambiente que eu tenho caracterizado como o de um intencional «impensar»...(...)
Quando anunciei que todas as capitais de distrito iriam ter um teatro - 13 das 18 capitais não tinham!...-, diziam-me muitas vezes: «Fazer teatros, mas isso não é esbanjar dinheiro»? Depressa se viu que não, pelo contrário. (...) 
Quando se financia a cultura, está-se a financiar uma actividade relevantíssima para o país, para a economia certamente, mas que vai muito além disso...Está-se a financiar a qualificação das pessoas, do território, das cidades, das instituições, é esta a minha visão das coisas.
Nós hoje vivemos - ia a dizer asfixiamos - num discurso muito redutor, a política está completamente garrotada num «economês-francês» que é muito pobre, que nos dá um mundo com cada vez menos palavras e com palavras com cada vez menos significado. É um linguajar mais ou menos mecânico, começa nos telejornais e nos seus comentadores e acaba...na escola, que infelizmente invade cada vez mais.
Bom, mas retomando o que estava a contar-lhe, quando nós lançámos esse projeto dos teatros, as pessoas diziam: «Mas não será desperdiçar meios, ir agora fazer teatros na Guarda, em Braga ou em Vila Real?». A questão era legítima, claro, mas rapidamente se percebeu que um tal cepticismo não se justificava, nenhum destes teatros teve problemas de público. Onde lançámos projectos que dependiam do público - que, naturalmente, é necessário formar, atrair, fidelizar -, nunca houve problemas. Há sempre público para o teatro, como, de resto, há para o cinema ou para os museus. A cultura tem um enorme potencial público - mas nada é dado, é preciso trabalhar para que assim seja, que é justamente o que tem faltado. 
Penso que o problema da cultura, em Portugal - continuamos a falar apenas de políticas públicas -, é um problema de oferta e de ousadia naquilo que se propõe.


Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.113-116

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