sábado, 22 de julho de 2017

Camões no cinema português

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O cinema português (...) não tem abordado de uma forma particularmente intensa o percurso de vida e a obra do poeta da portugalidade, Luís Vaz de Camões. (...) E, dada a sua magnitude, é perfeitamente compreensível que ninguém tenha ousado deitar as mãos a uma versão fiel de "Os Lusíadas". Neste quadro, é perfeitamente lógico que a grande produção portuguesa a pôr em relevo a vida de Camões tenha surgido num dos períodos de maior aproximação ao que se poderá chamar uma indústria portuguesa de cinema, a década de 1940. (...) Não admirou, pois, que o ano de 1946 fosse marcado pela estreia de "Camões - Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente", com assinatura de Leitão de Barros, produção de António Lopes Ribeiro e um António Vilar no auge da sua fama, presença física e popularidade, vestindo a pele de Luís de Camões. 
O filme, um épico histórico e romanesco, em tons claramente panegíricos, inicia-se nos tempos do poeta em Coimbra, em 1542, atrevessando depois alguns dos episódios mais significativos da sua trágica, aventurosa e romanceada existência, como a perda do olho direito pelo poeta-soldado, em Ceuta, a salvaguarda, após naufrágio junto à foz do rio Mekong, do precioso manuscrito do poema épico, a sua leitura deste a D.Sebastião...
Considerado iniciativa de utilidade pública pelo governo português, o filme veio a estrear em grande estilo no São Luíz, em Lisboa, a 23 de Setembro, partindo pouco depois para a primeira edição do Festival de Cannes, após o que fora uma falsa partida, em 1939, pois a guerra impedira a continuidade do certame. (...) Cotejando as listas de filmes produzidos em Portugal era possível detetar em 1906 o título "Os Lusíadas" e em 1911 "A morte de Luís de Camões", mas nenhuma dessas obras subsistiu até hoje, nem é conhecida qualquer informação sobre o seu conteúdo. Depois (...) o cinema português viveria tempos pouco propícios à evocação de Camões (...) Camões, no cinema, viveria sobretudo de pequenos trabalhos como "Mar Português" (João Mendes, 1950), uma interpretação de alguns dos seus poemas, "Camões" (Faria de Almeida, 1966), uma panorâmica da sua vida e obra através de ilustrações, "A viagem - Os Lusíadas", João Cândido, 1972), produção brasileira filmada de uma encenação teatral, "Camões, Esse Emigrante" (António Escudeiro, 1985), uma apresentação de José Hermano Saraiva do percurso do poeta na Índia, "Camões: Tanta Guerra, Tanto Engano" (Paulo Rocha, 1996), registo audiovisual de uma peça do Grupo de Teatro Maizum. (...)
Mas Camões estava prestes a ganhar nova vida, no cinema ficcional português, embora sempre, possivelmente por limitações financeiras, no formato de curta-metragem. É assim que Luís Miguel Cintra interpreta a figura na sua velhice, doente e atormentado por todos e perseguido pela mãe, interpretada por Isabel Ruth, em "Erros Meus", um filme de quinze minutos que Jorge Cramez realizou em 1999
Seria já em 2014 que o poeta regressaria, e em dose dupla. Com exibição premiada em Berlim, "Taprobana", de Gabriel Abrantes, é um ensaio visual surreal, acompanhando as aventuras sexuais e escatológicas do poeta e da sua amante Dianamene, enquanto escreve partes do seu poema épico.
Finalmente, Manoel de Oliveira praticamente concluiu a sua monumental obra dirigindo, aos 106 anos, "O Velho do Restelo" (...) Curiosamente, neste momento, a RTP exibe a série de aventuras históricas "Ministério do Tempo", com presença regular da personagem de Camões, interpretada pelo jovem João Vicente. Um bom indício da presença eterna do poeta no nosso imaginário.

João Antunes (crítico de cinema), A fugaz filmografia camoniana, (suplemento) História - Jornal de Notícias, nº8, Junho, 2017, pp.94-95

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