sábado, 22 de julho de 2017

Compatibilizar contrários?


Assunção Cristas firmou, e bem, a sua decisão de repúdio e afastamento da candidatura de André Ventura, à Câmara Municipal de Loures, nos princípios democrata-cristãos que são a base com que se identificaria o CDS. Não obstante, alguma insurreição interna (em realidade, um número considerável de militantes com lugares de alguma notoriedade), de corpos intermédios do partido, perante tal tomada de posição, remetendo para os tempos de Paulo Portas, e do modo como este, a dado momento da sua vida político-partidária, associava "rendimento mínimo" e "ciganos" (louvando-se, e revendo-se, tais dirigentes, em tal histórico e, pelos vistos, legado), não deixam de levantar várias questões: a) será que o ideário democrata-cristão é o mais representativo para a maioria dos militantes do CDS?; b) a importância do PP, essa criação de Paulo Portas e Manuel Monteiro, não será muito substantiva neste partido?; c) diferentes correntes, no interior de um partido, serão sempre compatíveis (entre si)?; d) no caso concreto, democracia-cristã e populismo são susceptíveis de conseguir, sem um deles se colocar em causa, manter um cimento?; e) irá Assunção Cristas conseguir manter sempre a rota aqui firmada, face à pressão de que esta semana foi alvo, neste contexto, com o subliminar de que com Portas a posição do seu partido seria outra?; f) que posição teria, nas mesmas circunstâncias, Nuno Melo?; g) um resultado menos conseguido, por Assunção Cristas, em Lisboa, depois de expectativas colocadas muito altas - incluindo os media, que a colocaram como podendo chegar a um segundo lugar, e nisso, mesmo que para apoucar a escolha do PSD, não lhe fazendo grande favor -, e face a este ruído, de que modo poderão afectar a sua liderança?; h) ao falar-se de populismo, como se fosse um estádio político muito recente e tivesse nascido com Donald Trump e como se, de aí em diante, quase todo o movimento, ou objecto político menos identificado, pudesse ser catalogado, sem mais, como aí estando filiado, não se ignora um conjunto de manifestações políticas, nomeadamente, no nosso país, em décadas recentes (os cartazes com os tachos, do PP de Manuel Monteiro, como se a política fosse isso ou a isso se reduzisse, e como se o PP estivesse fora da política; a encenação de um país onde a criminalidade seria dramática, no final dos anos 90, quando esta estava a diminuir neste país - quando, não, então, a sugestão de ligação da mesma a determinados grupos de imigrantes; as frases sobre os "ciganos do rendimento mínimo", ignorando-se quanto gasta o estado com esta prestação social não contributiva, qual a natureza da mesma, quanto, em média, recebe cada beneficiário, em que situação se encontra cada um destes, qual o valor da fraude calculada no recebimento de tal prestação, que obrigações impendem sobre quem dela pretende ser beneficiário e como se o grande problema das finanças públicas portuguesas fosse o rsi)? 
Claro que, para lá dos princípios aplicáveis, e bem aplicados, ao caso concreto, não deixou de haver algum aproveitamento partidário, próprio do dito jogo, deste caso de Loures; também não creio que Passos Coelho seja racista ou xenófobo, nem me parece que tenha sentido entrar-se por aí. Dito isto, o candidato em causa, em Oeiras, de maneira nenhuma, com o tipo de posicionamento público que tem - por vezes, mesmo com seus interlocutores, olhos nos olhos, colocando em causa a sua honorabilidade, perante a sua complacência, e como se essa alusão ao carácter nada lhe interessasse -, nos conhecidos domínios em que participa, em termos mediáticos,  contribui para o engrandecimento de qualquer movimento ou partido que contribua para o suportar.
A finalizar, duas notas: uma para referir a perenidade de certa postura dos cidadãos sobre o modo como são alocados recursos/subsídios do Estado, em diferentes épocas e sociedades, bem como os juízos de valor que são feitos sobre quem possa usufruir de ajuda pública em situação de pobreza. Por um lado, lembro-me dos escritos de George Orwell, de há sete ou oito décadas, nos quais recorda as senhoras ao chá falando dos mandriões que são pobres e que podiam ir limpar as matas e os caminhos e não querem fazer nenhum e, ainda por cima, em vez de uns bons suminhos de laranja naturais que fariam bem à saúde gastam o dinheiro em guloseimas - escrito, relembro há uns 80 anos -; depois, e até pela leitura que estou a fazer do livro de J.D.Vance, Lamento de uma América em ruínas (a tradução da obra cujo título original, de que aqui se dera conta há um ano, é Hillbilly Elegy), o nome dado, nos Estados Unidos da América, por parte de certos sectores sociais, a pessoas que recebem subsídios da Segurança Social é "rainha da Segurança Social", o nome para o estereótipo/preconceito da senhora negra, preguiçosa, que passará o dia a dormir e só quer viver à custa dos contribuintes. Entre os "ciganos do rendimento mínimo" e a "rainha da Segurança Social" a mesma retórica que explora sentimentos menos nobres em busca de um ganho político - partindo para uma generalização que parece ter pouca acomodação nos factos - só o alvo mudando, mas, porventura, sugerindo coordenadas e constantes antropológicas/sociais/sociológicas a registar.

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