quinta-feira, 20 de julho de 2017

DA NORMATIVIDADE DAS VÍTIMAS E DA PERPLEXIDADE DE UMA CONFISSÃO

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Desejo concluir este apartado com um relato que me resulta especialmente emotivo. Refiro-me a H.Jonas, filósofo da religião judeu, cuja mãe foi sacrificada em Auschwitz em 1942. No seu livro Pensar sobre Deus e outros ensaios sustenta que quando se trata de Deus, «o voto dos felizes pode deixar-se de lado, enquanto o dos que sofreram, o dos infelizes, conta duplamente, no seu peso e validez». Uma tese algo diferente da defendida por J. Stuart Mill no seu livro A utilidade da religião: «São precisamente os que nunca foram felizes os que têm este desejo (o de perdurar noutra vida depois desta). Os que foram felizes podem suportar a ideia de deixar de existir; mas deve ser duro morrer, para quem jamais viveu». E esse é precisamente o problema de Jonas: os que nunca desfrutaram de uma vida elementarmente conseguida. Por isso, propõe «escutar a opinião das vítimas da miséria, a opinião dos menos subornados pelas alegrias gozadas».
A obra de H.Jonas é todo um alegado em favor da normatividade das vítimas de Auschwitz. Uma normatividade que alcança também tons dramáticos no cru dilema proposto por Benjamin e Horkheimer: se se mantém viva a recordação de incontáveis gerações de seres humanos sacrificadas ao longo da história universal, é impossível saborear a própria felicidade; como solução, há que recorrer ao esquecimento; mas, uma felicidade alcançada com recurso ao esquecimento é humana? Portanto: se se faz uso da memória, é impossível ser feliz; e, se se esquece, alcançar-se-à a felicidade, mas à custa de prescindir da solidariedade. Pessoalmente, nunca soube como escapar a este dilema, a não ser, claro está, que se aceite, com a segurança sem garantias, própria da fé, a prometida restauração cristã universal, em virtude da qual ficará definitivamente implantada a justiça que as vítimas da história não experimentaram. Não parece que haja outra saída.
É especialmente comovedor o relato de H.Jonas [em Memorias, Madrid, 2005, p.370] sobre o seu encontro com H.Arendt. Conta que Arendt o desafiou com a seguinte pergunta: «Acredita em Deus?», e prossegue:

Tão diretamente nunca ninguém mo tinha questionado. E uma pessoa quase desconhecida! [a fazê-lo] Primeiro, olhei-a quase desconcertado. Mas então, meditei e disse - para minha própria surpresa -: «Sim». Hannah estremeceu, todavia recordo que quase me olhou espantada. «De verdade?». E respondi: «Sim, em definitivo, sim. Para lá do que isso possa significar, creio que a resposta «Sim» se ajusta mais à verdade do que um «não». Pouco depois, a sós com Hannah, voltamos a falar de Deus, e ela disse-me: «Nunca duvidei da existência de um Deus pessoal». Ao qual lhe disse: "Hannah, nunca o teria imaginado! E agora não percebo por que ficaste tão admirada na outra noite [em que conversámos sobre este tema]. E ela respondeu: "Estava comovida pelo facto de o escutar dos teus lábios, pois jamais o podia pensar». De maneira que ambos nos tínhamos surpreendido com aquela confissão. 

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp. 103-105 [tradução minha]


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