segunda-feira, 17 de julho de 2017

DAR RAZÕES DE FÉ


Uma «religião pensada» - não apenas «sentida» - nunca deslizará para a tentação fundamentalista. Seria injusto não reconhecer à Filosofia, especialmente à Filosofia da Religião, o seu contributo para a desactivação dos fanatismos. Atrever-me-ia a afirmar que, quanta mais capacidade possui uma religião para dar guarida, em seu seio, aos avanços da filosofia, menos permeável será à tentação fundamentalista. É, talvez, a grande vantagem do cristianismo frente ao islão actual. É que, quando as religiões só bebem no próprio poço, sem atender à profecia que vem de fora, podem acabar por acreditar que não há mais nenhuma verdade do que a sua. Ardentes credos religiosos, sem instâncias correctoras, costumam desembocar no fanatismo e na intolerância. Quando os povos acreditam ter nas suas mãos o testamento literal dos deuses, sem mediações críticas e temperadoras, convertem-se num perigo para a paz. (...)
[Neste necessário diálogo entre filosofia e teologia, na reflexão] Vem-me à memória o diálogo mantido entre o filósofo J.Habermas e J. Ratzinger (...) 
Todos eles [filósofos da religião, teólogos] defenderam que o cristianismo é algo consistente, capaz de se confrontar com a crítica mais exigente. O crente, pensam, não tem por que fugir atemorizado das confrontações teóricas. A todo o custo, querem evitar que o cristão seja confundido com [como alguém que toma] opções cegas, puramente subjectivas. E, com vigor semelhante, afastam uma fundamentação do cristianismo baseada unicamente na autoridade da Bíblia ou da tradição eclesial. Para ajudar a crer, há que oferecer razões profundas. Não basta exigir a fé, há que possibilitá-la. (...) Um cristianismo não dogmático pode despertar o interesse dos não crentes não dogmáticos. Entre parêntesis: um cristianismo não dogmático não é um cristianismo sem dogmas; é, melhor, um cristianismo que raciocina e argumenta a herança recebida, que tenta esclarecer a desmesura das suas promessas. É possível um discurso não dogmático sobre o dogma. (...)
O cristianismo possui, creio, suficiente plausibilidade interna para poder afrontar as confrontações teóricas com a ciência. Os cientistas sabem que nem tudo se esgota no rigor verificacionista do seu campo. Existem, ademais, outros saberes (...) importantes. A filosofia da religião não possui carácter «científico», mas também o não científico pode ser significativo.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, p.54, 57, 58 e 64 [tradução minha]


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