segunda-feira, 17 de julho de 2017

Espiritualidade (II)


Na Idade Média, definia-se a espiritualidade como extensio animi ad magna (abertura do espírito a coisas grandes) que, a meu modo de ver, está muito unida a outras duas palavras: a humilitas [humildade, simplicidade, recato], tão própria da Idade Média, e a curiositas (curiosidade, busca, afã de saber), convertida quase em lema do Renascimento. Esta mescla entre humilitas e curiositas pode fazer parte da definição de espiritualidade. Ambas continuam na linha da profundidade (...) Heidegger disse-o, muito acertadamente, num pequeno escrito, intitulado Gelassenheit e que poderíamos traduzir como distendimento, sossego, serenidade, paz. A sua tese fundamental é que se está a dar uma fuga acelerada do pensar. E ele distingue no pensar duas variantes: a que chama de «pensamento instrumental» e a que denomina «pensamento meditativo». O «pensamento instrumental» é necessário para que possamos viver; se não, não tínhamos acedido à técnica nem ao progresso; mas o pensamento meditativo, contemplativo, constitutivo da espiritualidade, é necessário para acedermos à vida boa, ao humanismo, à própria interioridade.
Pessoalmente, eu teria em conta também a distinção entre crente e religioso. O crente é o que adere a um credo, a determinados símbolos, a certos ritos. Religioso, ao invés, é algo mais difuso, mais impreciso. Tem que ver com o dito de Goethe: «Se buscas o Infinito, corre atrás do finito em todas as direcções". Ser religioso é ser sensível ao que nos supera, o que nos coloca à beira do desorbitado; é ter antenas para a gratuidade, para o amor, para o Outro. (...)
Existem, ainda que apenas como excepção, funcionários do altar sem especial sensibilidade para o religioso. (...) Justamente o contrário da experiência que teve R. Otto, o grande fenomenólogo da religião, ao entrar na sinagoga de Tânger e escutar o três vezes «santo» de Isaías. Ali nasceu o título do seu livro O santo, provavelmente o livro de teologia mais lido do século XX. Foi ali onde compreendeu que a experiência religiosa possui uma dupla vertente: é «fascinante» (assombrosa, iluminadora, próxima da felicidade), mas também «tremenda» (exigente, rigorosa, próxima ao temor).
Também considero muito acertado, se me permitis que continue pedindo ajuda aos amigos da tradição filosófico-teológica, o olhar de Walter Benjamin sobre a figura do flâneur: o flâneur é o transeunte solitário na Paris do século XIX, abandonado entre a multidão, que se fixa nas claraboias e no cimento que tudo invade. Por todas as partes, alça-se o progresso moderno, mas Benjamin sente a falta da «experiência». O conceito de «experiência», o contacto directo com as coisas, pensa Benjamin, é algo que se está perdendo. Esta falta de sensibilidade manifesta-se igualmente na ausência de encontros [conversação, diálogo, citações]. Citar é um acto de espiritualidade, é ter em conta o passado do qual viemos. (...) [A sua missão] é interromper os discursos lineares da Modernidade. É necessário parar, olhar para trás, como faz o encontro [diálogo, conversa, citação]. A esta sensibilidade, Benjamin chama-a «cultura do coração» (...)
Penso que a espiritualidade não pode ser alheia a tudo o que venho narrando. Tão pouco a considero alheia às três experiências que nos legou o filósofo vienense L. Wittgenstein. A primeira delas é o assombro: uma pessoa é espiritual quando se assombra. Pelo assombro, começou a filosofia. «Vai pelo mundo e maravilha-te», escreveu o nosso R. Lulio. A segunda, alude ao sentir-se seguro aconteça o que acontecer (...) E a terceira leva o nome de sentimento de culpa. É inútil desculpar-se sempre. Algo dentro de nós nos diz: «Esse homem és tu».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.68-69


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