sábado, 29 de julho de 2017

Europa e decomposição


De 2002, quando o euro começa a circular, até 2010, assistiu-se ao espantoso fenómeno de, todos os anos, estes factores positivos do sonho europeu [maior equilíbrio financeiro, uma maior convergência económica e uma maior solidariedade social], serem crescentemente tão desmentidos como ignorados pelas elites dirigentes europeias, que, ainda por cima, alinham alegremente no erro colossal do alargamento de 2004!
E quando chegamos a 2010, e essa situação se torna visível para todos, o impacto é brutal. Com a crise grega, temos a indisfarçável exibição da falta de solidariedade entre os vários países, e temos uma coisa que é muito complicada que é a percepção de que a divergência entre o Norte e o Sul continua, e continua de muitos pontos de vista, não só económico mas também fiscal, social, cultural
E os nossos políticos, sejam de direita ou de esquerda - e este facto contribui muito para o descrédito da política -, continuam a ter um discurso que não tem nada a ver com esta realidade. Continua a falar-se de crescimento como se o crescimento fosse uma evidência, de convergência como se nos estivéssemos a aproximar das economias mais fortes, de solidariedade quando, nas coisas mais elementares, como constantemente temos visto, não há qualquer solidariedade.
A União Europeia tornou-se, assim, numa ficção em decomposição, e essa decomposição pode vir a ser uma decomposição violenta. Dramática já o é, porque não é de todo assumida, pelo contrário, é permanentemente negada, e o discurso político colou-se a essa negação, está refém dessa negação. E não só o discurso político em geral como, a meu ver de um modo injustificado, o discurso político socialista.
Isto teve origem - poucos o reconhecem, mas foi o que se passou - no «golpe de génio» de Miterrand, que conseguiu fazer o ersatz, a substituição do fiasco das suas políticas nos primeiros dois anos da sua presidência com...o projecto europeu. O sonho europeu foi o estratagema de que Miterrand lançou mão em 83/84, a seguir ao grande fracasso das nacionalizações e da sua política anticapitalista que o levou a, dois anos depois da sua vitória, ter de privatizar grande parte do que tinha nacionalizado e a mudar o eixo das suas políticas, o que ele nunca assumiu explicitamente. Fez isso com inegável talento, realizando o que os psicanalistas chamam uma denegação, que é negar «convictamente» aquilo que se está a fazer. E lança então o tema do sonho europeu, o famoso destino europeu de França, como substituto do fracassado sonho socialista.
O socialismo europeu, sem ideias sobre quase nada, embarcou nesta conversa. Isto pareceu-me sempre muito claro, lembro-me de perguntar a Mário Soares: «Mas o que é que este sonho europeu tem de socialista? A liberalização dos mercados? A livre circulação das pessoas, das mercadorias, dos capitais? O que é que isto tem de socialista? Temos la a Carta Social, está bem, mas não passa de um texto de enquadramento geral, sem alcance vinculativo». O que é que a Europa tem de esquerda, insisto? Porque é que a esquerda se enfeudou completamente a este sonho e abandonou a mais elementar atenção às grandes transformações então em curso no mundo, às consequências da globalização, aos impasses ligados à transformação do trabalho, aos enigmas ligados à revolução da educação, aos desafios da robotização? É que não há um único destes problemas decisivos em que se veja a esquerda, os partidos socialistas e os partidos social-democratas trabalhar de há 20 anos para cá. (...)
Vejo a Europa, ou melhor, a União Europeia, o que, atenção, não é de todo a mesma coisa, em decomposição, sem condições nenhumas para se pensar em saltos federais - já as houve, mas isso já la vai. Pelo contrário, nós vemos cada vez mais os povos a fecharem-se nas suas identidades históricas, apesar de isso não colidir - o que é novo e verdadeiramente interessante - com um assumido cosmopolitismo. (...)
Hoje, as nossas elites políticas e mediáticas esconjuram com a acusação de populismo tudo o que pode pô-las em causa, é o reverso do medo do povo em que elas vivem, mas, a meu ver, o populismo contém aspectos muito positivos que merecem reflexão, muito mais do que condenação...
Neste contexto, Portugal tem um espaço único muito desprezado, que é o do Atlântico, que se pode tornar num novo centro do mundo, certamente num dos seus centros mais importantes. A abertura do canal do Panamá, as transformações da globalização, tudo aponta para isso. São circunstâncias em que a lusofonia podia, como dizia, ser um trunfo, mas todos os dias se perde gás, em vez de o ganhar...Nós estamos na origem da língua, mas as potências que contam são as que têm grandes populações, no caso, Angola e o Brasil, que, infelizmente, atravessam períodos muito difíceis. E, depois, estamos em todo o mundo, estamos espalhados, estamos disseminados pelo globo. Penso que, neste momento, apesar das dificuldades que há na CPLP, se devia olhar para ela com outras perspectivas. Não diria em alternativa à Europa, mas como uma saída para diversas dificuldades que estamos a ter na Europa, e vamos ter cada vez mais.


Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.121-129

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