quinta-feira, 20 de julho de 2017

"Frage"


A busca inicial de Deus não teve sobressaltos. Apelava-se à teologia revelada, tão rica em dados, datas e lugares geográficos familiares. Eram os dias, já longínquos, nos quais se acreditava que «a Bíblia tinha razão». Uma interpretação literal do grande livro judaico-cristão dissipava as dúvidas que antes afloravam. A autoridade da revelação, unida a outra grande autoridade, a da inicial experiência cristã, situavam a existência de Deus em um terreno livre de tormentas. O cristianismo bebeu, desde o início, em dois poços: o testemunho e a argumentação. Houve vasos comunicantes entre eles. Com frequência, a principal argumentação em favor da fé era o testemunho dos que viviam e tinham morrido por a defender. Inclusivamente, em dias muito próximos a nós, H. Bergson perguntava-se se a acumulação e coincidência do testemunho dos místicos não seria uma certeira argumentação a favor da existência de Deus.
E, quando a ingenuidade bíblica se quebrou, procurou-se refúgio, em outra grande ingenuidade: a da teologia natural. Em certo sentido, era uma via de acesso a Deus mais dura que a anterior. Ainda que timidamente, remetia para a argumentação, a razão. Mas tratava-se de uma razão permeada de revelação.  (...) Quando falhavam as boas razões, apelava-se à segurança da fé. Tudo se complicou quando também a teologia natural perdeu a sua milenar plausibilidade. Ocorreu nas agitadas datas da Ilustração europeia. O manto protector da revelação deixou, agora sim, de vestir as mentes filosóficas. Atreveram-se, estas, como aconselhava Kant, a pensar sem a subvenção das velhas tutelas. A autonomia do pensamento desalojou a ancestral heteronomia bíblico-teológica. O resto, fizeram-no as surpreendentes descobertas da ciência, as convulsões políticas, a descoberta de novos mundos e profunda transformação das pautas morais. Deus deixou de ser um dado revelado, um dogma cegamente aceite. O pensar dogmático conheceu uma das maiores quebras que o Ocidente conheceu. Nem a teologia revelada, nem a teologia natural estavam em situação de fazer frente aos novos desafios. O seu lugar foi assumido, sem renunciar à sua herança, pela filosofia da religião, uma forma mais livre e fresca [descontraída] de pensar a religião. O argumento da autoridade deu lugar à argumentação, à perplexidade (...) O ponto de partida não era já a fé nem a autoridade da Bíblia, mas as possibilidades do conhecimento humano. Ainda que timidamente, começou-se a dar espaço à razão. A Bíblia deixou de ser o único oráculo. Para aceder a Deus, por exemplo, começou-se a partir do visível e experimentável. É o caso das cinco vias de São Tomás (...) A teologia natural fracassou quando Deus deixou de ser tema e passou a ser problema. É o momento em que a Ilustração europeia, com Kant à cabeça, vira as costas às tradicionais provas da existência de Deus. É significativo: Deus dispôs de provas da sua existência enquanto delas não necessitou, enquanto a Europa foi cristã. em contrapartida, quando Deus entrou em crise, fechou-se a azáfama de provas. (...) Nos últimos três séculos, Deus - se assim posso falar - viveu em permanente sobressalto (...) [ficando] como  problema e pergunta aberta. (...)
Entre os que O procuraram a tempo inteiro estará, sem dúvida, Pascal. Um dos seus Pensamentos vem em auxílio de todo aquele que experimenta Deus como problema, como assunto incerto: «Incompreensível que Deus exista e incompreensível que Deus não exista". É que, se Deus não existe, ficam muitas coisas por explicar; mas, se existe, amontoam-se, igualmente, as interrogações. Platão [em Leis, X, 88a-b], já na sua velhice, deu um sábio conselho:

Filho meu [...], o passar do tempo far-te-á mudar de opinião em muitos pontos e pensar ao contrário do que pensas agora. Aguarda, pois, até então para tomar posição [optar] em questões de tanta importância. E, ainda que para ti não conte, a mais importante é pensar correctamente (orthos) sobre o tema dos deuses

Entendo que Platão convida a deixar o tema em aberto. Algo talvez não muito distante do que tenho proposto nestas páginas. Falar de Deus como problema é, em algum sentido, continuar «apegado» a Ele, não descartar a surpresa (...) A teologia alemã prefere falar de Deus como «pergunta» (Frage) em lugar de problema (Problem). Em geral, as religiões inclinam-se para o termo «mistério».
No tema da recepção, haverá que distinguir dois âmbitos. Ao primeiro, pode chamar-se contexto de descoberta. É o âmbito da experiência directa e originária, prévia a qualquer reflexão filosófica ou teológica. É a autêntica primeira linguagem do crente. A esta experiência, mescla de fascinação e temor, de assombro e de desejo, não se podem fixar limites. É o «reconhecimento extático do mistério» (M.Eliade), o abandono de todo o penúltimo e provisório em favor de uma realidade totalmente diferente que recebe muitos nomes. É um âmbito em que nada se pode prescrever. Não se pode, por exemplo, obrigar alguém a experimentar Deus como problema. É o espaço no qual manda o que "nos concerne incondicionalmente" (P. Tillich). As coisas mudam quando nos referimos ao contexto de fundamentação. É o encarregue de articular conceptualmente a experiência religiosa. É o espaço da linguagem segunda, a hora da filosofia e da teologia. Aqui não manda a imediatez perceptiva, mas um discurso sossegado, rigoroso e coerente. É o âmbito do pensamento, do conceito, da argumentação, da busca pensada da verdade

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.95-110 [tradução minha]


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