terça-feira, 18 de julho de 2017

Fritz Bauer


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Só ontem tive ocasião de ver o filme, estreado em 2015, de Lars Kraume, sobre o jurista, procurador-geral na Alemanha dos anos 50 do século passado, Fritz Bauer. Não recordava, já, a referência a tal personalidade no primeiro capítulo de Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. Portanto, no fundo, nas diferentes evocações do judeu social-democrata, provocadas pelo filme em causa, tratou-se, para mim, de uma verdadeira descoberta. No título original, Fritz Bauer contra o Estado, insinua-se, de imediato, o que material e formalmente se nos oferece este rememorar: no encalço dos nazis, fugidos do julgamento de Nuremberga, Fritz Bauer enfrentará a oposição de vários elementos e sectores no Estado, no qual, em virtude da percepção de tais vicissitudes, não confia e, por isso, para a captura, nomeadamente, de Adolf Eichmann, em Buenos Aires, abona-se nos serviços secretos israelitas (que, como se sabe, executam a controversa tarefa de capturar, na Argentina, a referida patente nazi), no fio da navalha da sujeição a uma acusação de traição ao Estado (alemão). A determinação de Bauer no sentido de que Eichmann fosse extraditado para a Alemanha, e aí julgado pelos tribunais, não foi atendida pela sua Administração (que nunca firmou essa solicitação às autoridades israelitas, que acabarão por julgar e executar Eichmann).
Neste contexto, creio que o filme em causa cumpre bem duas tarefas (didáticas) fundamentais: a) dar-nos a conhecer a marcante figura de Fritz Bauer, sua tenacidade, convicção, argúcia, risco, atitude moral; b) não menos importante, ilustra bem as contradições da sociedade alemã face ao nazismo, o modo como este a permeou e, naturalmente, como tal sociedade acaba por não surgir pura e imaculada, e totalmente diversa daquele, no pós Segunda Guerra Mundial. Mesmo no interior de Executivos (governos) com lideranças (políticas) que nos habituámos a respeitar e admirar, mesmo aí, não deixavam de aninhar-se figuras pouco recomendáveis, no seu passado de filiação nacional-socialista, ademais tal estendendo-se aos mais variados sectores - nomeadamente, a justiça - pelo facto de, mesmo mudada a realidade política, não se poder mudar uma inteira sociedade (e trocá-la por outra). Dessas dificuldades de desnazificação, desse mundo poroso onde o antes (1945) ainda está presente (e contamina) o depois, nos dá conta Fritz Bauer. Agenda secreta.

P.S.: A evocação de Fritz Bauer, por Luís Eloy Azevedo, no Malomil. E as críticas ao filme, de Javier Ocaña, no ElPaís e João Lopes, no DN.   

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