sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ligação conhecimento/saber e política


A ideia deste ministério [da Cultura] não foi uma mera ideia eleitoral, ela nasceu e consolidou-se num processo inédito que durou um ano, que foi o dos Estados Gerais. Nunca houve, em Portugal, um período como esse, que foi o de, durante praticamente um ano, se pensar, se preparar um programa de governo. Em Portugal (e não só, sei-o bem...), faz-se política duma maneira muito improvisada, e os resultados estão à vista. Não se estuda, não se prepara, não se debate, dão-se uns palpites e, em geral, depois fazem-se grandes disparates.
Eu sei que isto está generalizado. Por todo o lado, a articulação da política com o conhecimento, com o saber, foi progressivamente substituída pela ligação - na verdade, pela dependência - da política com a comunicação, com a pequena frase eficaz, com a frase de ocasião.
E nós não temos a tradição que têm os alemães, que, como sabe, têm fundações muito substanciais para apoiar propostas políticas. Se perguntar, na Alemanha, quantos engenheiros vão precisar daqui a quatro ou cinco anos, neste ou naquele sector, eles sabem. Nós não sabemos nada sobre nada, porque não se estuda, não se prepara. Por cá, reina o improviso. A ligação da política com o conhecimento foi sempre frágil e fugaz, devemos reconhecer que António Guterres tentou criá-la - foi, de resto, isso o que mais me motivou a entrar então naquela aventura política, em 1995. Infelizmente, ele desistiu ao primeiro embate, sabe que essa foi uma das razões das minhas posteriores divergências com ele.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.64-65.

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