sexta-feira, 28 de julho de 2017

O filósofo da contingência e o erro dos deterministas


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Sou um filósofo da contingência, penso que tudo pode acontecer...ou não. A necessidade é uma ilusão fomentada pelo determinismo, e o determinismo é um erro metafísico. Penso que não só tudo podia ter acontecido de outro modo (na história, na vida, etc.), mas que tudo pode vir a acontecer de modos que ninguém previu. O «acontecimento» é, como disse J.L. Marion, justamente o que ocorre de um modo imprevisível, inesperado, seja na política ou na vida pessoal. E a verdadeira sabedoria, que nunca existe sem uma forte componente de coragem, revela-se no modo como se responde a esse acontecimento.
Na vida, como na política, o imprevisível é que é a norma, só os nossos medíocres dirigentes actuais é que pensam que ele é a excepção...No que diz respeito á democracia, digo sempre que nada está garantido. E há, hoje, um novo factor a ter em conta, de que falámos atrás, que é o individualismo, que toma formas extremas muito inquietantes na medida em que abdica cada vez mais das dimensões colectivas da acção em favor da satisfação meramente individual. Penso que está em curso uma verdadeira transformação antropológica do indivíduo, que é muito menos exigente, hoje, com formas de vida colectivas, com a própria solidariedade, e muito mais centrado no seu umbigo e nos seus caprichos. Por isso, não me admira que a democracia possa acabar. Ou que venha a tomar formas a que hoje não chamaríamos democráticas (...) Nada nos garante que a forma democrática continue como tem existido. E não se esqueça de que a forma política democrática é uma forma que foi odiada até ao século XIX. Muitas vezes, pensamos o contrário, temos uma ideia idílica da democracia, como se tivesse sido algo que começou nos Gregos e se foi aperfeiçoando no decorrer dos séculos. Nada mais falso! A democracia foi mesmo muito odiada, desde os Gregos até aos grandes debates da primeira metade do século XX. (...) Partidos completamente minados por dentro, preocupados com a sua própria reprodução e com os seus interesses, tudo isso foi dito e redito há cem anos. É exactamente a crítica que se faz hoje. E foi esta crítica dos partidos que, note, mais tarde, nomeadamente com Roosevelt, levou à grande viragem que consistiu na fuga dos cidadãos aos partidos e na aposta política nas personalidades, nas «grandes personalidades». Na minha leitura, o século XX é um século que começa com uma crítica que as sociedades ultrapassaram investindo num outro modelo, o dos protagonistas individuais excepcionais - Roosevelt, Adenauer, De Gaulle, Churchill, etc. -, modelo que desvalorizava o legislativo e reforçava o executivo, mas que é um modelo que teve o seu tempo, que, por sua vez, também entrou cada vez mais em crise à medida que os protagonistas individuais se revelaram, eles próprios, numa espécie de «partidos uninominais», ou melhor, em Sarkozys, em Berlusconis, em Sócrates, etc. E os cidadãos, agora, já não sabem para onde olhar, o vazio cresce a toda a volta, não há personalidades exemplares para investir. Foi a descrença no sistema partidário que, de certo modo, produziu essas personalidades, os chamados «grandes homens». Ora, hoje, o cidadão olha para quê, para quem?

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.130-132

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