sábado, 29 de julho de 2017

O fim do quarto poder?


Eles [os media] são o motor do «impensar» a que me referi atrás. Hoje, em rigor, não há quarto poder. Penso que eles fazem parte de uma nova forma de poder, com várias facetas, e que trabalham num regime de verdadeira colaboração com a política e com a finança. Estamos sem dúvida perante uma transformação sem dúvida fascinante, ainda que algo aterrorizadora. O quarto poder, que era crítico dos outros três poderes - e foi-o duramente muito tempo, com resultados assinaláveis na história dos séculos XIX e XX - integrou-se progressivamente numa forma inédita de poder que, mais do que primeiro, é o único poder. E está hoje, como permanentemente vemos, completamente colado aos interesses dos outros poderes. Mais, os media contribuem para colocar a política como o bode expiatório de tudo o que há de mau na sociedade (...) Os media fazem muito bem isso, exibem a política e protegem a finança, mas trabalham com os dois lados do biombo... (...)
Hoje, a grande dificuldade para uma intervenção política diferente prende-se, a meu ver, com a dificuldade em sermos contemporâneos do nosso tempo (...) Sermos contemporâneos do nosso tempo passa por falar uma outra linguagem que não a dos folhetins «telejornalescos», em conseguir fazer as perguntas que efectivamente interessam às pessoas. Por exemplo: o que é que deve ser, hoje, uma escola? Eu tenho feito esta pergunta a políticos de todos os partidos e ninguém é sequer capaz de ouvir a pergunta, só conseguem ouvir as reivindicações corporativas dos professores, se deve haver mais ou menos exames, a história das metas ou dos perfis, tudo coisas completamente irrelevantes quando se sabe que, hoje, qualquer criança inicia quase no berço a sua formação nos ecrãs...E a escola reproduz a sua mesma organização, o mesmo modelo, se vir bem, de há praticamente cem anos. Penso que os grandes problemas são, hoje, os da adequação das instituições que herdámos às realidades do nosso tempo, o que pode implicar tanto a sua eliminação como a sua reinvenção.
Vejamos, por exemplo, como tudo é hoje dominado pelo fantasma da saúde. A pouco e pouco, com o apogeu do individualismo, a saúde tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais central e decisivo na política. Não sei se está de acordo comigo, mas, se olharmos para o lugar que tinha a educação há cem, 50 anos, esse lugar está hoje ocupado pela saúde, o que se deve em grande parte à ilusão individualista da imortalidade (...)
A finitude é intrínseca ao ser humano, que é, de todos os animais, o único que tem essa noção. É a nossa diferença. É isso que faz de nós animais políticos, no sentido de pensarmos o nosso destino e termos algum poder sobre ele. É por isso que a crise da política é, também, uma crise dessa consciência da nossa finitude.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.133-135 e 149.

Sem comentários:

Enviar um comentário