quinta-feira, 27 de julho de 2017

Responsabilidades na ruína do "rust belt". As políticas. E as culturais.


Resultado de imagem para Lamento de uma América em Ruínas

Sobrevivemos à infância? E torná-la susceptível de nos ligar ao futuro, depende de políticas, de culturas, de mentalidades, de quê, afinal? 
Entre a introspecção auto-biográfica, a observação sociológica, a estatística da mobilidade social, o relato fantástico/terrível (fantasmagórico) de uma infância e adolescência em carne viva (permeada, sucessivamente, por violência bastante), entre o acerto de contas com o passado (e a mãe, muito em particular), a assunção da complexidade da realidade e a construção de uma sabedoria que rejeita a condescendência, mas não ignora a literatura dos constrangimentos ao elevador social (norte-americano: "num trabalho em que analisa uma série de dados, Chetty e os outros coautores destacam dois factores que explicam a distribuição desigual de oportunidades: a incidência de pais solteiros e de desigualdades salariais. Crescer perto de muitos pais solteiros e morar num lugar onde a maioria dos nossos vizinhos é pobre reduz muito o terreno de possibilidades. Significa que, a menos que tenhamos uma mamaw e um papaw que se certifiquem de que andamos na linha, não há escapatória", p.254) se faz a elegia de um mundo Hillbilly num retrato cru, de quem, migrando socialmente, continua ligado à corrente de onde proveio. Um livro intenso, este de J.D.Vance, de uma grande vivacidade, que alternando nas pistas entre o amor/ódio para com as origens - como num policial surpreendente - desemboca em uma sabedoria que, mais (e depois de) do que julgar procura compreender, apontando lugares a mudar, se compromete com a dificuldade de rótulos, de soluções, que joga o jogo de quem se assume um vencedor repleto de cicatrizes e falhas que vigia de perto, mas prontas a explodir, afirmando, pois, a sua vulnerabilidade, num sedutor encontro com o saloio que sabe que só singrou na vida por causa dos seus mamaw [avó] e papaw [avô] (nunca o seu nome é self made man, num agradecimento sensível e inteligente a quem o segurou) e outros mentores, familiares, amigos ("em cada nível da minha vida e em cada ambiente, encontrei familiares, mentores e amigos que me apoiaram e me ajudaram. Mas pergunto-me frequentemente: onde estaria eu sem eles", p.265), não enjeitando, contudo, nunca a responsabilidade individual e comunitária - e aí concentrando, diria, a sua atenção. 
Hillbilly Elegy é a história de comunidades operárias brancas, do cinturão industrial norte-americano, nas quais a presença de famílias desestruturadas, a ausência de um amparo (e uma linha) para quem cresce, a emergência das drogas, do álcool, de uma violência larvar com justiça pelas próprias mãos tende a hipotecar as hipóteses de uma vida mais realizada. J.D.Vance passou pelo calvário de uma infância a ver mudar, constantemente, a figura paterna de referência ("nenhum país experimenta nada parecido. Na França, a percentagem de crianças expostas a três ou mais parceiros das mães é de 0,5 - ou seja, cerca de uma em duzentas. O segundo índice é de 2,6, na Suécia, ou seja, cerca de uma em quarenta. Nos Estados Unidos, o índice é chocante, de 8,2% - cerca de uma em doze - e o índice é ainda mais alto na classe operária", p.240), a mãe em cenas de violência conjugal e doméstica, o desperdício de dinheiro, os abusos do álcool, as vezes em que a progenitora foi detida, as incontáveis ocasiões em que aquela esteve em desintoxicação por drogas. Vance quase sucumbiu e abandonou a escola antes da ida para a faculdade. As notas não foram boas, as faltas muitas. Salvaram-no os avós, rústicos que haviam tido o seu próprio historial de pegas e violências, mas que deram o sentimento de acolhimento, hospitalidade, continuidade, estabilidade, coerência, amparo, amor a Vance. O obrigaram a estudar, a fazer os trabalhos de casa, vigiaram as más companhias ["todos os meus amigos planeavam ir para a universidade; o facto de eu ter amigos tão motivados vinha da influência da mamaw. No meu sétimo ano na escola, muitos dos meus amigos do bairro já fumavam marijuana. A mamaw descobriu e proibiu-me de andar com eles. Reconheço que a maioria dos jovens ignora ordens destas, mas a maioria dos jovens não as recebe de Bonnie Vance. Ela garantiu-me que, se me visse com qualquer rapaz da sua lista negra, ela atropelava-o com o carro. «E ninguém ficará a saber», sussurrou ameaçadoramente", p.166]. É delicioso o retrato da avó malvada, de espingarda permanentemente em punho, de linguagem brejeira, durona, sempre de pelo na venta. Tal como o é, nas trocas e baldrocas de casa, a tentativa de morar com o pai, este recém convertido a uma Igreja cristã - pelo menos, com maior fervor que na anterior pertença débil -, com as ideias milenaristas, o rock perverso a ter que ser afastado, e o pecado sempre por perto. Ou, na faculdade de Direito de Yale, pela qual se formará, todo o networking, e os jantares de nove talheres em serões como entrevistas de emprego.
Sim, diz Vance, caberia ao governo não criar guetos (habitacionais) para pobres; a limitação da concentração de pessoas com determinado nível de rendimento, em determinados bairros, permitiria outra interacção social que beneficiaria todos e impediria que uma cultura maciça de um fracasso existencial visto como inelutável se impusesse - a mobilidade social ocorreria com muito mais frequência. Sim, diz Vance, a assistência social devia ter outro cuidado, a legislação devia mudar no que a pais autorizados a ficar com crianças que têm que sair de famílias nucleares desestruturadas, atendendo, de outro modo, a esses critérios, em particular com a restante família.
Mas há um discurso derrotista à partida, desencorajador de trabalhar mais, como se essa ética do trabalho, apregoada sempre, não tivesse, naquela comunidade, qualquer ligação com a realidade ("bem prega Frei Tomás..."). Como se o discurso da impotência, da desculpa da derrota, tivesse infectado todos, e os paralisasse para alterarem a sua situação. Um discurso que os avós de Vance lhe haviam incutido como sendo de rejeitar. Aqui, a questão política assoma com particular densidade: a família de operários da "rust belt" era, desde há muito, democrata. Todavia, uma experiência profissional como caixa de supermercado e, com ela, a dos benefícios sociais, os subsídios concedidos pelo Tio Sam, fez Vance começar a mudar de ideias: quem programou aqueles subsídios teria boas intenções (para com os mais pobres), mas, no fundo, desincentivava a emancipação (dos mais desfavorecidos; já agora refira-se que, basicamente, é este o argumento desenvolvido na tese académica que deu origem ao livro de Martim Avillez Figueiredo com a sua posição sobre o rendimento básico universal). Isto, de resto, como sabemos, como que faz parte do menu habitual de todas as eleições, um pouco por toda a parte: para um social-democrata, a cana de pescar tem que ser dada/ensinada porque, se não, de facto, não se sai da pobreza (e decai-se no assistencialismo), mas, até esta estar adquirida a pessoa precisa (mesmo) do (próprio) peixe. O calibrar/desenhar das medidas de apoio social para que estas não se transformem num ciclo vicioso (embora haja casos de inevitável perpetuação), mas sejam positivas para uma futura emancipação do próprio seria/é o tema (não, propriamente, a caça ao outro, e muito menos um discurso demagógico e pouco sustentado sobre fraude, milhões deitados fora, "os meus impostos!"; um inciso ou parêntesis para a realidade política nacional: num debate para as legislativas de 2009, com Paulo Portas verberando determinado tipo de subsídios sociais e trazendo de novo a metáfora da cana de pesca vs o próprio peixe, Manuela Ferreira Leite respondeu-lhe que se uma pessoa estava com fome, e ia aprender a pescar, ainda morria esfomeado antes de ter a lição aprendida; na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, escrita por Vítor Matos, podemos relembrar o que dizia Marcelo na condição de líder da oposição sobre o então denominado rendimento mínimo garantido: "umas migalhas"; e com efeito, em sendo migalhas, não tem sentido o anátema que tantas vezes se cria sobre as pessoas que dele auferem, num dado momento, como se aquele subsídio permitisse viver à grande e à francesa; e, por outro lado, é preciso perceber o objectivo daquela prestação social não contributiva: combater a pobreza severa; nem sequer a pobreza, mas a severidade desta; e, tendencialmente, com carácter transitório, pois se espera que aquele que dela necessita possa ser reintegrado no mercado de trabalho; já agora, atente-se como os níveis de severidade da pobreza aumentaram largamente na legislatura precedente). 
Vance é, hoje, um republicano, mas, como se percebeu, não é um radical: a questão habitacional, a ajuda precoce à criança, os critérios para o tratamento familiar dificilmente o colariam a uma direita mais contundente. E o jurista não ignora - e aduz ao seu livro - as estatísticas que mostram bem como em tantos países europeus a mobilidade social é superior à dos EUA (como o caso nórdico a uma distância estratosférica, como, aliás, Stiglitz mostrara profusamente em O preço da desigualdade). 
Até certo ponto, há uma tensão entre o reconhecimento da sua singularidade - o primeiro da sua família nuclear a ir para a universidade; o primeiro, em toda a família, a formar-se; raríssimo caso, em Yale, vindo de uma família pobre -, o reconhecimento dos graves problemas de mobilidade social nos EUA e algum discurso que redunda em "se acreditarmos que com o nosso trabalho e esforço podemos subir socialmente, vamos sair do ponto em que estamos" ("não digo que a capacidade não importa. Certamente ajuda. Mas existe algo poderoso em perceber que nos subestimámos - que, de alguma maneira, a nossa mente confundiu falta de esforço com falta de capacidade. É por isso que quando as pessoas me perguntam o que eu gostaria de mudar na classe trabalhadora norte-americana, eu respondo: «A ideia de que as nossas escolhas não importam»", p.189). Diria que o alerta de Vance, bem situado, poderia colocar-se, mais rigorosamente, do seguinte modo: apesar de, face às desvantagens de partida e de todas as dificuldades para entrar no elevador social, a auto-condescendência (comunitária/pessoal) só jogará em "nosso" desfavor e, em assim sendo, "tenhamos" a coragem de "nos" olharmos ao espelho e "mudarmos" aspectos que são nucleares à "nossa" cultura/mentalidade, porque aí nenhum governo pode "ajudar-nos": "a morte da mãe de Brian foi mais uma 'carta má' numa 'mão' já de si péssima, mas ainda há muitas cartas para sair: a família pode conseguir dar-lhe a sensação de controlar o próprio destino, em vez de o incentivar a procurar refúgio em ressentimentos contra forças que estão fora do seu controlo; ele pode ser acolhido na comunidade de uma igreja que lhe ensine sobre o amor cristão, a família e o propósito de vida; e pode sofrer a influência positiva de pessoas que lhe deem apoio emocional e espiritual.
Acredito que nós, saloios, somos as pessoas mais valentes à face da Terra. Facilmente empunhamos uma serra eléctrica contra aqueles que ofendem as nossas mães, ou fazemos outros engolirem umas cuecas para protegermos a honra das nossas irmãs. Mas será que somos valentes o suficiente para fazer o que precisa de ser feito para ajudar um rapaz como o Brian? Somos valentes o suficiente para construir uma igreja que faz com que jovens como eu se integrem no mundo em vez de se apartarem dele? Somos valentes o suficiente para nos vermos ao espelho e admitirmos que fazemos mal aos nossos filhos?
Políticas públicas podem ajudar, mas não há governo que possa corrigir esses problemas por nós" (p.267)
Um aspecto que liga, precisamente, este livro a Pais à maneira dinamarquesa é esta defesa de que se pode fazer alguma coisa, de que não está tudo fora das "nossas mãos", de controlar (em certa medida, diria) "o próprio destino". E uma filósofa liberal (no sentido norte-americano do termo), Martha C.Nussbaum também defende a responsabilidade individual (e, aqui, neste contexto também é defendida a responsabilidade comunitária, por Vance) como sendo um aspecto central a transmitir em qualquer educação. Um dos problemas desta comunidade do cinturão industrial prende-se com o não acreditar praticamente em nenhuma instituição do país, jornais incluídos, o que permite não apenas as fake news, mas todo o tipo de narrativa auto-justificativa para nada se mudar (no interior da comunidade). Todavia, em se perguntando o autor sobre para que se esforçará e trabalhará quem sabe que a seguir não terá a recompensa, nem sairá do mesmo patamar, em que se encontrava, de novo, pode dizer-se, se regista a tensão: o elemento volitivo tem a sua pertinência - deve dar-se tudo, mesmo que se perca, ou que se saiba que a vitória será muito difícil -, mas tal também não permite apagar o elemento sistémico no que à mobilidade social diz respeito nos EUA. E como o retrato, neste livro, é bom e complexo, lá temos o Professor de Yale a dizer que só os alunos das melhores universidades deviam ali estar (ou seja, as grandes universidades públicas, como aquela em que Vance estivera, não valia nada) e o networking a contar mais do que qualquer outra coisa - qual enviar currículos, qual quê - e o forjar da endogamia, com todos os seus trejeitos, exposta em toda a sua feição, admitindo, em realidade, apenas uma improvável excepção (a do rapaz nascido em 1984, que viveu em Middletown e se formou na Ohio State).

Sem comentários:

Enviar um comentário