sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tecnologismo, financismo e individualismo


Vivemos uma era em que se conjugam, de um modo inédito e de consequências imprevisíveis, três deslumbramentos globais. O do tecnologismo, que - para dar um exemplo na área cultural - hoje não é preciso uma política para os museus porque podemos ir a todos os museus do mundo através do computador, etc. A tecnologia ajuda muita coisa, e traz grandes progressos, claro, mas a tecnologia é de ordem instrumental, não da ordem dos fins, é nuclear não se confundirem os fins, os objectivos, com os meios, os instrumentos.
Depois, temos o financismo, que impôs uma nova ordem económica, que é dominada por um grupo relativamente restrito de bancos e de sociedades financeiras no mundo. O problema, aqui, é muito difícil, mas ele é resolúvel. Acabo de ler um estudo muito interessante, L'Hydre mondiale - l'oligopole bancaire, sobre quem hoje domina o mundo. É de François Morin, que é um economista consagrado, e ele mostra que o essencial dos produtos derivados nasce, e se coloca, em 14 bancos. Ora, não me digam que o poder político não pode resolver um problema que está situado em 14 bancos. O que há é falta de vontade política, e isso é outra coisa. (...)
O terceiro deslumbramento tem raízes mais longínquas e é, digamos, mais civilizacional. É o deslumbramento do indivíduo consigo mesmo, com a espiral dos seus sempre crescentes direitos, numa situação tal que quase se pode dizer que, hoje, qualquer capricho pode ambicionar transformar-se num direito. A novidade é nós vivemos numa sociedade de massas que é, simultaneamente, e cada vez mais, uma sociedade de indivíduos (...). Mas isto conduz-nos a um paradoxo imenso, que é o de que, se, por um lado, este processo de individualismo tem aumentado permanentemente os nossos direitos individuais, por outro, ele conduz-nos a uma situação inédita que é a de, ao mesmo tempo, nos tornar colectivamente cada vez mais impotentes.

Manuel Maria Carrilho, entrevistado por José Jorge Letria, no livro Ser contemporâneo do seu tempo, Guerra e Paz, Lisboa, 2017, pp.88-90.

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