quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um "mercado de notas" (sem regulação)


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O ensino será daquelas àreas de actividade em que é mais penoso assistir-se a avaliações (de alunos), uma das específicas e mais responsabilizantes tarefas de um professor (no que contribuirá para a configuração de uma hierarquização e do delineamento de uma estratificação futura, que passa pela sua pena também), marcada e atenta a considerandos outros que não os estritos critérios desenhados e estabelecidos para essa obrigação ética marcante. E, no entanto, considero verdadeiro o diagnóstico do Professor David Justino, este fim de semana, no JN (aqui, alguns sublinhados da entrevista). Evocar-se, em reuniões de avaliação, o perigo de fuga de alunos para um outro estabelecimento de ensino, privado (porventura, as mais das vezes) ou público, como motivo de ponderação de uma dada nota é, de facto, constrangedor e confrangedor. A sociedade de mercado significa que nenhum âmbito, nenhum sector está (ou parece) a salvo do tudo se vende e tudo se compra, todas as relações têm que dar lucro, o que no caso da escola é especialmente degradante. David Justino diz, neste contexto, que "se eu fosse ministro da educação" já teria havido consequências para as escolas que, sistemática e sucessivamente, apresentam desvios (significativos), nas notas de frequência interna para as notas de exame. Que tal se verifique, em conhecidas escolas e colégios, reiteradamente, desde há, pelo menos, 15 anos (desde que os rankings são feitos e/ou conhecidos) e nada se faça perante essa realidade é, de facto, escandaloso. E que um governo, qualquer governo, que se diga defensor da justiça social e não actue, nem faça deste âmbito uma prioridade - quando, como vimos de dizer, ele, precisamente, é uma das determinantes para moldar a hierarquização das sociedades vindouras - é incompreensível. Até porque, não raramente, com colégios, onde tais ocorrências se têm verificado, sujeitos a propinas impossíveis de serem pagas por famílias desfavorecidas ou remediadas, nem sequer a igualdade de oportunidades - já de si a merecer contributos que vão além dela, para lá da meritocracia - se procura garantir. O actual Governo leva, já, dois anos de mandato. E, se apesar de muitas críticas, a meu ver, tem arriscado e ousado em formas de flexibilização curricular, em valorização das ciências sociais que merecem forte saudação, não encontro justificação plausível para o mutismo face a esta grave questão.
Outra coisa que me custa a entender é a necessidade de se mudar a liderança no Conselho Nacional de Educação (pelos vistos, em marcha, segundo se pôde ler, na nossa imprensa, esta semana). David Justino tem um pensamento político, tem ideologia, pode nem sempre ter estado de acordo, nem tinha que estar, com o que o Ministério da Educação tem vindo a fazer nos últimos dois anos (nomeadamente). Mas isso, por si só, não me parecem razões bastantes para justificar o afastamento de alguém que é um grande estudioso da matéria, que em muitas ocasiões tem posições de grande sensatez neste domínio, preparado, sem, propriamente, a visão dogmática de outros doutrinadores. Pessoas como David Justino, ou - para dar um outro exemplo de uma área diferente, a concertação social - Silva Peneda serem afastados (por partidos diferentes) por delito de opinião, ou eventualmente para colocação de alguém mais lá da casa empobrece a qualidade da nossa deliberação pública. 

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