terça-feira, 18 de julho de 2017

Vias de acesso


Finalmente: a recepção de um discurso problemático sobre Deus não será a mesma na teologia e na filosofia. O ritmo de aproximação ao tema Deus é diferente. (...) O ritmo filosófico de acesso a Deus - inclusivamente, o da filosofia da religião - será sempre laborioso, titubeante, interrogativo, problemático. O da teologia, ao invés, pode ser, ainda que não necessariamente - pense-se na teologia fundamental - mais directo, mais assertivo e firme. A filosofia poder retardar indefinidamente a aparição do tema «Deus» no horizonte das suas preocupações. Pode pô-lo entre parêntesis sem má consciência, ainda que historicamente tal apenas tenha ocorrido no Ocidente. W. Weischedel dedicou-se a demonstrar, em dois volumes, até que ponto a filosofia ocidental se converteu numa doutrina filosófica sobre o Deus cristão. A sua tese é de que, quando isto deixou de ocorrer, a filosofia ocidental entrou em crise.  O que já não sei é se a filosofia pode obviar por completo o tema «Deus». Imagino que uma filosofia sectorial, talvez sim. Pelo contrário, uma filosofia - não sei se diga «metafísica» - que se interrogue pela realidade no seu conjunto é possível que seja obrigada a dar uma olhadela a Deus.
A categoria principal do pensamento filosófico é a razão. É ela que marca etapas e possibilidades de acesso a Deus. A teologia, por outro lado, concede maior protagonismo a faculdades menos severas: a imaginação, o sentimento (Schleiermacher), os afectos. Ainda que, para ser justo, haja que assinalar que as tradições ocidentais - tanto as filosóficas, como as teológicas, tão difíceis de separar - cultivaram ambas as vias. A via, digamos, mais cordial, tem os seus marcos principais em Platão, Santo Agostinho, São Boaventura, o Mestre Eckhart, Niculau de Cusa, Pascal, Kierkgaard, Schleiermarcher, Unamuno...Foi uma via generosa de acesso a Deus, ampla e de grandes horizontes. Deu carta de cidadania à experiência, ao sentimento, à mística, aos avatares da vida.
A outra via, mais austera e racional, pode remeter-se a Aristóteles, Santo Anselmo, São Tomás de Aquino, Descartes, Leibniz, Espinoza, Kant, Hegel, Heidegger...Cultivou uma fidelidade, quase heróica, à razão. O específico, aqui, foi a sobriedade racional. Descuidou, desta forma, outros caminhos aos quais, hoje, somos mais sensíveis. O ideal seria, naturalmente, um cruzamento de tradições, que Unamuno formulou assim: "Pensa o sentimento, sente o pensamento". Trata-se de uma dupla cidadania - Atenas e Jerusalém - difícil de obter.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.110-111 [tradução minha]

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