terça-feira, 22 de agosto de 2017

Séries


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Olhar de dois mil metros, de Thomas Lea


Na noite desta segunda-feira, a RTP2 concluiu a exibição (de seis episódios) da (mini) série Os filhos da guerra (no original, Unsere Muter, Unsere Vater, de 2013, numa co-produção ZDF/ORF, com direcção de Phillip Kadelbach, a partir do diário de um pai de um dos soldados que participaram no exército alemão, durante a II Guerra Mundial). Cinco amigos (dois irmãos, Willhem e Friedhelm) que irão incorporar-se na Wermacht, uma rapariga que irá ser enfermeira ao serviço do exército alemão, uma futura cantora/vedeta de rádio, ao serviço da propaganda, que tudo fará para tentar salvar o namorado judeu, e este, Viktor, enviado com destino aos campos de morte, arriscando para debaixo do comboio e passando por um imenso rol de provações durante a guerra, na Polónia) encontram-se num bar, em Berlim, em vésperas do início da II Guerra Mundial, quando a situação dos judeus é, já, muito precária na Alemanha, pensando, todos, que no Natal a guerra está terminada (surpreendente, de algum modo, essa abordagem depois do que também se vira na I Guerra Mundial, em previsões idênticas).
A abordagem da série é muito a do sentimento humano na guerra - as emoções, a devastação, a queda, a inumanidade, a brutalidade cega, os gestos inesperados, a camaradagem, as ilusões, a mudança do humano no campo de batalha. Digamos que é o que se poderia chamar de micro-economia da guerra. Não temos, afora pequenas contextualizações (a blitzkrieg falhada no inverno russo, as mudanças ano a ano, ou mês a mês...), os passes de xadrez da II Guerra Mundial, como avançaram os exércitos, as jogadas dos gabinetes - a visão macro -, mas, essencialmente e quase em exclusivo, o modo como se vivenciou, no terreno, a guerra. A voz/sentimento dos homens que levam uma farda. Neste sentido, como nota Harari, o olhar do soldado de Thomas Lea, poderia ser um olhar de todo o soldado, de todos os tempos, sempre que marcou presença no teatro de operações: desse ponto de vista, a guerra seria sempre "um inferno em todos os lugares". Não creio, portanto, que a série pretenda justificar ou legitimar o que quer que seja (nomeadamente, apresentar os alemães como vítimas dos nazis), mas antes colocar-nos perante o que Orwell descreveu, assim, num livro sobre a guerra civil espanhola, acerca de um soldado-inimigo que cedera às necessidades fisiológicas do lado de lá da trincheira, poupado por Eric Blair e companheiros ao tiro fatal: um fascista com as calças na mão, não é um fascista; é uma pessoa.
De partida para a frente de guerra, mas ainda no bar, as raparigas falam do "Reich de mil anos", a mesma certeza milenarista e do determinismo ingénuo e científico que raramente nos abandona. 
O pai de um dos irmãos que seguimos nesta história pede ao mais velho, um tenente, que traga o irmão vivo, a ver se "ainda conseguimos fazer dele um homem". Este mano mais novo é dado às literatices, tratado no exército como "maricas", os primeiros tempos - aqueles em que ainda a soldadesca se vê e sente como "heróica", sendo que no fim dá nota de que "agora somos vistos como cretinos" - sem um único morto para apresentar (à galera e na galeria), nenhuma prova de virilidade. Ele lera Rimbaud e Goethe, um intelectual fora de lugar, um homem que não presta para nada, altivo no desprezo pela ideologia que justifica toda a gama de horrores a que vai assistindo e naqueles que nela acreditam e seguem cegamente. Mas, aquele homem avisado, céptico, dir-se-ia com o seu perfil humanista, cumprirá a profecia que o próprio lançara: "a guerra desperta o pior que há em nós". No segundo episódio da série - porventura, o mais conseguido -, um conjunto de partisans, na Rússia, indicam aos soldados um caminho a seguirem para a localidade que pretendem. Um soldado alemão morre numa mina. Este leitor de Rimbaud aconselha o tenente - seu irmão - a mandar os partisans na frente, no caminho a percorrer. Nessa cena tremenda, voltamos ao tópico da relação entre as humanidades e o discernimento ético, à personalidade não linear e complexa, ao idealista capaz de ser o mais atroz e frio dos cínicos (embora este soldado nunca tivesse acreditado na justificação, no ideal da/desta guerra), à desumanização da guerra (logo no episódio inicial a execução impiedosa de uma criança catalogada de partisan). 
Os cinco amigos encontrar-se-ão em barricadas diferentes, durante o conflito bélico, nas nesses (des)encontros a amizade prevalecerá sobre todas as outras pertenças: uma troca de olhar(es) pode/pôde salvar (uma vida). Outra cena notável. 
Muitos tropas hesitam, há gente de 12 anos na frente de combate, na parte final da guerra, sádicos que praticam o mal pelo mal com um deleite imenso; a tensão entre as obrigações para com a tropa e a proximidade enquanto irmão torna-se palpável quando o tenente permite que o mano mais novo seja sovado, depois de colocar em risco todo um pelotão, pela sua impertinência, pedindo-lhe, posteriormente, desculpa - e há até espaço para ambos brincarem, na neve, durante a guerra em território russo; os alemães que ficam com as casas que eram de judeus; Greta como personagem sacrificial/sacrificada, é usada e abusada ao longo de toda a vida (entre a dádiva máxima para poupar o namorado a uma morte certa, e um sonho pueril de ser e de se crer estrela); o nazi cruel torna-se no homem da administração no dia seguinte à queda do regime, adaptando-se de um dia para o outro com a mesma falta de escrúpulos até então evidenciada (aqui o contacto é com O caso Fritz Bauer). Os namoros e casamentos adiados para sempre (às vezes, as pessoas não são lineares como se disse, para poupar sofrimento ao outro, neste caso, à outra, quando não se sabe quando a guerra acaba, nem se aceita iniciar o flirt), as ilusões ideológicas abandonadas mais cedo que tarde; a recusa de ordens arbitrárias para matar (que significam a punição com a morte por desobediência, quem diria o gesto?); mas nos mesmos que já haviam obedecido e matado antes; o papel da sorte e do azar, na conservação da vida, quando a morte está em permanente vigília; a pura sobrevivência como único desígnio; a celebração da vida, ela mesma, entre os três sobreviventes na chegada a uma Berlim em escombros e tomada pelo exército vermelho. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Perfil do incendiário (em Portugal)


Pessoa com fracas competências profissionais, fracas competências sociais, pouco enquadramento familiar, muitos casos de alcoolismo, alta taxa de reincidência, 46 anos, um terço dos incendiários (detidos) estavam desempregados, sendo que se se juntarem estudantes e pensionistas, metade estavam sem ocupação laboral. 18 dos 65 detidos em 2017 eram do distrito de Vila Real, a esmagadora maioria do Norte do país. Motivos apresentados: "vingança", "problemas conjugais", "gostar de ver os bombeiros a combater as chamas", "forte impulso e atracção pelo fogo". 20% estavam alcoolizados.

[no trabalho do Expresso, deste fim de semana, nos textos de Pedro Santos Guerreiro e Hugo Franco]

A ansiedade do face a face




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Absolutamente sem complexos. Pensa-se que quem vem de Humanidades não tem capacidade na área da numeracia. Isso é uma construção social. Precisamos de três competências essenciais para nos movimentarmos no mundo de hoje: a literaria, a numeracia e a literacia visual, saber lidar com as imagens. Estas competências são essenciais para poder navegar e desenvolver estrategicamente qualquer projecto, seja em que área for. Uma universidade é uma ecologia de saberes e tem de fazer com que os vários sectores não sejam silos. É um grande desafio. O paradigma da ciência moderna é o da especialização, mas aquele em que nos encontramos no século XXI é o da transdisciplinaridade. Estive há pouco tempo na universidade de Quioto, no centro de inteligência artificial que desenvolveu o robô mais perfeito do mundo, Erica. A inteligência artificial é por um lado fascinante, e, por outro, ameaçadora. Causa ansiedade perceber que a máquina está num momento muito próximo daquele que a ficção científica nos apresentou. Quando lemos as histórias de Philip K. Dick pensamos que aquilo é utópico. Já lá estamos. Uma das coisas que visitei nesse centro foi um projeto financiado por uma grande fundação japonesa. É um projecto a dez anos, chama-se O Que é Um Homem? Lá temos a cibernética, físicos, sociólogos, filósofos, estudiosos de literatura. É sobre a definição do humano e a forma como o avanço da inteligência artificial vai ter um impacto na auto-definição do ser humano. Pode ter implicações dramáticas. Uma das utilizações que está a ser dada a estes robôs é no tratamento dos mais velhos, em lares de terceira idade. O cuidador deixa de ser prioritariamente um ser humano para ser uma máquina. Há estudos face ao impacto e é espantoso ver que os idosos se sentem mais acompanhados com a máquina do que com outros seres humanos. Achei perturbador.

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Outro termo fatal. Nietzsche falava da utilidade da História para a vida. Só conseguimos orientar-nos para o futuro se percebermos como chegámos aqui. É necessário um sentido lato da nossa posição no mundo e não estreito e desconhecedor do que existe além do nosso quintal. A visão hiper-especializada pode levar aí. Seja em que dimensão for, a dimensão da universidade é formar, não é ser um instituto de formação profissional. (...) Lamento que tenhamos uma formulação do ensino secundário que obrigue o estudante a escolher no 9.º ano opções que são definidoras para a vida. Sobretudo se alguém quer optar por fazer Humanidades e chega ao 12.º e decide que quer ser médico. Tem de voltar atrás. Esse tipo de hiper-especialização com 14 ou 15 anos é destruidor, é o contrário de formar. Precisávamos de ter formação básica em Matemática, em Português, línguas estrangeiras, História e Física, um modelo de ensino secundário com grandes áreas de conhecimento transversais.

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Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa, em entrevista ao Público, conduzida por Isabel Lucas, 21-08-2017.

domingo, 20 de agosto de 2017

Premier League


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Em Maio de 1992, os clubes deixaram mesmo a divisão principal e criaram a Premier League (o nome escolhido de início, Super League, foi abandonado por ser considerado "algo arrogante"). (...) No dia 15 de Agosto de 1992 disputou-se a primeira jornada da primeira época da Premier League (...) A Premier League continua a ser uma empresa privada detida pelos 20 clubes (eram 22 em 1992) que todos os anos a integram. Cada clube tem um voto, e as decisões mais importantes requerem uma maioria de dois terços. (...) O Sunderland, último classificado- uma equipa que marcou 29 golos e somou apenas seis vitórias em 38 jornadas -, recebeu [em receitas televisivas], mesmo assim, 93,4 milhões de libras (103 milhões). Este valor é muito superior à soma das receitas televisivas de Benfica, FCPorto e Sporting na Liga NOS no mesmo ano. (...) Os jogos da Premier League são transmitidos em directo para mais de 210 países ou territórios (a Coreia do Norte é uma das excepções). (...) Em 1992, a cadeia televisiva [Sky Sports] pagou 191 milhões de libras (210 milhões de euros) por um contrato de cinco anos que previa a transmissão para o Reino Unido de 60 jogos da Premier League cada temporada. Os valores nunca pararam de crescer. E dispararam a partir de 2007, depois da Comissão Europeia ter quebrado a posição dominante da Sky e forçado a entrada em cena de outros operadores televisivos (...) Em 1992-97, a Sky pagou, em média, pouco mais de 600 mil euros) por cada jogo transmitido. Em 2016-2019, Sky/BT Sports pagam, agora, mais de 10 milhões de libras (11 milhões de euros) por partida. (...) Uma marca de sucesso que aproveita o predomínio da língua inglesa (...) Richard Scudamore, de 59 anos, ex-CEO e agora presidente executivo da Premier League ([ganha] salários mais prémios: 3,2 milhões de euros anuais). "Não será, talvez, a liga europeia com a qualidade técnica mais elevada. Mas no estrangeiro dizem que é a liga mais empolgante, mais barulhenta, mais 'física' - e que, por isso, é mais interessante do que todas as outras". (...) Dos 20 clubes que vão disputar o campeonato de 2017-18, apenas sete (...) permanecem totalmente em mãos britânicas. Todos os clubes que conquistaram o título nacional no século XXI pertencem a milionários estrangeiros. (...) Na primeira jornada da época inaugural da Premier League, disputada a 15 de Agosto de 1992, não havia mais do que 11 jogadores estrangeiros repartidos pelas várias equipas (...) Dez anos mais tarde, em 2002, a maioria dos jogadores utilizados pelas equipas da liga era já importada (...) Em Dezembro de 2009, o Portsmouth-Arsenal foi o primeiro jogo da história da Premier League que não contou com um único titular inglês (...) Em Janeiro de 2011, os jogadores que participaram no Blackburn-West Bromwich Albion eram provenientes de 22 nações diferentes. A Premier League transformou-se assim numa verdadeira Liga das Nações, com uma larga maioria - 61,8%, segundo os cálculos que o CIES Football Observatory fez em 2016 - de talento importado. A nível europeu, este número é suplantado unicamente pelos campeonatos nacionais de Chipre (onde 65,% dos jogadores provêm de outro país) e da Turquia (62%). Em Portugal, a marca rondou os 53,5%. (...) No período anterior à criação da Premier League, apenas um técnico nascido fora do Reino Unido ou da Irlanda treinara alguma vez um clube da divisão principal do futebol inglês: o checo Josef Venglos, que esteve no Aston Villa em 1990-91 (...) Em 1993-94 chegou o primeiro treinador estrangeiro à Premier League, o argentino Oscar Ardilles, para o Tottenham. Em 2004-05, os técnicos estrangeiros ainda eram uma minoria: apenas cinco, incluindo o português José Mourinho. (...) Em 2017-18, o campeonato inglês tem uma maioria de treinadores estrangeiros (13) (...) Entre os sete que nasceram nas ilhas britânicas, apenas quatro são ingleses. E todos eles estão em equipas que não discutem o título. Os técnicos ingleses, aliás, nunca venceram a Premier League ao longo dos 25 anos de história da competição (...).
A Premier League está muito à frente de todas as outras ligas de futebol em termos financeiros. No mundo do desporto profissional, aliás, apenas as ligas milionárias do basebol (MLB) e do futebol americano (NFL) geram receitas maiores. Além de ser uma máquina geradora de contratos televisivos muito lucrativos, a Premier League domina igualmente em termos de receitas de bilheteira, patrocínios, merchandising e outras receitas comerciais. De acordo com a Deloitte, as receitas dos clubes da Premier League atingiram os 4865 milhões de euros em 2015-16 - um número fabuloso que deixa a Bundesliga alemã (2712 milhões) e a liga espanhola (2437 milhões) a milhas de distância. Oito dos 20 clubes mais ricos do mundo são ingleses (...) Nessa mesma época [2015-16], 17 dos 20 clubes da Premier League encerraram o ano com lucros. (...) Clubes modestos da Premier League, como o Huddersfield (43 milhões de euros) ou o Brighton (29 milhões), por exemplo, gastaram até agora verbas que seriam impensáveis para os 'grandes' da liga portuguesa (...) Os estádios da Premier League estão quase sempre cheios, registando uma taxa de ocupação de 96% e uma média de 35.800 espectadores por jogo em 2016-17 (apenas a Bundesliga tem uma média superior, porque autoriza a venda de lugares em pé).
História, tradição, ambiente, competitividade, estádios cheios, receitas de milhões, técnicos e jogadores de topo. Mas será isto suficiente para fazer da Premier League a melhor liga do mundo? Neste século, os clubes ingleses conquistaram por três vezes a Champions League, enquanto os espanhóis venceram oito. Para ser a melhor liga, teria de contar com os melhores jogadores do mundo, e esses não estão, definitivamente, em Inglaterra. Desde 2010 que nenhum jogador de um clube inglês é um dos três finalistas na votação dos prémios Ballon d'Or ou Best FIFA Football Awards.

Paulo Anunciação, Futebol total, Expresso, E- A revista do Expresso, 2338, 20-08-2017, pp.43-49

sábado, 19 de agosto de 2017

Retornados

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Havia também o amor e o ódio ao meu pai, desde que percebi que ele não era o homem que eu desejava que ele fosse. Os gestos do meu pai na forma como interpelava os empregados eram bruscos e brutos. Isso magoava-me, enquanto menina, mesmo sem nenhuma formação além da que tinha em casa. Eu fui uma filha muito amada, o meu pai foi um excelente pai, um homem generoso, mas um mau cidadão: o colonialista.

Até ao "Caderno de Memórias coloniais" (2009) quase nenhum retornado tinha esse discurso. A narrativa era sempre outra...

Sim, sem dúvida. Para mim, era um grande tabu. Debati-me com um grande dilema. Estou a falar do meu pai, aquele que eu amo e cujo amor não desapareceu.

Esperou que ele morresse?

Sim. Naquela altura senti-me uma traidora. Agora já não. Hoje acho que fiz um bom serviço ao meu pai. Também tive de o defender, porque as pessoas olham para o meu pai como um monstro, o colonialista monstro. Não acredito em monstros. Na minha escrita não existem vilões absolutos. As pessoas não são totalmente más nem totalmente boas. 

Sentiu que tinha aberto uma caixa de Pandora com "Caderno..."?

Quando publiquei o livro, no final de 2009, sabia que estava a publicar algo que não existia e que era perigoso até para mim, mesmo do ponto de vista físico. Disse ao meu editor da altura, Osvaldo Silvestre (Angelus Novus): "eu tenho medo de ir aos lançamentos. Tenho medo de ser atacada, de que me façam mal...". Eu sabia que ia manchar de tal forma a narrativa dos retornados que não ia passar incólume e não passei. Se formos ler os fóruns dos jornais da altura é horrível. Chamaram-me coisas muito feias. Foi uma grande mácula na narrativa oficial. 

Os retornados viviam uma fantasia? 

E continuam a viver. Há aqui uma linhagem de narrativas, histórias contadas segundo uma fantasia oficial colonial. "Aquele tempo era muito bom". E era, para os brancos! Em África vivia-se numa bolha europeia.

Era o "África Minha"?

Era. E é a mesma bolha na qual se continua a viver hoje. Há brancos e portugueses negros ou moçambicanos a viver uma vida europeia em Maputo e a ignorar a miséria alheia. Saímos do hotel Polana e temos gente a dormir na rua e a comer dos caixotes do lixo. Sempre foi assim. Mas agora percebo melhor porque sou adulta.

(...)

Ser chamado retornado era violento. A palavra foi evoluindo?

Quando eu cheguei, em 1975, não queria que ninguém soubesse que eu era retornada. Era um estigma. Na escola, a minha preocupação era apagar esse cadastro, o que foi fácil porque era boa aluna, e os retornados andavam muito à pancada. A evolução da palavra foi muito interessante. No início dos anos 80 o vocabulário já não era muito usado.


Isabel Figueiredo, entrevistada, para o Expresso, por Cristina Margato, Os retornados continuam a viver uma fantasia, E - A revista do Expresso, p. edição 2338, p.20.


Para memória futura


Recomendo a quem está interessado nessa história que vá ler todos os pareceres que determinaram a aprovação desse contrato que foi feito na altura própria (...) A documentação está toda [disponível] e quando o Conselho de Ministros aprovou aquele contrato, aprovou-o com base nos pareceres e na informação que tinha e assim tem funcionado ao longo destes 11 anos.

António Costa, sobre a compra do SIRESP, num contrato assinado por si como Ministro da Administração Interna, em entrevista ao Expresso, conduzida por Pedro Santos Guerreiro, Nicolau Santos e Adriano Nobre, E- A revista do Expresso, edição 2338, p.32, 19-08-2017.

Para lá das confusões


O artigo que, segundo diversos comentadores que acompanham a política norte-americana, terá sido um dos factores decisivos para a queda de Bannon na Casa Branca: http://prospect.org/article/steve-bannon-unrepentant. Duas notas, sobre esta conversa-entrevista: entre a elite política que aconselha(va) o Presidente norte-americano, há quem veja a guerra comercial com a China a grande questão deste tempo (mais dez anos no máximo, e um avanço chinês será irreversível, assinala-se neste diálogo); em segundo lugar, entre os estrategas republicanos, a questão económica - o nacionalismo económico - é identificado como o factor crucial para se ganhar eleições e o desvio desse pólo, para a identidade, pelos democratas, seria (é), no entender de Bannon, uma prenda aos republicanos.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Alma mater


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Tínhamo-la na condição de 'imortal', como outrora Atena ou Apolo, os deuses do Olimpo a quem quase se assimilara - tal era a afeição e devoção que dedicava ao saber dos Helenos. Mas no saber dos Helenos é que Helena descobrira precisamente a inspiração maior da sua vida: a condição mortal do ser humano, tão inexorável como o apelo à grandeza e à demanda permanente do saber, acesa nele. E na consciência desse paradoxo, da grandeza do ser humano sujeito aos limites da sua condição, encontrou ela o sentido para a vida, que aos seus olhos era mais do que esta vida mortal. (...)
Para alguns, em Coimbra, ela era Nossa Senhora e os pastorinhos...assim verbalizavam os mais próximos a elevação ética, a autoridade científica e os desvelos de mestra que caracterizaram a relação com os seus discípulos.
Não posso dizer que tenha feito parte dos seus discípulos mais próximos, mas não era menor o zelo da Doutora Maria Helena pelos ex-alunos (...) Quando no último dos semestres uma doença grave me obrigou ao repouso absoluto, não foi por dever estóico mas por deleite puro que, contra todas as adversidades, fiz questão de estar presente nas últimas aulas (...) 
[Maria Helena Rocha Pereira] Ali [no Liceu Carolina Michaelis] recebeu vários prémios e foi redactora principal  do quinzenário Asas. Terminado o sétimo ano do Liceu, com a classificação máxima de 20 valores, outra decisão esclarecida dos pais fê-la matricular na Universidade de Coimbra, contra tudo o que era habitual. 
A Doutora Maria Helena gostava de recordar o carácter ousado dessa decisão, em que já estava latente o seu desejo secreto, e também ele insólito, de seguir carreira universitária. Em 1942, aos 18 anos, matriculou-se na Universidade de Coimbra e aqui completou licenciatura em Filologia Clássica, em 1947 (...) Com uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, foi estudar para aquela que era considerada a melhor escola de Estudos Clássicos, a Universidade de Oxford. (...) Consciente da sua tenacidade, alcançou o doutoramento, em 1956: era o primeiro doutoramento de uma mulher numa universidade que tinha então 666 anos de história. Na verdade, Carolina Michaelis foi a primeira mulher catedrática da Universidade de Coimbra, mas tinha o estatuto de convidada; Maria Helena da Rocha Pereira, pelo contrário, fora a primeira a prestar provas naquela universidade secular, exclusiva da outra metade da humanidade. (...) O seu prestígio era reconhecido dentro e fora do país, o que lhe proporcionava a aceitação nos principais Centros de Estudos Clássicos e nas mais diversas sociedades científicas.
Portugal também soube reconhecer-lhe o mérito. Entre as muitas homenagens que lhe foram dedicadas, foi galardoada com o Prémio Bocage, por ocasião do II Centenário do poeta (1966), o Prémio de Ensaio do Pen Clube Português (1989), o prémio Jacinto do Prado Coelho (2003), a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2004), os prémios Eduardo Lourenço (2004), União Latina (2005), Universidade de Coimbra (2006), Padre Manuel Antunes (2008) e o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (2010). Em 2009, a Universidade de Lisboa concedeu-lhe o Doutoramento honoris causa; recebeu também a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra e, em sua homenagem, a Fundação Engº António de Almeida instituiu um prémio com o seu nome. (...)
O saber era para a Doutora Rocha Pereira a sua opção existencial, o seu sacerdócio. Por isso, entendia pessoalmente a dedicação total ao estudo incompatível com a dedicação total exigida pela vida familiar - assim reflectia quando a interrogavam sobre não ter constituído família. Na verdade, parecia ter colocado o coração todo inteiro no saber e na partilha dele. O saber e a Universidade eram realmente a sua Alma mater. (...)
Nunca cheguei a ouvir-lhe palavras de reprovação pelo nascimento de cada um dos meus cinco filhos, que me faziam ausentar do serviço por escassos três meses de licença de maternidade...Mas quando um dia lhe confessei, brincando, o meu sentimento de cansaço e o vago desejo de gozar da reforma, fez-me sentir, sem palavras, a frivolidade desse desejo...
A austeridade da sua vida pessoal e a elevada noção de dever não se deixavam comover diante da brandura das novas gerações. Qualquer expectativa de evasão esbarrava aliás na autoridade do seu exemplo. Por isso, quando, jovem estudante, eu lhe pedi autorização para realizar a segunda frequência de História da Cultura Clássica em data alternativa, a fim de participar na eliminatória final de um concurso nacional de música, uma vez vencida a prova regional, as suas palavras brotaram cortantes: que colocasse as obrigações acima das devoções! Exigente consigo própria, era-o também com os outros, sem nunca abdicar do rigor científico e da disciplina que norteavam as suas decisões. (...)
O carácter discreto e reservado escondia o mestre vivo que recriava cada aula. Era na leitura dos Gregos que o seu olhar acutilante mais brilhava, sobretudo quando tinha ocasião de os ensinar, com a sua voz segura, serena, pausada, medida. Escreveu que cada aula devia ser "um trabalho de criação e renovação constante". E sabia fazê-lo. A sua atitude sempre sóbria e austera surpreendia quem a escutava, pois, sem exaltações, não deixava de acender, ora pelas palavras, ora pelo silêncio e o olhar, verdadeiro deslumbramento pelas matérias que ensinava. (...)
Ao longo de gerações sucessivas, milhares de alunos frequentaram as suas aulas de Norte a Sul do país e reconhecem hoje o seu nome; ou simplesmente aprenderam pelos seus livros a reconhecer as traves mestras da cultura europeia, na área da filosofia e da ciência, da história e da poesia, da literatura e da oratória, do teatro, da arte e do direito. Os seus dois volumes dos Estudos de História da Cultura Clássica, Cultura Grega (1964) e Cultura Romana (1983), que ainda hoje, depois de edições sucessivas, revistas e actualizadas pela autora, não perderam vitalidade, constituem o ponto de partida para as mais diversas incursões em qualquer área do saber clássico, grego e romano.
Consciente da importância dos autores clássicos para o saber humanístico, fez dessa uma das suas causas. Defendeu em inúmeras ocasiões, em revistas, em jornais e em lugares públicos a importância do ensino da cultura e das línguas clássicas para a defesa do humanismo e o progresso ético. (...) 
Especial referência merece a [sua] tradução de uma das obras filosóficas mais influentes do pensamento humano. A tradução da República, de Platão (1972) é hoje considerada uma das maiores proezas da história da tradução em Portugal. (...)
A Doutora Maria Helena dedicou-se também à Literatura Portuguesa, desde a Idade Média até aos contemporâneos. A alta especialidade em Estudos Clássicos, que lhe permitia colaborar com as editoras de referência do mundo para os Clássicos greco-latinos, como a Teubner, e participar em projectos internacionais da mais elevada competência científica, não apagava nela o interesse por oito séculos de literatura portuguesa. Era o despertar para os chamados estudos de recepção, que desde então se afirmaram no universo académico e na crítica literária. A Doutora Maria Helena sabia ler Homero e Virgílio, Platão e Cícero, Safo, Horácio, Sófocles e Eurípedes, mas também sabia ler Pessoa e Ricardo Reis, Sophia de Mello Breyner e Manuel Alegre, Eugénio de Andrade e Miguel Torga; e essa capacidade de descobrir arquétipos e influências permitiu-lhe iluminar também páginas de Camões e António Ferreira, Camilo e Eça, mostrando não apenas os pontos de contacto, mas também o que a elaboração artística dos autores veio trazer de novo além dos modelos. 
Com o mesmo pioneirismo desenvolveu desde cedo uma investigação completa sobre vasos gregos existentes em Portugal. (...)
Por detrás do manto da disciplina e da autoridade científica da Mestra, estava também um fino sentido, muito perspicaz, da natureza humana, em toda a sua complexidade, moral, espiritual e existencial. Aprofundara-o na leitura dos autores antigos e na interpretação da mitologia greco romana. Lia com extrema sensibilidade e reconhecia nessas narrativas as dores e as alegrias, os erros e os êxitos, a pequenez e a grandeza universal do ser humano de ontem e de hoje, da Atenas do século V ou da Europa do século XXI. É assim que se vê, por exemplo, o amor de Orfeu por Eurídice, capaz de vencer a morte, mas depois incapaz de se vencer a si próprio. A Doutora Maria Helena confessava a sua preferência pelos mitos que mostram a limitação e ao mesmo tempo a persistência do ser humano, como o mito de Sísifo (Odisseia, XI) condenado a carregar um rochedo até ao cimo da montanha, o qual caía consecutivamente para voltar a rolá-lo, infatigável. Ou o mito da fome e sede de Tântalo, que parecia ter tudo ao seu alcance mas logo tudo se desvanecia, a não ser a sua fome e sede inextinguíveis. 
Do mesmo modo que encarava a vida, assim encarava a morte. Se a vida era para ela a procura permanente do saber nunca totalmente alcançado, a morte não era o fim de todas as coisas, mas o seu re-começo, como se a experiência que toda a vida fizera da finitude do saber humano alcançasse enfim a realização completa post mortem.
Uma faceta menos conhecida da pessoa da Doutora Maria Helena era a sua fé cristã, que viveu com a maior das discrições. A Doutora Rocha Pereira era uma mulher de fé. Não era secreta a leitura diária do Novo Testamento, que fazia em grego (embora tivesse feito um Curso Extraordinário de Língua Hebraica), nem a sua assiduidade aos sacramentos, à Missa e Comunhão diárias. Em Coimbra, víamo-la na Capela da Universidade, na Missa das 12h, ou nos Franciscanos da Av. Dias da Silva; no Porto, nos Jesuítas da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, perto de sua casa, onde gozava da admiração mútua do Padre João Cabral (1923-2017), seu confessor, homem de elevada formação cultural e teológica que marcou forte presença no espaço cultural do Porto e foi o primeiro diretor do CREU.
O Cristianismo da Doutora Rocha Pereira era o cristianismo consciente da transformação histórica que o helenizou e lhe deu carácter de religião universal; era um cristianismo consciente também da apropriação da noção grega fundamental de paideia enquanto atenção ao homem harmonicamente inserido na ordem cósmica; um Cristianismo que reconheceu na paideia grega e na cultura clássica o seu fermento de futuro. Todavia, talvez por reacção a escolas de estudos teológicos que presumiram a influência direta da filosofia grega sobre o Novo Testamento, ou de Séneca sobre São Paulo (como Tubingen e a escola de David Strauss), a verdade é que no seu perfil académico não havia lugar para a investigação dessa evidente continuidade, marca distintiva do primeiro cristianismo. Era aliás uma atitude comum a muitos outros classicistas, que se recusavam a olhar para além da idade clássica da Grécia por verem nela a semente bastante da evolução pós-clássica da cultura grega. E assim os Estudos Clássicos em Portugal correram o risco de deixar na sombra um campo de investigação que tradicionalmente partilhava com eles as fronteiras científicas, como a Patrologia greco-latina, os Estudos Bíblicos e a literatura judaico-cristã. (...)
Da atitude existencial da Doutora Maria Helena transparecia porém a mais evidente unidade de pensamento: se a helenização do cristianismo não gozava da primazia da sua investigação científica, a sua atitude pessoal de serena inquietude diante da vida e da morte brotava de um helenismo naturalmente cristianizado. 
Quando um dia lhe perguntaram como gostaria de ser lembrada, a Doutora Rocha Pereira expôs brevemente a sua visão da imortalidade, herdeira de Platão: nos mitos platónicos, a alma é algo de imaterial que "sobrevive e é feliz porque contempla as ideias puras, o Saber, ao qual em vida não podemos aceder" (...). Gostaria, pois, de ser lembrada por esses dois traços inseparáveis: estudo e magistério. (...)
Foi assim que nos despedimos dela, certos de que no abraço do Pai saboreou finalmente o Saber que procurava.

Margarida Miranda, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Maria Helena da Rocha Pereira, Alma mater (1925-2017), in Brotéria, volume 185, Julho de 2017, pp.140-153

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O diário

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(...)


(...)

Todo o escritor faz um pouco isso ao escrever diários, está a querer fixar junto do leitor uma imagem de si próprio. A posteridade encarrega-se de desmistificar ou não as coisas. (...) Nunca pensei, mas todo o diário é uma efabulação, uma invenção da nossa própria vida no quotidiano. Essa parte fictícia é muito importante em todo o texto autobiográfico. (...) Não há diário que seja verdadeiramente autêntico ou então eram 500 páginas por dia. Há uma parte lacunar, por pudor, por respeito por nós ou pelo leitor. Há, necessariamente, uma parte de omissão, voluntária ou involuntária. (...) Tinha cadernos onde tomava notas. Posso dizer que quando se tem um diário vive-se em função dele. Vai-se a uma exposição em função do diário, tem-se uma conversa em função do diário. Até se perdem oportunidades para fazer isto e aquilo porque se não interessa ao diário evita-se. Agora já não perco as oportunidades porque acabou o diário. 

(...)



Marcello Duarte Mathias, entrevistado por João Céu Silva, hoje, no DN (na íntegra, aqui: http://www.dn.pt/artes/interior/todas-as-vidas-sao-falhadas-mesmo-aquelas-que-aparentemente-foram-mais-conseguidas-8709940.html) 

Paul Celan


GRÃO-DE-LOBO

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.
Há sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

(Lá longe, em Michailowka, na
Ucrânia, onde
eles me mataram pai e mãe: que
floria aí, que
floresce aí? Que
flor, mãe,
com o seu nome,
mãe, a ti,
que dizias grão-de-lobo, e não
lupino?

Ontem
veio um deles e
matou-te
outra vez no
meu poema.

Mãe,
mãe, que
mão apertei eu
quando as tuas
palavras fui para
a Alemanha?

Em Aussig, dizias tu sempre, em
Aussig junto
ao Elba,
durante
a fuga.
Mãe, aí moravam
assassinos.

Mãe, eu
escrevi cartas.
Mãe, não veio resposta.
Mãe, veio uma resposta.
Mãe, eu
escrevi cartas a -
Mãe, eles escrevem poemas.
Mãe, eles não os escreveriam
se não fosse o poema que
eu escrevi, por
ti, pelo
amor
do teu
Deus.
Bendito, dizias tu, seja
o Eterno, e
louvado, três
vezes
Amen.


Mãe, eles ficam calados.
Mãe, eles consentem que
a ignomínia me difame.
Mãe, ninguém
cala a boca aos assassinos.

Mãe, eles escrevem poemas.
Oh,
mãe, quanto
chão do mais estranho dá o teu fruto!
Dá esse fruto e alimenta
os que matam!

Mãe, estou
perdido.
Mãe, estamos
perdidos.
Mãe, o meu filho, que
se parece contigo.)

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.

sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

Paul Celan, in A morte é uma flor, pp.29-35, Cotovia, edição bilíngue, tradução de João Barrento, reedição, 2017. Como Luciana Leiderfarb escrevia, sobre este poema, há duas semanas, no Expresso, na peça Poeta contra o silêncio, "aquela imensa e terrível composição (...) dirigida à mãe e percorrida pela alusão à morte dos pais num campo de concentração alemão (...) Quem disse que a recordação do horror não se deixa escrever? A questão, a verdadeira grande questão, é saber e, mesmo assim, dormir". 

Nina Simone - I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free (Montreux 1976)




Gostava de saber como
Seria ser livre
Gostava de conseguir quebrar
Todas as correntes que me prendem
Gostava de poder dizer
Todas as coisas que deveria dizer
Dizê-las em voz alta, dizê-las com clareza
Para que todo o mundo as ouvisse.

Gostava que tu pudesses saber
O que significa ser eu

[canção escrita, originalmente, em 1963, numa época em que os negros norte-americanos ainda lutavam por direitos iguais, mas ainda a passar nos gira discos neste Agosto de 2017, nos EUA de Trump]

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Que coisa é essa, a montanha? (II)


4. Um outro traço que passa pelo âmago de As oito montanhas é a reflexão acerca da identidade pessoal, no que esta tem, ao longo de uma inteira vida, de continuidade e rutura, do mesmo e do diferente, do ser e não ser, do misterioso e do revelado. Pietro fala, assim, do companheiro de peregrinações pela montanha, do amigo montanhês da seguinte forma: "Bruno veio ver-me de manhã cedo. Era um homem que eu já não conhecia mas que algures encerrava um rapazinho que eu conhecia bem" (p.104).  Com o passar dos anos, seja na introspecção, seja no olhar sobre os demais, Pietro descobre outros nos mesmos: "Não sabia se devia acreditar porque entretanto eu mudara. Pode mesmo parecer-te completamente diferente, como adulto, um lugar que amavas em rapazinho, e revelar-se uma desilusão; ou então pode recordar-te aquilo que já não és e causar-te uma profunda tristeza" (p.100). Sobre o pai: "em parte era o homem que conhecia, e em parte era outro, o que descobria nas cartas da minha mãe. O outro provocava-me curiosidade" (p.97); "e sabia de uma vez por todas ter tido dois pais: o primeiro era o estranho com quem vivera durante vinte anos, na cidade, e cortara relações durante outros dez; o segundo era o pai de montanha, aquele que apenas entrevira e no entanto conhecera melhor, o homem que caminhava atrás de mim pelos carreiros, o amante dos glaciares" (p.136).

5.O binómio, a antinomia mesmo, cidade-campo surge, amiudadamente, ao longo da narrativa. Quase sempre, num desenho que releva da crítica à cidade e do elogio à montanha. Todavia, esta tese, que poderá passar por uma espécie de exposição de um posicionamento mais mainstream sobre o tópico - em todo o caso, se assim é, se a montanha é sonho e a cidade pesadelo, porque as migrações para as cidades, onde vivem já mais de metade dos habitantes da Terra, são cada vez mais maciças? A explicação económica, monocausal, chega? Um paraíso perdido, a nostalgia do absoluto? A impossibilidade de viver no paraíso, mesmo que com má consciência do seu abandono? -, como se vem de observar, é completada pelos perigos que a montanha encerra (o tio de Pietro que morre na avalanche), a brutalidade do mundo rural (personificado no pai de Bruno e na sua violência sobre o pai de Pietro), ou mesmo a debacle de um projeto idílico, mas pouco sustentado como o casamento de Bruno e Lara - que não resiste à falência material, a montanha como lugar imaginário e utópico, para além de físico, na cabeça de Bruno, que rejeita o demais para se aferrar a ele. 
Mas a elaboração da dita antítese é, com efeito, realizada desde as páginas iniciais do romance: "depois, em alguns raros dias de vento, no outono ou na primavera, ao fundo das avenidas de Milão surgiam as montanhas (...) Eram os cumes brancos, o céu insolitamente azul, uma sensação de milagre. Cá em baixo, à nossa volta, ficavam as fábricas amontoadas, as casas dos pobres superlotadas, os confrontos de rua, as crianças maltratadas, as raparigas já mães: lá em cima, a neve" (p.16); "sentia-o alegre e loquaz, completamente o oposto do pai da cidade a que estava habituado. Ficava contente por me mostrar o mapa e me ensinar como se lia" (p.18)
O paralelismo cidade/campo [montanha, mais concretamente] passa, igualmente, pela comparação que o narrador - Pietro fala na primeira pessoa ao longo de toda a viagem que a obra encerra - produz entre ele mesmo, Pietro, e Bruno, de resto, uma medição que, dir-se-ia, invariavelmente favorável a este últimoPor exemplo, o tópico idealismo vs realismo, ou abstracto vs concreto, ou ainda saber livresco vs saber empírico: "O bosque estava cheio destas escavações, montes, destroços, que Bruno traduzia para mim como os sinais de uma língua morta. E juntamente com aqueles sinais ensinava-me um dialecto que achava mais correcto do que o italiano, como se à língua abstracta dos livros, na montanha, eu devesse substituir a língua concreta das coisas, que tocávamos agora com a mão" (p.62); "E dizia: são vocês, da cidade, que lhe chamam natureza. É tão abstracta na vossa cabeça que até o nome é abstracto. Nós aqui dizemos bosquepastoriorocha, coisas que se podem apontar com o dedo. Coisas que se podem usar. Se não se podem usar, nem lhes damos nome porque não serve para nada" (p.158). Mas, igualmente, o separador sofisticado vs puroartificial/manhoso vs verdadeirocobarde vs corajoso: "sabia que era perigoso e sabia também que estava a trair a confiança da minha mãe, porque não havia nada de sensato em metermo-nos naquelas armadilhas e, quando o fazia, um sentimento de culpa estragava-me todo o prazer. Teria gostado de ser como o Bruno e ter a coragem de me rebelar abertamente, aceitando o castigo de cabeça levantada. Eu, pelo contrário, desobedecia às escondidas, disfarçava e envergonhava-me" (p.63). Frágil/débil vs forte ("embora ele fosse muito mais carregado do que eu, era eu que tinha de parar todos os quartos de hora para recuperar o fôlego. Poisava a mochila e sentava-me no chão - tudo erros que o meu pai outrora me ensinara a não cometer - e ficávamos ali em silêncio, evitando olhar um para o outro enquanto o meu coração acalmava", p.112). Inexperiência/experiência das lides da vida, amadorismo/profissionalismo: "eu estava a improvisar, ele não. Tinha programado cada fase, o meu trabalho e o seu, os tempos e as deslocações. Explicou-me onde preparar as coisas e o que deveria trazer-lhe no dia seguinte" (p.118). Bruno perde, de qualquer forma, na preparação académica, intelectual, no conhecimento das normas da civilização, na ausência de uma disciplina que lhe permita singrar na cidade: "víamos então ocorrer uma transformação no Bruno. Indisciplinado por natureza, adaptava-se às regras e aos rituais da nossa família (...) Assim, Bruno fez o sexto, o sétimo e o oitavo, passando no exame com a classificação de discreto [entre Bom e Suficiente]" (p.65). 
Na ambiguidade que cada característica (que possuímos) pode conter, a pureza de Bruno transmuta-se ou pode ser lida, a certa altura da sua vida, como uma perigosa ingenuidade, puerilidade, tacanhez, provincianismo, falta de mundo, ausência de preparação fundamental para enfrentar os desafios: "agora [Lara] estava a falar de Bruno. Quando entrámos no tema foi dura com ele. Dois ou três anos antes, disse-me, quando era evidente que a empresa não se aguentava, ainda poderiam ter encontrado soluções. Vender as vacas, alugar os alpes, procurarem ambos trabalho na aldeia. Bruno teria arranjado logo, num estaleiro ou numa queijaria e até nas pistas de esqui. Lara podia ser empregada de balcão ou criada. Estava pronta para essa opção, pronta a fazer uma vida normal até que a situação melhorasse. Bruno, pelo contrário, não tinha querido saber de nada" (p.211).
Como o bom amigo para com o amigo, o que, reitere-se, mais se pode notar é a admiração de Pietro para com Bruno, sendo a montanha, como pano de fundo de uma palavra de honra ancestral, de um homem à antiga:
"- O que não compreendi foi como estão as coisas entre vocês.
- Ah - disse. - Não estão. Há cerca de dois meses que não nos vemos.
- Discutiram?
- Não. Não há nada entre nós, fico contente se ficar contigo.
Tens a certeza?
Tenho. Não há nenhum problema.
Então está bem.
Despediu-se e desejou-me boa viagemAí está um homem de outros tempos, pensei; quem mais teria pedido autorização para fazer o que era preciso fazer? Quando desliguei já sabia tudo o que iria acontecer a seguir. Estava contente por ele. E também estava contente por ela" (p.162). Bruno era o rapaz como modos de adulto, não mimado, iniciado ao álcool e à taberna bem cedo.

6.O período da adolescência, o forjar da personalidade do adulto que sai do casulo tem, igualmente, neste livro um vivo testemunho. Pietro, temeroso, silencioso, dócil, cobarde decide-se por fim a desgostar a progenitura, que é o que acontece quando se escolhe, quando se experimenta a decisão livre. O dizer não, mesmo que acarretando a incompreensão, ou mágoa, paterna. O fazer-se à estrada de um caminho próprio. Não sem dor, mas ainda a tempo de se (re)descobrir, nos passos repetidos, inadvertidos, como que tatuados sem hipótese de remoção, que se dão/que dá emulando o progenitor. A descrição do (estádio) adolescente, desde logo, soa comum: "Nas suas [memórias], eu [adolescente] estava sempre calado. [A mãe] Lembrava-se de mim absorto no meu mundo, onde era impossível penetrar e do qual lhe dava raras referências. Estava contente por agora ter ocasião de recuperar" (p.121) 
E a descrição de uma vontade própria, de um choque, de um capricho talvez, de uma mágoa; de uma existência, porventura e em síntese, finalmente: "Para o meu pai, se eu estivesse calado significava que podia falar ele. Descontraiu a testa e disse: - Vamos tirar talvez algumas coisas. Ajudas-me, está bem?
Não - respondi. -Não está nada bem.
- O que é que não está nada bem, a tenda?
- A tenda, o lago, tudo.
Não me apetece. Não vou.
Não lhe podia ter dado um choque piorRecusar-me a segui-lo para a montanha: era inevitável que acontecesse mais tarde ou mais cedo, já devia esperar. Mas de vez em quando penso que ele, não tendo tido um pai, não experimentara certas coisas, de forma que não estava preparado para as suportar. Ficou muito magoado. Teria podido fazer-me outras perguntas, talvez, e teria sido a boa ocasião para ouvir aquilo que eu tinha para dizer, mas era visível que não era capaz, ou não lhe parecia necessário, ou naquele momento sentia-se demasiado ofendido para pensar nisso. Deixou as mochilas, a tenda e os sacos-cama e desandou sozinhoPara mim, foi uma libertação" (p.79). O filho pródigo que ousa arriscar e sair, mais tarde, reconhecer-se-à filho, (re) descobrirá o pai (entretanto falecido), reconhecerá em si traços genéticos e psicológicos do pai. As memórias com este permitem-nos traçar também, com claros contornos, um arquétipo de pai: "quando perguntei ao meu pai, ele respondeu-me na sua forma enigmática: parecia sempre que não me podia dar a solução mas apenas alguns indícios, e que eu é que devia forçosamente alcançar sozinho a verdade" (p.42). Apesar do corte de relações, o pai continua a interessar-se e a preocupar-se, deveras, com o filho (p.97). Sabe as notícias pela sua intermediária favorita, a mulher - lugar de apaziguamento -, nunca dá o braço a torcer, o orgulho. No pai, a ansiedade, que era feitio, tornou-se doença (de resto, a doença de uma época).

7. Sobra, ademais, um retrato geracional, oferecido por Pietro: "os meus trinta e um anos pouco se assemelhavam aos seus [aos do pai]: eu não me tinha casado, não tinha entrado na fábrica, não tinha feito um filho, e a minha vida parecia-me metade de homem e metade de rapaz. Vivia sozinho num estúdio e tratava-se de um luxo que me era difícil manter. Teria gostado de ganhar a vida como documentarista, mas para pagar a renda aceitava trabalhos de todo o género. Também tinha emigrado mas herdara dos meus pais a ideia de que, numa certa altura da juventude, devemos dizer adeus ao lugar onde nascemos e crescemos e irmos tonar-nos grandes noutro lugar; assim, aos vinte e três anos, fora desmobilizado e partira para ir ter com uma rapariga a Turim. A história com ela não durara, mas com a cidade sim (...) Nessa época lia Hemingway, vagabundeava sem um tostão no bolso e procurava manter-me aberto aos encontros, às ofertas de trabalho e às possibilidades, com a montanha a servir de fundo à minha festa de mobilidade (...) O melhor para ele e para mim foi eu ter seguido o meu caminho, inventado uma vida diferente da sua noutro lugar; assim, uma vez distantes, nenhum dos dois fez mais nada para anular a distância" (pp.95-96)

8. A montanha pode ser um lugar político (p.158), representando uma fuga mundi que é crítica à cidade (p.119). Entre dois amigos, entre dois homens, há imensos não ditos (esses não ditos surgem entre Pietro e o pai, e entre Pietro e Bruno; maxime, p.91). Os nossos amigos tornam-se próximos dos nossos pais, ou os nossos pais dos nossos amigos (a relação de proximidade, mesmo após o abandono de Pietro, entre o pai deste e Bruno, em Grana). Há um certo agnosticismo do narrador, revelado no Nepal, para cujas montanhas migra também:
"- O que está escrito no pano? - perguntou.
- São orações que pedem sorte - disse. - Prosperidade. Paz. Harmonia.
E tu acreditas nisso?
- Em quê, na sorte?
- Não, nas orações.
- Não sei. Mas põem-me de bom humor. Já é muito, não?
- Sim, tens razão" (p.193).

9. A montanha tem uma aura indiscutível, mas sobre ela desemboca, igualmente, uma retórica prolixa: "encontrava nelas algo de falso e sentimental, uma retórica da montanha que não correspondia à realidade. Se lá em cima era um paraíso, porque não ficávamos a viver ali? Porque levávamos connosco um amigo que ali nascera e crescera? E se a cidade nos fazia sentir mal, porque o obrigávamos a ir viver connosco?" (p.72). Só a amizade supera todo o palavreado, e a perda não tem remédio.

Que coisa é essa, a montanha?


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Encontrariam Bruno com o degelo. Apareceria em qualquer desfiladeiro em pleno Verão e seriam os corvos os primeiros a descobri-lo. 
- Achas que era isso que ele queria? - perguntou-me Lara ao telefone.
- Não, não creio - menti.
- Tu conseguias compreendê-lo, não verdade? Vocês dois entendiam-se!
- Acho que sim.
- É que algumas vezes parece-me que nem sequer o conheci.
E então, perguntou-me, quem o tinha conhecido na terra além de mim? E quem me tinha conhecido a mim para além do Bruno? Se era segredo para qualquer outra pessoa aquilo que nós tínhamos partilhado, o que restava agora que um dos dois já não existia?

Paolo Cognetti, As oito montanhas, D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.221-222

1.Há uma impenetrabilidade na montanha ("um limite invisível, um muro erigido apenas para ele, que lhe impedia o acesso ao resto do mundo", p.208) que jaz, apenas, às mãos singulares da amizade ("há muito tempo que não experimentava a liberdade e a alegria da exploração. Apeteceu-me deixar o carreiro, subir um declive e atingir um cume apenas pela curiosidade de descobrir o que lá havia e encontrar-me, sem ter previsto, numa aldeia que me agradava, passando uma tarde inteira nos charcos de um rio. Aquela era a forma de andar na montanha, para mim e para o Bruno. Pensei que, nos anos seguintes, seria a minha maneira de conservar o nosso segredo", p.222). A montanha é, neste caso, tanto um lugar claramente tangível (os vales, os alpes, os caminhos íngremes, as neves, o pastoreio, as vacas, o leite, as queijarias, as padarias, o isolamento), como um lugar mítico (a montanha como que o lugar da utopia, uma certa ideologia da montanha ("e Lara [a mulher de Bruno], a certa altura, compreendera que quer ela, quer Anita [a filha], quer aquilo em que tinha acreditado construir com ele lá em cima eram muito menos importantes para o Bruno do que a sua montanha, significasse isso o que significasse realmente", p.211). Pietro, citadino, de Milão fora com o pai, nas férias, para Grana, na montanha, e acabaria por estabelecer uma relação de amizade com o montanhês Bruno, o último resistente da espécime, em aldeias abandonadas e em uma pastorícia que já ninguém, daquela idade, praticava. A desertificação do mundo rural cantada, também, em italiano (um único rapaz, numa aldeia de 14 pessoas, em 1984). A amizade percorreria trinta anos (p.220), ao longo dos quais descobrimos metamorfoses e perenidades.

2. A mãe de Pietro (ou Beria, como lhe virá a chamar Bruno) é uma antiga enfermeira, depois assistente sanitária, com fortes preocupações sociais e talento para a amizade, um espírito liberal apaziguador em casa, reformista na rua. O pai, nascido em 1942 (p.130), gostava de estudar e estava sempre disposto ao trabalho em uma busca gregária e de uma família adoptiva (p.131), e que morreria aos 62 anos quando Pietro tem 31 (p.95), é engenheiro químico ("mais do que pelos seres humanos era atraído pela matéria do mundo e descobrir como era feito (...) era dessa forma que me recordava dele, fascinado por cada grão de areia e cristal de gelo e completamente indiferente às pessoas", p.132), órfão de guerra - uma situação que, então, ninguém estranhava, nem impressionava quem quer que fosse: "era um caso bastante frequente no pós-guerra, assim como era frequente receber em casa o filho de qualquer outra pessoa, talvez um parente morto ou emigrado sabe-se lá para onde" (p.131) -, foi militar em 1967 (p.132). 
A narrativa principia em 1972. Milão está acotovelado de um barulho ensurdecedor, há trânsito, e uma irascibilidade sem diques: "certas noites, o meu pai não aguentava mais, levantava-se da cama, escancarava a janela como se quisesse insultar a cidade, intimá-la ao silêncio, ou despejar-lhe em cima alcatrão a ferver; ficava ali um minuto a olhar para baixo, depois vestia o casaco e saía para andar a pé" (p.13). De resto, "durante o jantar via o telejornal em silêncio, ficando com os talheres no ar, como se esperasse, de um momento para o outro, o deflagrar de outra guerra mundial, e praguejava para si ao anúncio de cada morto assassinado, cada crise de governo, cada aumento dos preços do petróleo, cada bomba de origem desconhecida. Com os poucos colegas que convidava lá para casa quase só discutia política e acabava sempre por brigar. Era anticomunista com os comunistas, radical com os católicos, livre-pensador com quem pretendesse enquadrá-lo numa igreja, numa sigla de partido; mas aqueles não eram tempos para escapar às arregimentações e passado pouco tempo os colegas do meu pai deixaram de ir lá a casa. Ele, pelo contrário, continuou a ir para a fábrica todas as manhãs como se tivesse de se meter numa trincheira. E a não dormir à noite, a apertar as coisas com demasiada força, a usar tampões para os ouvidos e comprimidos para as dores de cabeça, a explodir em violentos ataques de cólera: entrava então em acção a minha mãe que, entre os deveres de casal, assumira também o de o amansar, amortecer os choques entre o meu pai e o mundo" (p.14). A montanha era um refúgio. Sobretudo, se se traz um segredo, uma angústia colada ao peito, uma acusação, uma morte, um suceder que nunca se ultrapassa: o pai de Pietro era o melhor amigo do irmão (tio de Pietro, portanto) da sua futura esposa e numa ida para a montanha - no que podemos ver desenhado um jogo ambíguo sobre o significado desta, entra a pureza, o lugar óptimo, mas também o "fascinante e tremendo" (a formulação deliberadamente em tom religioso, com que Cognetti pega em Otto, para falar da montanha), com o seu legado mais implacável - este seu amigo, numa garganta de Sassolungo, perde a vida, com uma avalanche de neve (p.135). A raiva do seu futuro sogro seria irreparável (p.135). A mãe de Pietro, que observa ao de longe a tragédia, considera injusta a culpabilização do futuro marido. Aproxima-se deste e, após um ano de namoro, casam. Casam na montanha, sozinhos, dado que a família dela rejeitara os convites. A montanha é, assim e aqui, o lugar de todas as estações.
Da pena de Cognetti, o olhar íntimo sobre a vida familiar, com suas subtilezas, não ditos, sinais, gestos, jogos de código: "nos últimos tempos tinha-me metido num canto de onde observava a nossa vida familiar com um olhar impiedoso. Os hábitos imutáveis dos meus pais, as inócuas fúrias do meu pai e os truques com que a minha mãe as tratava, as pequenas prepotências e os subterfúgios a que nunca se lembravam de recorrer. Ele emotivo, autoritário, impaciente; ela forte, serena e conservadora. A forma tranquila de fazer sempre a mesma parte sabendo que o outro fará a sua; as discussões deles não eram verdadeiras discussões mas sim troca de palavras das quais previa sempre o final, e eu acabava também por estar fechado naquela gaiola. Sentira urgência em fugir dali" (p.78).

3. Apercebendo-se, desde cedo, da realidade, do abandono que aquele rapaz, Bruno, que o filho acabara de conhecer, da sua fraca escolarização, do seu parco futuro visto (ainda assim) de Milão, a mãe de Pietro, na sua mansidão e liberalidade, na sua certeza e na sua firmeza, avança para a sua "adopção", quer dizer, dispõe-se e tudo resolve nesse sentido, a levar o rapaz para Milão, a alimentá-lo, a fazê-lo estudar. Numa palavra, a civilizá-lo. Há, aqui, uma mestria indiscutível na apresentação de um ponto de vista a que se poderia chamar de "paternalismo arrogante", uma ideia/convicção inquestionada de quem sabe o que é melhor para aquele rapaz e a certeza de que esse melhor é na cidade, na uniformização de uma dada civilização. Quer dizer, a ida à montanha é muito bonita, mas não é vida para ninguém; para se ser alguém há que sair da montanha, estudar, civilizar-se. Afinal, há gosto pela montanha? A montanha é compreendida? É possível dizer-se que a montanha foi percebida, quando os óculos que a vêem são, manifestamente, citadinos? Não há espaço para configurar a existência fora do padrão "habitual"? Pietro ("Beria") questiona-se: "que mal achavam em deixá-lo levar a pastar as vacas o resto da vida?" (p.70). Pietro surge, aqui, aparentemente, como aquele que consegue, em última instância, sintonizar-se, verdadeiramente, com o espírito da montanha ("eu, que sabia como era [Milão], não precisava de imaginar nada para me revoltar contra a ideia. O Bruno iria odiar Milão e Milão iria estragar o Bruno, como quando a tia o lavava e vestia e o mandava para nossa casa a fim de aprender os verbos" (p.70)), se bem que outros pudessem pressentir, em tais alegações, aquela vontade de manter intacto o espécime derradeiro de um mundo outro, à laia de uma curiosidade antropológica (e, todavia, a amizade de Beria com Bruno desmente essa hipótese). O certo, também, é que nesta altura Bruno está disposto - e quer mesmo - seguir viagem para Milão - e, seja como for, sempre agradecerá à mãe de Pietro os esforços que por ele fez (para o ensinar, para o ajudar a ter "sucesso" na vida; sendo que aqui a pergunta, evidentemente, é: o que é ter sucesso na vida?).
Em algumas das páginas mais impressivas de toda a narrativa, a montanha, personificada no familiar de Bruno, como que se manifesta com toda a sua violência e brutalidade, repelindo os "bons sentimentos" de quem lhe queria indicar/ditar o caminho. O pai - "um citadino instruído, seguro de si, habituado a dizer aos outros o que havia a fazer, que apenas tinha queimado as barrigas das pernas no gelo e procurava raciocinar com um alpinista bêbado", p.75 - é agarrado pelos colarinhos. Depois, o homem que veio à casa de montanha dos pais de Pietro "sem pré-aviso, baixou a mão direita, fechou o punho e bateu no meu pai à altura da têmpora. Era a primeira vez na vida que via um soco verdadeiro. O ruído dos nós dos dedos na maçã do rosto chegou até dentro da casa de banho, seco como se fosse em madeira. O meu pai deu dois passos atrás, cambaleou, conseguiu não cair no chão. Mas logo a seguir foram os braços que tombaram ao longo do corpo e os ombros que se curvavam um pouco. Eram as costas de um homem muito triste. O outro disse-lhe ainda uma coisa antes de se ir embora, uma ameaça ou uma promessa, e não me surpreendeu depois vê-lo dirigir-se para a casa dos Guglielmina. Durante aquele breve recontro compreendera quem era.
Voltara para reclamar o que era seu. Não sabia que se encontrara com a pessoa errada. Mas no fundo isso não mudava nada: aquele soco foi dado na cara do meu pai para que ficasse bem claro na cabeça da minha mãe. Foi a irrupção da realidade no seu idealismo e talvez também também na sua arrogância. No dia seguinte, Bruno e o pai desapareceram de circulação; o olho esquerdo do meu pai ficou inchado e roxo. Mas não creio que aquilo que o magoasse mais quando, à noite, entrou no carro e partiu para Milão" (pp.73-74).
Nem um angelical mundo rural, apenas pacífico, submisso e esperando ser salvo pela cidade - violento, bárbaro, intransponível, de personalidade vincada, afinal também; nem um espírito liberal, de bons sentimentos, de quem sabe o melhor para o mundo, citadino e instruído: o constructo de Cognetti obriga a uma outra demora, convida a algum cepticismo, a questionar convicções absolutizadas.

(cont.)