sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A exortação de Timothy Snyder para este tempo



1. Não obedeças por antecipação -  se mostras predisposição para te adaptar a ordens e a um arbítrio que ainda só se murmura, o poder acabará por cavalgar sobre essa aceitação/resignação/obediência. Resiste ao mal. Exemplo desta obediência por antecipação: a atitude dos austríacos face aos nazis, mostrando que estavam "prontos", "maduros" para serem anexados e obedecerem cegamente.

2. Defende as instituições - estas podem ser/são a grande arma de defesa que o cidadão tem ao seu dispôr. Mas não confiemos demasiado: elas só se mantêm se estivermos vigilantes e se cada um, como cidadão e profissional, não se demitir. Jornais judeus, na Alemanha, afirmaram perentoriamente que apesar de todos os dislates, abusos, promessas terríveis, nunca Hitler as concretizaria, dadas as instituições vigentes. Viu-se.

3. Cuidado com o Estado unipartidário - apoia o sistema multipartidário. Não faltou quem chegasse ao poder e reconfigurasse a diversidade no uno, sem direito a qualquer adversativa. "Vota nas eleições locais e estatais, enquanto ainda é possível fazê-lo. Pondera uma candidatura a um cargo público" (p.23).

4. Responsabiliza-te pela face do mundo - aconteceu, a meio do século XX, amigos, de um dia para o outro, e como se fosse normal, deixarem de falar com amigos, porque estes foram assinalados com uma estrela. Nunca vires os olhos a um teu amigo. Tem atenção a todos os símbolos. Eles podem danificar, excluir, destruir, cercear o espaço público, capturar a democracia.

5. Lembra-te da ética profissional - a deontologia pode salvar. Se nos recordarmos e praticarmos os juramentos, se os levarmos, a eles e à vida, a sério: "se os advogados tivessem seguido a norma de não se permitir nenhuma execução sem prévio julgamento, se os médicos tivessem respeitado a regra de não se proceder de nenhuma cirurgia sem consentimento prévio, se os empresários tivessem defendido a proibição da escravatura, se os burocratas se tivessem recusado a despachar trabalho administrativo que envolvesse homicídio, o regime nazi teria encontrado muito mais obstáculos ao procurar levar a cabo as atrocidade pelas quais o lembramos" (pp.32-33)

6. Fica alerta com os paramilitares - grupos de capangas, de seguranças privados, rufias foram intimidando, com inusitada violência, adversários políticos dos nazis, assim contribuindo, fortemente também, para estes acederem ao poder (coagindo muitos dos demais cidadãos, ainda que chegando ao poder, em grande medida, ainda, de forma democrática). Neste ponto, portanto, Snyder olha para o papel das SS e das SA, mas fala ainda dos grupos que nos comícios de Trump foram calando - e despachando dos pavilhões - vozes dissonantes (perante o gáudio, em jeito de reallity show do próprio personagem central do comício). Muitos verão aqui exagero, ou mesmo ilegitimidade, na analogia; mas o discurso tem por objectivo ligar todos os alertas. Os sinais da atualidade são preocupantes deveras - eis a mensagem.

7. Sê prudente se tiveres de andar armado -  olha para quantos milhares mataram polícias ao serviço dos diferentes totalitarismos. Está pronto para te recusares; sê capaz de dizer não. Nenhuma burocracia te isenta da responsabilidade individual dos teus actos.

8. Opõe-te - é preciso correr o risco de ir contra o espírito do tempo, quando neste a húbris atravessa os espíritos. O fascismo e o comunismo foram produtos da reacção à globalização, oferecendo como soluções miríficas o "tudo pela nação" (contra a qual estaria em curso uma "conspiração": "um legado intelectual intacto cuja relevância vai crescendo a cada dia que passa") e "o monopólio da razão que faria a sociedade avançar na direcção de uma certa ideia de futuro fundamentada por supostas leis imutáveis da história" (numa sociedade, numa história que desaguaria, "inevitavelmente", no "comunismo"). Hoje, cumpre, de novo, não embarcar nos cantos de sereia que conduzem a lado algum - ou, mais rigorosamente, a um inferno terrestre.

9. Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, Geroge Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

10- Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada.

(cont.)

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