domingo, 13 de agosto de 2017

Balanços e outros devaneios


Olho para eles, a caminho dos 18, recordo todas as emoções da idade, não voltes onde foste feliz e não voltei (feliz, aqui, talvez num assomo romântico, é sentir tudo, não necessariamente a felicidade, sempre fugaz como o seu inverso, quer dizer, dificilmente se tenha estado tão vivo como por esses dias) sintonizo-me com as deles (procurando completar a regra de ouro, que é tentar fazer o que cada um gostava, na sua singularidade/peculiaridade/idiossincrasia, que se lhe fizesse), sabendo que são tempos interessantes porque nada se joga mais a feijões (ou assim se pensa então, cada resultado é tão decisivo...nunca se sabe, depende...como dizia um professor anos depois) e num amor fraterno, sentido, tão próximo registo as que, vistas daqui pelo menos, são as duas marcas de vida que nos colocam em estádios diferentes: a) eles (ainda) são imortais (e têm direito, por mais uns dez anos, à imortalidade); b) eles ainda "não foram derrotados pela vida" ["porque as crianças são minhas criaturas/mais do que os homens/porque ainda não foram derrotadas pela vida", Charles Peguy], ainda não têm mortos, zangas, fracassos, feridas. 
Cumpre transmitir-lhes (e este conselho, se a si não servir, a mim me servirá, porque bem preciso dele e a mim ninguém mo dá, dizia Agostinho da Silva, nas Sete cartas a um jovem filósofo) uma sabedoria que procure, como se assinalou noutro sublinhado, aproximá-los do carácter maêutico que a brevidade pode ter (o que quero fazer da minha vida, sendo que a viagem tem um prazo de validade e não demasiado extenso); capacitá-los para identificarem o erro do "paradigma do ilimitado" (não vão fazer tudo, em todo o lado, a todo o tempo, mas nessa certeza podem descobrir caminho); assumir como essencial a lição espiritual da necessidade de adimplemento, portanto, de abrir a mão, em estado de graça por perceber que tudo é dom, e me reconhecer imperfeito (o elogio da imperfeição); em assim sendo, poder mais facilmente arriscar, porque o espelho do mundo (o vencedores/vencidos tão redutor, tão pequenino) não é tudo, e, fundamentalmente, há um último reduto impenetrável que durante séculos ("cultivar a alma") foi tido por o essencial, esse núcleo que nem em Auschwitz conseguiram roubar a Etty.

Eleitos, os puros manter-se-ão assim o resto da vida, naquele sorriso e naquela fé que é apesar de (após os trinta; nesta idade, para além de uma disposição, como dizer, biológica, genética, pelo menos como metáfora é elogio, passa a convicção e é aposta, a aposta, saibam-no ou não, creio, na "queda infinita" que é, mesmo apesar de algumas derrotas, sentir-se a um colo), nunca aceitando a contaminação por uma manipulação, muito menos talentosos os manipuladores - diga-se, que olham com desdém e desprezo, que os avilta, da qual se afastam, ou para os que, acriticamente, aceitaram a competição como único lugar do mundo.

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