quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Glosa do "choque de civilizações"

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A ideia, popularizada pela obra de Samuel Huntington, de que se pode identificar simplesmente a posição «islâmica» ou a posição «cristã» numa questão como a liberdade de expressão é uma perigosa insensatez. Por analogia com o marxismo vulgar, chamo a essa abordagem huntingtonismo vulgar.
Nunca houve uma época em que algumas culturas chinesas, hindus, islâmicas ou cristãs absolutamente puras existissem nuns blocos bem delineados a cores primárias, como numa pintura de Piet Mondrian. «A pureza cultural», escreve Kwame Anthony Appiah, «é um oxímoro». As culturas cresceram desde sempre através da mistura, e a criatividade prospera com a irritação da diferença, com a surpresa do novo.
Em particular ao longo dos últimos quinhentos anos, todas, excepto as culturas mais isoladas - porventura uma tribo nas profundezas da floresta tropical amazónica -, foram fortemente influenciadas por um Ocidente simultaneamente colonizador e modernizador. 

Timothy Garton Ash, Liberdade de expressão. Dez princípios para um mundo interligado, Temas e Debates, 2017, p.119

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