sexta-feira, 11 de agosto de 2017

INEVITABILIDADE


A política da inevitabilidade é uma espécie de coma intelectual autoinduzido. Enquanto existiu uma disputa entre os sistemas de governo comunista e capitalista, e enquanto a memória do fascismo e do nazismo perdurou, os americanos tiveram de prestar alguma atenção aos acontecimentos históricos e ao mesmo tempo reter as noções que lhes permitiram imaginar alternativas para o futuro. Contudo, assim que passámos a consentir a política da inevitabilidade, supusemos que a história deixara de ter alguma relevância. Se tudo no passado é governado por uma tendência reconhecível, torna-se desnecessário saber os pormenores. 
A aceitação da inevitabilidade passou a servir como uma espécie de muleta do nosso discurso político no século XXI. Serviu para asfixiar o debate político e gerou uma tendência para criar sistemas partidários em que um partido político defendia o statu quo, enquanto o outro se lhe opunha em total negação. Aprendemos a dizer que "não existe alternativa" à ordem elementar das coisas, revelando-se assim uma sensibilidade que o teórico político lituano Leonidas Donksis designou como "o mal em estado líquido". Assim que a inevitabilidade passou a ser tomada como garantida, o discurso crítico tornou-se traiçoeiro. O que parecia ser uma análise crítica não raras vezes partia do pressuposto de que o statuo quo não pode realmente mudar, e desse modo acabava indiretamente por consolidá-lo

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, Relógio D'Água, 2017, pp.100-101

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