quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Leanor



Relendo o camoniano poema e descobrindo nele novas significações:


Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
vai fermosa e não segura

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
saínho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d'ouro o trançado,
fita de cor d'encarnado,
tão linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa e não segura.


Aqui, com a tradução e os acrescentos significativos trazidos pelas observações contidas na obra do Professor Hélder MacedoCamões e outros contemporâneos, Presença, 2017, (pp.86 e ss.)

Descalça (com os pés expostos) vai para a fonte (lugar de encontro e metáfora da sexualidade feminina)

Leanor (nome etimologicamente relacionado com a «luz» ou «torcha e, portanto, «a luminosa») pela verdura (com os pés em contacto com a «verdura» associada à fertilidade e à Primavera, estação dos amores)

vai fermosa (e, portanto, desejável) e não segura (por duvidar ainda do sucesso da sua ida ou, plausivelmente, porque indo descalça o seu andar é inseguro e o pote pode cair?)

A expressão «não segura» foi comentada pelo Professor Sebastião Tavares de Pinho numa reveladora análise intitulada «Vai fermosa e "não segura": um latinismo litotético em Camões» [2007]. Como demonstra com vários exemplos, «segura» pode significar «sem cura», ou seja, «sem cuidado», e «cuidado» como equivalente à «coita» dos amorosos que é um tópico recorrente na poesia medieval-portuguesa. A liotes «não segura» não significaria portanto insegurança ou incerteza, mas o desassossego causado pelo amor. E Sebastião Tavares de Pinho conclui: «Leanor vai a caminho da fonte, o locus amoenus do encontro dos enamorados, cheia de alegria e beleza e profundamente movida pela coita de amor». Creio que esta bem fundamentada interpretação erudita acrescenta uma importante dimensão que, no entanto, não exclui, mas complementa, as outras significações mais correntes de «segura».
(...)
A significação totalizante do vocabulário do poema corresponde ao tópico camoniano da reconciliação do espírito com a carne - ou, mais radicalmente - da consagração do espírito na carne, recorrente em vários sonetos e canções.

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