sábado, 12 de agosto de 2017

Manifesto, cepticismo, prudência

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11. Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se lêste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo À leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

12. Faz contacto visual e conversa de circunstância - nos regimes repressivos, no séc.XX, o comportamento de um vizinho - afectuoso ou indiferente - fez a diferença no cimento que permitiu alargar a força da comunidade, ou enfraquecer os laços perante o regime, e, portanto, constituíram-se como passos para mudar, ou reforçar, respectivamente, o status quo

13. Pratica uma política corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá. Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua companhia" (p.67)

14. Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece" (p.69)

15.Contribui para boas causas - "toma parte ativa em organizações, sejam elas de cariz político ou não, que expressem a tua perspectiva da vida. Escolhe uma ou duas instituições de caridade e decide-te pelo pagamento automático de donativos. Assim, terás feito uma escolha livre que favorece a sociedade civil e ajuda os outros a promover o bem comum (...) No século XX, todos os inimigos de peso da liberdade revelaram-se hostis para com as organizações não governamentais, instituições de caridade e afins. Os comunistas exigiam o registo oficial de todas estas organizações e transformavam-nas em organismos de controlo político. Os fascistas criaram o que vieram depois a designar sistema 'corporativista', no qual todas as atividades humanas eram enquadradas de acordo com um desígnio particular, sujeitas ao jugo do Estado unipartidário. Os regimes autoritários da atualidade (Índia, Turquia, Rússia) são, do mesmo modo, profundamente alérgicos à ideia de associações livres e de organizações não governamentais" (pp.75 e 77)

16. Aprende com os teus semelhantes de outros países - os observadores/jornalistas de Leste foram muito céleres a vaticinar a vitória de Trump, ao verificarem como decorria a campanha. Haviam-se habituado ao mesmo tipo de propaganda por parte dos russos, e notavam como os jornais norte-americanos não desmascaravam automaticamente cada mentira dita pelo então candidato, sentenciando, incessantemente, a sua derrota no estado seguinte (ainda no interior das primárias dos Republicanos). A experiência de nacionais de outros países podem ajudar-nos a ler a nossa própria realidade nacional. E isto, nota Snyder, quando "a história, que durante algum tempo pareceu rumar de oeste para leste, parece agora deslocar-se de leste para oeste. Tudo o que acontece aqui parece acontecer primeiro lá" (p.81). A leste, Rússia, Polónia, Hungria, seus regimes e lideranças.

17. Fica atento a palavras perigosas - a utilização de vocábulos, nos políticos, não raro, não é feita ao acaso. Pretende-se reconfigurar uma realidade, ou paisagem política, com base, também, nas palavras. Atenção, reitere-se, a palavras como "extremismo" ou "terrorismo" e escrutine-se da sua consistência/adesão à realidade. E onde, eventualmente, nos querem levar.

18. Mantém-te calmo quando o impensável acontecer - não deixes que a emoção violenta te leve a uma resposta (política) cega, que o fervor patriótico te manipule (para uma guerra, por exemplo). Contemplando o incêndio no Reichstag, Hitler imediatamente captou a possibilidade de tudo mudar na política interna (na caça às bruxas que a oportunidade se lhe oferecia; ainda hoje se desconhece a autoria do incêndio, mas, no fundo, tal acaba, para o caso, por ser indiferente). "Depois do incêndio no Reichstag, Hannah Arendt escreveu que "deixara de acreditar que uma pessoa pode simplesmente ficar na sua posição de espectadora" (p.92)

19. Sê patriota - e isso significa, por exemplo, pagares os teus impostos. Ser patriota é diferente de ser nacionalista, não significa rejeitar e ressentir face aos demais, mas partilhar "valores universais, padrões pelos quais ele avalia o estado da sua nação, desejando sempre que o seu bem, ainda que não deixe também de desejar que estivesse melhor" (p.95) 

20. Sê o mais corajoso possível - "se nenhum de nós estiver preparado para morrer pela liberdade, então todos nós morreremos sob o jugo da tirania" (p.97)

[Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições do século XX, Relógio d'Água, 2017]

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