sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Política da eternidade"


Na política da eternidade, a sedução de um passado mitificado impede-nos de ponderar possíveis futuros (...) Tendo em conta que [neste modo de formular a política] que a nação é definida pelas suas virtudes inerentes [intrínsecas/essenciais], ao invés de o ser pelas potencialidades do futuro, a política torna-se num debate centrado nas noções de bem e do mal em vez de levar a uma discussão de possíveis soluções para problemas reais. (...)
Se a política da inevitabilidade é uma espécie de coma, a política da eternidade é como a hipnose: fixamos longamente o olhar no vórtice giratório de um mito cíclico até nos deixarmos levar pelo estado de transe. (...)
Se alguma vez estivemos convictos de que tudo sempre acaba bem, podemos muito bem ser levados a pensar que, no final de contas, nada acaba bem. Se houve ocasiões em que nada fizemos porque achávamos que o progresso era algo inevitável, então poderemos muito bem continuar sem fazer o que quer que seja, isto se pensarmos que o tempo se move em círculos que por sua vez se repetem.

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d'Água, 2017, p.104

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