sábado, 30 de setembro de 2017

O descampado


A vida tem a forma de um grito

Muitas vezes aquilo que somos projeta-se numa pergunta em forma de grito. E esse grito é uma espécie de interpelação dirigida ao outro para encontrar uma resposta, um ponto de apoio sem o qual sentimos que nos perderíamos. 
Nascemos assim, e esse modo acompanha-nos a vida inteira, mesmo se os nossos gritos se tornam depois tendencialmente inaudíveis de tão silenciosos. Mas estão lá, para quem os quiser ouvir. O grito expressa, por um lado, o descampado da vida. Sozinhos, descobrimo-nos expostos à contingência, desarmados diante da sua vertigem, invadidos por uma sensação de impotência e perigo. Mas o grito reitera, por outro lado, e de maneira inequívoca, até que ponto a presença do outro nos é imprescindível. Sem a resposta do outro a nossa vida definharia, permaneceríamos uma interrogação a tatear os muros noturnos do tempo, seríamos apenas uma vontade de viver que não chega verdadeiramente a consumar-se. Cabe ao outro atender o nosso grito, transformando-o numa palavra humana, interpretando-o como um pedido de amor.
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». Dá que pensar que, no cimo da cruz, Jesus viva os últimos instantes transformado num grito.

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.76

Autárquicas (II)


Não sei se alguma vez algum país experimentou proibir jogos de futebol. Mas sei que, na Austrália, por exemplo, decidiram fechar os bares nos dias das eleições e que a medida parece ter surtido efeito.

Jason Brennan, entrevistado por Sara Belo Luís, Visão, nº1282, de 20-09 a 4-10-2017, p.13

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Testemunho


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A castidade e a pobreza não são difíceis. A obediência é que é muito difícil. É pôr a inteligência e a vontade nas mãos do bispo. [Fica preocupado com estes movimentos mais tradicionalistas?] Tenho uma pena muito grande. São pessoas óptimas, mas ainda não entenderam que a Igreja se renova constantemente. É engraçado que quando eu estudei Teologia há 60 e tal anos, já nós falávamos no progresso dogmático, quer dizer o próprio estudo dogmático vai crescendo, vai-se renovando. Portanto, ficar parado nas coisas velhas é ser velho quando se é jovem, e é uma pena. Perdem a oportunidade de encontrar um sentido novo para a sua própria Igreja que corresponde ao mundo. (...) Nessa altura fui também pregar um rito aos bispos. Tinha 36 anos. Passei noites sem dormir. Estudava, estudava para no dia seguinte sair bem. A última conferência era sobre o documento do Concílio que me apaixona mais, Gaudium et Spes, sobre a acção social da Igreja. Falei sobre a responsabilidade sociopolítica da Igreja e fui interrompido por um bispo: 'Como é que você tem a coragem, perante os benefícios que temos do Estado Novo, de falar assim? Eu disse: 'Senhor bispo, vai-me desculpar, estou a ler os textos do Concílio aprovados por vossa excelência'. Aí tomou a palavra o cardeal Cerejeira: 'Senhores bispos, o padre Vítor tem razão'. (...)
[Depois de contar à Conferência Episcopal o que se estava a passar no dia 25 de Abril de 1974] O D.António Rodrigues, das Forças Armadas, disse: "Excelências, podemos estar tranquilos, porque o general Costa Gomes é de comunhão diária". E era! O Costa Gomes acabou por ficar al considerado, mas equilibrou isto para não cair no PC. (...)
Perguntei ao Protocolo da Santa Sé qual era o meu lugar [durante a visita de João Paulo II a Portugal, em 1982]. "Ao lado do Papa, mas não fazes nada, nem dizes nada". O Papa não disse uma palavra o dia inteiro. Ia em contemplação. A certa altura, João Paulo II pediu ao secretário o discurso que ia fazer a Braga. Cortou um parágrafo completo. [Sobre o quê?] Dizia-se que os casais recasados não podiam comungar. "O Papa sabe que quando chegar a Braga vai ter muitos casais recasados, não quer magoá-los", disseram-me. Uma coisa são as regras. Outra coisa é a relação com as pessoas. Não foi o Homem que foi feito para as leis. São as leis que foram feitas para o Homem. (...)
[Como surgiu o convite em 1992 para alto-comissário do Projecto Vida, de luta contra a droga?] Quem tinha este pelouro era o juíz Armando Leandro. Como queria sair, propôs ao primeiro-ministro Cavaco Silva que fosse eu a substituí-lo. Falei com D.António Ribeiro que me disse: "Aceita, porque a Igreja não pode estar longe deste problema". Estive três anos com Guterres. Com o Cavaco estava tudo resolvido em 15 minutos. Com o Guterres, ficávamos três horas a conversar (...)
[Bento XVI foi pouco compreendido pela opinião pública?] As pessoas com cultura, mesmo agnósticos, acharam o Papa Bento XVI espectacular. Os com menos cultura, que tinham a ideia pelos jornais de que ele era conservador, tiveram mais dificuldade em aceitá-lo. (...)
O sacerdote não é só o pregador. Não é só quem celebra a eucaristia. Não é só quem se preocupa com os pobres. Na comunidade paroquial, estes três ministérios são realizados com toda a intensidade. A primeira característica que impus quando cheguei aqui: acolher, acolher, acolher. Nunca dizer não. Quem quer falar comigo venha falar comigo. (...). Durante a semana preparo o que vai acontecer ao Domingo. A homilia tem de ter em conta a palavra de Deus e o jornal diário. Por isso na homilia meto muitos acontecimentos: o Papa disse isto, há um problema na Colômbia. Tudo o que se diz está integrado num ponto-chave.
[Tem tempo para ler outras coisas?] Tenho de ter. Nunca me deito antes da meia-noite e levanto-me às sete. [Fez muitas viagens] Corri o mundo em trabalho. A mais marcante foi a primeira ida à Terra Santa, em 1965. Quando fomos ao Santo Sepulcro, encostei a minha cabeça no altar. Tiveram de me ir buscar porque me tinha perdido. Uma coisa de uma beleza fantástica. (...)
[Com o que sonha agora?] Merecer o Céu. Quero chegar à casa de Deus, ao banquete prometido pelo profeta Isaías. Só espero que haja - nada mais nada menos - do que trouxe-de-ovos, se possível do Luíz da Rocha, em Beja, as minhas favoritas.

Vítor Feytor Pinto, 85 anos, entrevistado por Ana Catarina André para a Sábado, de  28 de Setembro a 3 de Outubro de 2017, pp.66-71

Autárquicas


É verdade que nas eleições autárquicas há todas as perversidades da vida política que não deixam de o ser numa luta por uma freguesia ou um lugar de vereador, há intriga, interesses, corrupção, vinganças, ressentimentos, vaidades, procura do poder, tudo. Mas há também muita dedicação, como o homem que tem uma pequena loja e passeia o seu velho camião com bandeiras e altifalante, por todo o lado, com risco seu e dos outros, aos saltos pelas estradas em muito mau estado. Há os velhos militantes que são socialistas ou social-democratas, ou comunistas, ou populares e que despertam de quatro em quatro anos para fazerem a sua "obrigação". Não aparecem nos media, mas existem. Sem eles, não havia democracia, que começa aqui, onde muitas vezes é mais difícil.

José Pacheco Pereira, Sábado, nº700, 28 de Setembro a 3 de Outubro de 2017, p.19

No comments (IV)



Adenda: "O direito à denúncia de situações pouco claras, imorais e até ilícitas é inalienável. Próprio das democracias. Fingir que não se passa nada é que não é. O silêncio das pazes podres só interessa a quem delas tira proveito" (André Pipa, ABola, 27-09-2017, p.37)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Na universidade (portuguesa) (IV)


A ideia de universidade que defendemos funda-se em três posições simples e antigas. A primeira é a de que a universidade não deve visar fins úteis. A segunda é a de que deve oferecer aos seus alunos o acesso a todos os domínios do saber. A terceira é que deve ser autónoma de todos os poderes, e gerir-se a si mesma.
Se a primeira posição parece etérea ou contra-intuitiva, considere-se a pequena parábola de alguém que queira inscrever-se num curso que o Estado tenha impedido de abrir num dado ano lectivo, por não satisfazer o requisito legal de empregabilidade dos seus licenciados, geologia, por exemplo. (...) Se o candidato responder que não procura emprego, mas apenas estudar geologia, ser-lhe-á respondido que não poderá fazê-lo por o estudo da geologia não lhe garantir emprego. O candidato insistirá que não quer emprego, só quer estudar geologia, prosseguindo, deste modo, sem fim aparente que não o cómico involuntário, um diálogo de surdos. Este inconclusivo diálogo trai, no entanto, uma posição do Estado face á ciência, a de a considerar de um ponto de vista exclusivamente prático (no sentido mais trivial deste termo)
As ciências, constituídas e especificadas em disciplinas, estão decerto entre os mais altos feitos da espécie. A geologia formaliza, sob a espécie conceptual e histórica, clara e distinta, uma parte da experiência e do mundo que, até à emergência e especificação dessa formalização disciplinar, se mostrou enigmática, sem uso, ou com um reduzido elenco de usos. O abandono ou redução de uma disciplina científica são destrutivos de um domínio da ecologia racional da espécie, árdua e cumulativamente construída por gerações de investigadores. Até mesmo do ponto de vista prático, tal negligência é imprudente, por não ser claro que eventual situação futura, lesiva da espécie, a disciplina possa ser chamada a responder. A razão maior do valor da universidade é hoje relativamente imperceptível. Pode, no entanto, ser formulada de modo preciso, mesmo se num vocabulário quase desaparecido: a criação e a aprendizagem de uma disciplina científica induzem uma forma de contentamento intelectual, e são um bem em si mesmas
É este valor que constitui o sentido da designação «artes liberais», dada pela universidade, desde o seu início, às disciplinas que a constituem. A designação «liberal» tem aqui um sentido preciso. (...) Na definição do cardeal Newman, na mais influente descrição moderna da ideia de Universidade, o conhecimento liberal «funda-se nas suas pretensões próprias, é independente de sequelas, não espera complemento, recusa-se a ser informado por qualquer fim, ou absorvido por qualquer arte prática, para devidamente se apresentar a si mesmo á nossa contemplação».
Uma definição mais económica, a do filósofo britânico Michael Oakeshott, define «liberal», neste contexto, como significando «liberto da dispersiva actividade de satisfazer necessidades contingentes». O oposto de «liberal» é, pois, «servil» ou «regulado por um extrínseco fim prático». (...) Uma educação «liberal» é (...) a aprendizagem da participação naquilo a que se chama uma «cultura», termo habitualmente equívoco que, na definição de Oakeshott, denota «a totalidade daquilo que um conjunto associado de seres humanos criou para si mesmo, para além da satisfação evanescente das suas necessidades imediatas». A noção de «cultura», tal como nela se acolhem os domínios do saber estudados na universidade, denota aqui não uma doutrina, mas um «encontro conversacional» que pode ser, e muitas vezes é, argumentativo no tom. Cada disciplina ou domínio do saber constitutivo do conhecimento liberal, a geologia por exemplo, é uma linguagem específica unicamente acessível através da literatura particular que a fixa, a da exemplaridade e especificação do seu ensino por professores e alunos. Na definição de Oakeshott, uma cultura é o dissonante coro de vozes que num mesmo lugar se encontram e colidem numa conversa ininterrupta. A educação liberal é uma iniciação a essa conversa, a delimitação de um tempo em que os alunos ouvirão diferentes vozes e modos de enunciação, num espaço que deverá ser alheio a imperativos «práticos» que as conjunturas sempre, suposta e urgentemente, ditam. O que de importante se passa numa universidade ocorre num grupo de pessoas que falam entre si, durante um certo tempo, numa sala.

António M.Feijó e Miguel Tamen, A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.23-25

[Na universidade medieval, as «artes liberais» eram constituídas por dois sub-conjuntos disciplinares: o trivium, que incluía a gramática, a lógica e a retórica, e o quadrivium, que incluía a aritmética, a geometria, a astronomia e a música]

Na universidade (portuguesa) (III)


Em sentido preciso, nunca houve universidade no Portugal contemporâneo. Houve, e há, ensino universitário de alta qualidade científica e pedagógica, mas não universidade enquanto tal. Uma aluna que, concluído o ensino secundário, se inscreve numa universidade e se licencia em geologia, poderá vir a ser iniciada nesse domínio do saber de um modo excepcional, e nada nos leva a duvidar de que o seja. O confinamento curricular num único domínio do saber torna, todavia, a sua formação exclusivamente vocacional, e a universidade que a dispensa um mosaico de escolhas vocacionais. Não é claro em que consista a natureza universitária de uma formação mono-disciplinar e vocacional, a não ser que «formação universitária» signifique, neste contexto, «formação especializada avançada», a qual poderia ser obtida pela frequência de um instituto de investigação dedicado em exclusivo a esse domínio monodisciplinar; um tal instituto, por essa sua redução de âmbito a um único domínio, nunca será uma universidade, embora possa ser parte de uma (nem o Caltech, nem o MIT são, neste sentido, uma universidade, como o não seria o Instituto Superior Técnico ou a Academia Militar, se reduzidos a si mesmos).
O nosso argumento aqui não se funda no sentido original da palavra «universidade», que, como por vezes erradamente se julga, denotaria o «lugar onde se cultiva o conhecimento universal» (embora nos pareça que uma universidade deva ser exatamente isso). O sentido original da palavra é outro: uma «corporação» de mestres e alunos. Se algum argumento se pode deduzir do sentido original do termo é o de ser o ensino de licenciatura, e não a investigação, a actividade central de uma universidade. Esta centralidade da licenciatura explica que muitas das mais importantes universidades existentes tenham sido inicialmente relutantes em acolher a investigação e o ensino pós-graduado, tendo algumas delas afastado do campus as infra-estruturas que a actividade de investigação tornava necessário criar - laboratórios, por exemplo. (...)
A inexistência de uma universidade enquanto tal não é uma singularidade portuguesa, mas, com algumas excepções, uma realidade europeia. O modelo vocacional é aqui dominante (...) 

António M.Feijó e Miguel Tamen, A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.20-22

Pub: "Antes que Matem os Elefantes", logo, no Teatro de Vila Real



O espectáculo pelo qual mais aguardava, no âmbito do Festival de Dança Contemporânea. Estarei por aqui, pelas 21h30.

domingo, 24 de setembro de 2017

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Um trabalho de depuração interior

É necessário decidir entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la permanentemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos. Entre amar a vida pelo que dela se espera ou amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes em completa impotência, em pura perda, em irresolúvel carência. Condicionar o júbilo pela vida a uma felicidade sonhada é já renunciar a ele, porque a vida é decepcionante (não temamos a palavra). Com aquela profunda lucidez espiritual que, por vezes, só os homens frívolos atingem, Bernard Shaw dizia que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se; a segunda, quando eles se realizam completamente.
Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista da idealização à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.
A vida é o que permanece apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. O tesouro é a vida em si: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

José Tolentino de Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.14



Tolentino de Mendonça tece, em textos, pequenos fios, madrepérola, pedras preciosas que são imprescindíveis ao - à imperiosa necessidade de - maravilhamento. E à ousadia de uma sabedoria. Que não se quer "teologia auto-referencial", e por isso procura habitar a grande diversidade (debilidade agraciada) de todos os quotidianos. Seja quando recorre ao haiku, seja na poesia, seja nesta diarística, percebe-se muito a intenção de uma concentração no essencial, de esculpir, de chegar ao ponto, conjugando toda a simplicidade com toda a profundidade.

Na universidade (portuguesa) (II)


A valorização social do emprego como fim último, se não único, da educação universitária revela uma aspiração social pobre. (...) É, todavia, de notar que o nível de emprego dos licenciados portugueses é estatisticamente alto, e que o benefício financeiro projectável de uma formação universitária em Portugal é dos mais significativos no espaço europeu [o salário de um trabalhador com licenciatura universitária correspondia em média em Portugal (dados de 2014) a 231% do de um trabalhador com o ensino secundário. A média da OCDE era de 183%; a fonte é a OCDE no seu Education at a Glance 2016]. (...) O que possa decorrer da obtenção de um vínculo de emprego, que consecução de outros fins possa ele permitir, é, contudo, deixado cepticamente no limbo das interrogações desnecessárias, ou considerado um exclusivo bem privado de quem consiga obtê-lo. A empregabilidade que o Estado defende como valor ignora a noção socrática de que uma vida não examinada não merece ser vivida. Ao ser tomada como virtude abstracta de qualquer actividade que a assegure, a empregabilidade igualiza toda e qualquer actividade, e obscurece a diferença de valor que diferentes formas de trabalho humano possam ter para quem as pratique.
Este zelo pragmático do Estado, que o debate público sobre educação genericamente perfilha, elege como fim maior, se não exclusivo, de um curso profissional as «saídas profissionais» que possibilita. Nenhuma ideia de educação minimamente robusta subjaz a este entendimento, que ignora qualquer valor intrínseco que a educação possa ter. O diploma concedido a um licenciado na conclusão de um curso é tido por um brevet ou licença necessária ao acesso a uma profissão. Um diploma é considerado uma nota promissória de que uma actividade profissional é devida a quem o possua, não sendo todavia claro quem tenha a obrigação de pagar o que nela é prometido. Se considerarmos, como consideramos, que o trabalho é parte decisiva da vida de qualquer pessoa e, por isso, uma questão política maior, não nos parece, porém, daí decorrer que uma política de emprego deva reconfigurar, e nessa reconfiguração perverter, os fins da universidade. Na sua acepção precisa, um diploma é um documento retrospectivo que inconsequentemente atesta que o seu detentor percorreu com sucesso um curso de estudo organizado numa sequência ordenada de disciplinas. Este percurso curricular traduz uma ideia de educação: a de que, nessa sua progressão bem-sucedida por uma sequência de disciplinas, o diplomado teve importantes ganhos cognitivos, e que, na socialização intensa com os seus pares e instrutores em que essa progressão se fez, se constituiu como adulto, ou como mais adulto, e conhece agora melhor as exigências e pressões do lugar que ocupa.

António M. Feijó (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Vice-Reitor) e Miguel Tamen (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.17-19


Neste passo do ensaio ora publicado na colecção de ensaios da FFMS, algumas notas bem claras:

i) a noção generalizada no debate público de que universidade é, ou deve ser igual, a licença para um emprego; 
ii) com tal noção, assim a universidade deixa de ser vista como fim em si mesmo, e adquire um mero carácter instrumental;
iii) se essa noção correspondesse à realidade, se a universidade tendesse a significar exactamente essa licença para o emprego, afinal quem o garante e o paga (ao diplomado)?;
iv) pensar que é boa, sem mais, a finalidade "emprego" é tornar igualmente bom/pensar como igualmente bom qualquer emprego que se consiga (que se siga do curso; e independentemente de como ele venha a ser valorizado pelo próprio empregado); 
v) não se pensa, pois, que outros fins esse emprego possa permitir alcançar (por exemplo, se permite prosseguir a conversação iniciada na universidade e, muito em particular, uma vida examinada); 
vi) toma como assente que um curso é exclusivamente um bem privado da pessoa;
vii) ora, um diploma universitário é "inconsequente" no sentido de que não conduz, necessariamente, a uma dada "consequência" (por exemplo, no plano laboral), é fim em si mesmo, que reconhece ganhos cognitivos e avanços no adulto em formação.

sábado, 23 de setembro de 2017

Na Universidade (portuguesa)


Em 2016, 16% dos alunos matriculados no ensino superior (português) estavam em universidades privadas; 30% estavam vinculados a Politécnicos.

Escolhas totais (em "A peste", de Camus) (III)


É verdade que a jeremiada com que o padre Paneloux começa por tratar, no primeiro sermão, a epidemia que se abateu, em Abril de 1940, sobre Orão, recorda, em muito, o Padre Malagrida do Terramoto de 1755 (ou os pastores evangélicos do início do século XXI, face ao furacão Katrina). Os céus rebentariam de ira divina como resultado da devassidão humana. Um deus retributivo mostraria, assim, a sua face mais colérica e o humano arrostaria com as consequências de ter criado Sodoma e Gomorra. E, no entanto, Paneloux junta-se à equipa sanitária voluntária que acompanha hora a hora os doentes da epidemia, nunca deserta, é, claramente, um homem de bem que sofre a bom sofrer com o sofrimento da criança que cai nas malhas da peste, passando (esta) horrores até à morte (mesma). Suplica e suplica. Rieux, o médico, não pode, num raro acesso de fúria, evitar um escárnio sobre a teodiceia: "Ah! Aquele [a criança], ao menos, estava inocente e o senhor bem o sabe!" (p.186) [pelo menos, a criança estava inocente e não foi por fazer o mal, portanto, que teve como paga o sofrimento atroz por que passou, até perder a própria vida]. E, radicalmente, o clínico rejeita a criação - uma criação na qual uma criança é torturada ("E hei-de recusar até à morte esta criação em que crianças são torturadas", p.187; "A dor inflingida a estes inocentes nunca deixara de lhes parecer o que era na verdade, um escândalo", pp.183-184). A indignação/revolta contra o mal como habitada pela própria presença do bem, como único modo de presença do Bem (com maiúsculas); Deus presente na pergunta pelo mal que não é naturalizado, nem tratado com indiferença, como diria João M. Duque. O padre Paneloux responde a Rieux: "Ah, doutor - exclamou ele com tristeza -, acabo de compreender aquilo a que se chama graça!" (p.187).
Não apenas a desconstrução de uma dada ideia de Deus - como vingativo; "eu tenho outra ideia de amor", atira Rieux, p.187 - se faz por aqui, como, adicionalmente, as observações do médico - "os cristãos falam por vezes assim sem que realmente o pensem. São melhores do que parecem" (p.111); "fico satisfeito por o saber melhor do que o seu sermão"(p.132), alertam para as palavras ditas mecanicamente sem nelas se advertir com caridade, o problema da pura retórica ou superioridade moral (o texto esclarece que Paneleux, no segundo sermão já falou, não na segunda pessoa do plural, mas na primeira; já não foi o "vós, pecadores impenitentes..."), como, ainda, nos termos hodiernos do Papa Francisco, o problema da realidade ser superior à ideia: "Paneloux é um estudioso. Não viu morrer bastante e é por isso que fala em nome de uma verdade. Mas o mais modesto padre de aldeia, que administra os seus paroquianos e que ouviu a respiração de um moribundo, pensa como eu. Esse acudiria à miséria antes de querer demonstrar-lhe a excelência" (p.112). 
As falhas que se possam assinalar a Paneloux não obstam a que a aposta, a escolha de fundo, total, sem mas, por parte deste, sejam a da inteligência mais profunda e fecunda: se Rieux recusa a criação por nela haver crianças inocentes a sofrer, Paneloux considera que justamente, neste umbral definitivo, a confiança absoluta no Cristo que na cruz se junta a todas as vítimas inocentes e anónimas da história se torna, sem matizes nem meias tintas, a entrega total e imperativa a fazer; ter fé será essa queda (sem tibiezas, e no "crer tudo" da homilia do segundo sermão se encontrará, evidentemente, a fortiori, a ressurreição; nunca haverá nenhuma justiça final, uma vez mais a vexata quaestio, para as vítimas inocentes da História se a ressurreição não é a realidade última): "Pois, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante na Terra do que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento arrasta com ele, e as razões que é preciso encontrar-lhe. No resto da vida, Deus facilitava tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele punha-nos entre a espada e a parede. Nós estávamos, assim, sob as muralhas da peste e era à sua sombra mortal que nos era necessário encontrar o nosso benefício. O padre Paneleux recusava até as oportunidades que permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podia compensar o seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Com efeito, quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor na Sua carne e na Sua alma. Não, o padre ficaria ao pé da muralha, fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o símbolo, frente a frente com o sofrimento de uma criança. E diria sem temor, aos que o escutavam nesse dia: «Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem, de entre vós, ousaria negar tudo? (...) Era tudo ou nada" (p.192-193). Quando, neste contexto, o padre Paneloux falava da "aceitação total" (p.193), não remetia para uma "banal resignação", "nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação (...) Só assim o cristão a nada se pouparia e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial" (p.193).
No seu penúltimo livro, Teoria da Fronteira, José Tolentino Mendonça exortava a prática dos exercícios espirituais e neles o concretizar da exclusão das meias medidas para agarra a vida, por fim, pelos colarinhos: "arriscando em vez dos tropeços habituais/a queda infinita" (p.75). E, no seu recentíssimo O pequeno caminho das grandes perguntas, retoma: "é necessário decidir entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la permanentemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos" (p.14). Ou, dito ainda de outro modo, "a fé contemplada no Evangelho é, sobretudo, uma arte do risco. Crer é arriscar crer, como amar é arriscar amar" (p.35).

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A única viagem é a viagem interior


De que te serve o Louvre ou a Tate Gallery, o troféu exibido, os grandes nomes, se não te demoraste num quadro, se não te dilataste, se não repousaste horas nele, se não contemplaste, se nenhuma fímbria, ou corda interior, foi tocada, se não chegaste mais perto do essencial de ti? De que servem os clássicos citados sem serem conhecidos (?), já deixava, em implícita interrogação, o Lipovetsky de A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. 
Um ideal de férias, podia ser este, o da viagem interior, a única, ou, pelo menos, a grande viagem - ainda que a viagem interior, é certo, possa coexistir com a exterior viagem física. Não por acaso, nos sublinhados do novo livro de José Tolentino de Mendonça, hoje lançado, começo por aqui, no que há de identificação com o geral sentido que se retira do passo em questão:


A imensidão que não se pode perder

Pode a muitos parecer um enigma a forma como Emily Dickinson construiu o seu itinerário poético. Ela viveu praticamente numa reclusão voluntária, subtraída a uma previsível vida de contactos e públicas relações. Transformou a casa paterna, em Massachussets, na sua fortaleza, onde podia inventar-se e reinventar-se livremente, segundo os seus próprios códigos de linguagem. O pequeno mundo doméstico tornou-se para ela um continente, um planeta brilhante, uma galáxia ou o inteiro universo. Isto é tanto mais curioso quanto na sua poesia transparece frequentemente o desejo de viagem. E o lema que adoptou é este: «A imensidão não se pode perder», referindo, à maneira de um peregrino da inquietação, uma sucessão incansável de lugares aonde nunca foi - Paris, Nápoles, Veneza, a Suiça, Frankfurt e o Reno.
Emily Dickinson era sobretudo uma viajante imóvel no que dizia respeito ao mundo exterior. Pode dizer-se que procurou incessantemente a porta da alma, como todos aqueles que fazem da vida interior o centro da própria obra. Os seus versos continuam, por isso, a representar sobretudo um desafio ao recentramento. E eles dizem-nos: «Debaixo! Explora-te a ti mesmo!/ Pois dentro de ti encontrarás/O continente desconhecido».

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, Lisboa, 2017, p.15

Escolhas totais (em "A peste", de Camus) (II)


Apesar de, sem dúvida, a certa altura e questionado sobre o tema, - "Acredita em Deus, doutor?
A pergunta fora ainda feita naturalmente. Mas desta vez Rieux hesitou.
- Não, mas que quer isso dizer? Estou nas trevas e tento ver claro. Há muito que deixei de achar isto original" (p.112)" - se confessar ateu, num outro passo o médico dr.Rieux diz que ou bem que se dedicava a tratar vidas (a salvar pessoas), ou bem que se dedicava a saber (no fundo, a investigar as "questões últimas"). Uma espécie de reconhecimento agnóstico (talvez, já, mesmo, entrevisto, implicitamente, na resposta anterior - "mas que quer isso dizer?"), mas não sem uma certa admiração pelo comportamento próprio: "- Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber porquê - deixou-se cair de novo sobre a almofada. - É um facto, aí está. Registemo-lo e aceitemos as suas consequências.
- Que consequências? - perguntou Rambert.
- Ah! - disse Rieux. - Não se pode ao mesmo tempo, curar e saber. Curemos, pois, o mais depressa possível. É o mais urgente" (p.179).
Um período (textual) que me fez lembrar, muito e duplamente, o Cardeal Carlo Maria Martini: se, aqui, Rieux manifesta uma certa estupefacção pelo seu próprio cumprimento do dever (uma espécie de obediência às "leis eternas" de que falava Antígona), o homem de Igreja perguntava a Umberto Eco (Em que crê quem não crê?): há muitos "crentes" que têm um comportamento péssimo, "não crentes" que têm um comportamento exemplar, mas em que fundamenta você a obrigação de dar a vida pelo outro, sem conhecer um Deus pessoal? (ao que Eco respondeu que queria ficar sempre com o exemplo de Jesus, porque só o facto de a humanidade se ter proposto o Cristo como modelo significava que esta espécie bárbara e terrível, estava, com tal gesto/desejo, redimida). E, num livro de perguntas colocadas pelos jovens: [qual o sentido da vida?] Estive demasiado ocupado a trabalhar [no seu múnus, a ajudar os outros, a curar, a salvar] para poder dedicar-me à questão.

P.S.: Rieux realmente afasta-se do que/de quem ama, na medida em que a mulher tinha saído de Orão em tratamento e, entretanto, com a peste a isolar a cidade, o médico e esposa estavam, também, separados. A questão da obrigação de dar a vida também se coloca neste romance, porque, em realidade, ao tratar aqueles que padeciam da peste contagiosa, o médico esteve sempre a arriscar (-se pelos outros).

Escolhas totais (em "A peste", de Camus)


Uma das mais interessantes questões/dilemas colocados pelo extraordinário A peste, de Albert Camus (reeditado, recentemente, pela Livros do Brasil, com tradução de Ersílio Cardoso), é-nos apresentada através de Rambert, o jornalista que aportara a Orão e que se vira, depois, apanhado na prisão que a cidade passou a constituir a partir do momento em que a epidemia tomou conta da urbe e esta foi encerrada (para que não viessem a ocorrer contaminações extra-muros). Tendo deixado mulher, o amor da vida, fora daquelas muralhas; não sendo um natural de Orão e não estando por ali há demasiado tempo, a vontade, manifestada por Rambert, de fugir, a convicção de se evadir dali, mais do que presente, fosse necessário envidar os meios que fosse (uma saída clandestina e ilegal). Conquanto os preparativos se demorassem por semanas e as tentativas de encontrar cúmplices - desde logo, uma declaração que o médico dr.Rieux não passou por escrúpulo profissional - prolongasse a estadia, o certo é que, amadurecida e finalizada, a decisão não foi pela "felicidade", pelo "egoísmo do amor" (espantoso paradoxo formulado por Camus, na medida em que o amor é saída de si para o outro, mas neste caso, a recusa dos demais para se concentrar no amor de uma vida poderia ser interpretado à guisa de egoísmo), mas pela solidariedade com uma comunidade. Ou, se se preferir, não se é feliz, segundo Rambert, vendo todos os outros infelizes: "Rambert disse que tinha reflectido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas, se partisse, teria vergonha. Isso perturbaria o seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e declarou, com uma voz firme, que aquilo era estúpido e que não era vergonha preferir a felicidade.
- Sim - disse Rambert -, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.
Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que se Rambert queria compartilhar a desgraça dos homens, nunca mais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.
- Não é isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver convosco. Mas agora, que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira quer não. A história diz respeito a todos nós. - Ninguém respondeu e Rambert pareceu impacientar-se. - Os senhores sabem-no bem, aliás. Quando não, que fariam neste hospital? Acaso fizeram a vossa escolha e renunciaram à felicidade?" (p.179)
Na sabedoria do dr.Rieux, o dilema - que o binómio felicidade vs solidariedade talvez coloque, no caso, de modo demasiado simplista - começa por ser tratado a uma luz deontológica: não aceita passar um atestado médico para que Rambert pudesse sair de modo lícito de Orão. Mas toda a sua atitude está isenta de soberba, de moralismo, de lições: ele é informado por Rambert dos preparativos deste para a fuga, compreende-os, aceita-os, convive com o jornalista e parece-lhe perfeitamente natural, ou muito compreensível do ponto de vista humano, a "opção pela felicidade" (chegando, nesse esforço de empatia pela posição do outro, por repreendê-lo por não seguir esse caminho: "aquilo era estúpido e não era vergonha preferir a felicidade"). Confrontados com uma situação de uma epidemia (uma guerra, um avanço totalitário), e, ademais, com a família, e o amor maior de uma vida, longe, seria, ou não, legítimo evadir-nos? Ir em busca do amor (que também sofre por nós) seria, propriamente, e apenas, "egoísmo"? Aqui, a fórmula é notável na sua ambiguidade e complexidade: "o egoísmo do amor". Em todo o caso, poderíamos pensar que a irmandade na desgraça seria uma opção mais elevada, uma resposta maior. Mas sem atirarmos pedras, ou julgarmos (severamente) quem assim não decidisse. O ponto, talvez, ainda possa ser outro: quem é, quem compõe o "demos"? E a resposta seria: aqueles que compartilham "a desgraça dos homens" da cidade (mesmo que aparentemente estrangeiros). Peguy perguntava o que Deus nos dirá se chegarmos ao Paraíso sem os outros (?) - ninguém se salva sem os outros serem salvos. E este apelo de partilhar a história, e o discernimento de que um prazer que não pode ser partilhado não é um prazer, pareceram sobrelevar em Rambert.

A Alemanha que vai a votos (II)


Ontem, no Linha da Frente, na RTP1, o outro lado da Alemanha. O reverso da medalha, uma reportagem de António Louçã, com narração de António Esteves.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Eleições locais


1.Não sei se hei-de rir, ou chorar, ao ver o vídeo, com comunicado em português de quinta categoria, de um presidente de uma Associação Académica, ladeado por colegas de pé e em pose fúnebre. Depois de anos a fio sem uma palavra para com o país, nenhum protesto ou manifestação, qualquer forma de solidariedade quando milhões sofreram a bom sofrer medidas e medidas que a tantos desesperaram, sendo tais estudantes universitários, como alguém escreveu, "os grandes ausentes" - como nem em ditadura tinha sucedido neste país -, aparecem agora, por causa de umas "barraquinhas", em "marcha silenciosa" (!) pela cidade. Eles não entendem o ridículo, nem ninguém lhes explica - mas, mais do que isso, as suas acções e omissões e seu significado ético. Se lessem Tony Judt tinham percebido como quando estudantes, mesmo os que se consideravam "radicais", como ele escreveu, no pós-1960, se preocupavam mais com "as horas do fecho dos portões das universidades do que com as práticas laborais fabris" (p.94, Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos), quando o umbigo prevaleceu sobre uma visão sobre o "bem comum" da sociedade, em que cada grupo apenas quer saber de si (ou da sua identidade), então a sociedade caminhou para a "fragmentação", "o relativismo ético" prevaleceu e o sucesso de um modelo de Estado Providência pelo qual lutaram os ascendentes ficava em causa pela "privatização" de tudo e o "individualismo" da descendência.
Não me admirou, ainda, ver políticos formados na mesmíssima escola quererem cavalgar uma onda, incapazes, naturalmente, de contrariarem esse eleitorado potencial, procurando, inversamente, como lhes competia, formar e apresentar uma plataforma política que fosse capaz de reivindicar o cimento social onde ficaram os resíduos de reclamações vãs, pequeninas, tão parciais.

2.Olho para programas eleitorais e constato esquizofrenias políticas: de dois em dois anos, alternam entre o reclamar, a nível local, apoios sociais universais (nem sequer tendencialmente, que é para não haver dúvidas) e, ao nível central, a denúncia de um Estado Social que "prende", "aniquila", "desresponsabiliza" do nascimento à cova. Em que ficamos? Obras públicas são muito más, num ano, mas, passados dois, pede-se infra-estruturas que ultrapassam o delírio. Nada disto perturba os espíritos: nem de quem formula tais propostas e por elas se apresenta, nem de um eleitorado que não está para tais complicações.

3.Mudar horários na mobilidade (pública) urbana, tornando-os mais exíguos, mais espaçados, oferecendo piores condições a uma população que muito havia ganho com essa oferta é errado e seria um tiro no pé se houvesse quem estivesse preocupado com outras coisas que não as "barraquinhas", ou, mais propriamente, as "barracadas". De que vale estar-se ufano por se aligeirar, um pouco, a factura com a mobilidade se o preço para os cidadãos é terem, no fundo, um pior, claramente pior, serviço? Isto impede alguém de reivindicar o campeonato da defesa dos serviços sociais, ou o representante da respectiva junta de prosseguir com os bombos, como se nada fosse?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Antigamente é que era bom

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Segue mais um excerto de Luc Ferry, desta vez sobre a escola e os alunos de hoje face aos de um passado mais distante, nomeadamente o período da III República em França (1870-1940). Para dizer que se compararmos os melhores alunos de então com os um último quartil de hoje, realmente aqueles eram melhores, mas que se compararmos os melhores de então com os de hoje, provavelmente, embora, impossível de provar,os de agora sabem mais em diferentes àreas (e em "abertura de espírito"); em todo o caso, o nível médio universitário de hoje será menos bom do que então, mas os alunos excelentes aumentaram em grande número; e se esse nível médio era melhor tal devia-se a uma elitização do ensino, com os filhos das "boas famílias" a serem hegemónicos na escola. Em suma, Ferry coloca em causa e desmente o "antigamente é que era bom", mas também refere que tendo a escola proporcionado a hipótese de mobilidade social ela por vezes não sucede porque faltam os esforços para chegar e penetrar o conhecimento, falta que atribui "à problemática desconstrução dos valores e das autoridades tradicionais" (sendo que, entre essa desconstrução, assinala a ideia de Levi Strauss, continuada por Bordieu, da alfabetização como modo de controlo sobre o indivíduo pelo poder: "porque é preciso que todos saibam ler e escrever para que este último possa dizer: ninguém pode ignorar a lei", pelo que assim a escrita, e a sua correcta aprendizagem, seria opressiva; ou ainda a tentativa, recente, em França de acabar com as notas escolares, por estas serem violentas, substituindo-as por cores - como se as pessoas não percebessem a diferença entre o verde, o laranja e o vermelho e se pudesse evitar a desigual avaliação de um desempenho; ou, ainda, a ideia de que a civilidade e polidez eram uma "imposição de classe" com avaliadores de candidatos a professores a valorizarem mais os que, enquanto estagiários, condescendiam com erros ortográficos ou gramática (dos seus alunos), pois que esta seria "fascista", dando, assim, com tal postura, origem a duvidosas inovações pedagógicas).



Será preciso portanto regressar aos bons velhos tempos, à boa velha escola da III República, com (...) as suas batas cinzentas, as suas boas notas e as suas orelhas de burro, as suas canetas de aparo e os seus tinteiros de porcelana cheios de tinta roxa? Deveremos a todo o custo reintroduzir no programa a edificante história do bom Lavisse, bem como o método silábico e as reguadas nos dedos? Mesmo sendo um pouco brutal, eu diria que a idealização da III República é absurda. Ela testemunha apenas uma ignorância crassa das realidades do passado.
Eis porquê: 
Para aqueles que se comprazem nesta mitologia falaciosa, começarei por observar que, sem incivilidades na escola, a criminalidade geral era então muitíssimo superior aquela que existe nos nossos dias, a expectativa de vida incrivelmente baixa (cerca de quarenta anos), a miséria omnipresente nas cidades, o analfabetismo a regra nos campos para 90% das raparigas, o produtivismo devastador, o nacionalismo belicoso, o cientismo ateu de um dogmatismo insuportável e o racismo colonial portador das piores catástrofes. (...) Dir-me-ão que talvez fosse verdade com o racismo, as guerras coloniais e nacionalistas que se preparam na época da III República, mas que, no respeitante à escola, o nível era ainda assim muito superior ao de hoje.
Na verdade, não, e trata-se, mais uma vez, de uma ideia recebida fora de qualquer avaliação minimamente séria da realidade dos factos. Comecemos, portanto, contrariando o célebre adágio de Rousseau, para não os rejeitar a todos de uma penada. Em primeiro lugar, deve lembrar-se que, no início da III República, 90% das raparigas e 75% dos rapazes eram analfabetos. O bacharelato, criado a 17 de Março de 1808, não conta, na sua primeira sessão, com mais de 31 laureados! Em 2008, dois séculos depois, há 500 000!
Ora, ao longo desse século XIX tão idealizado hoje pelos nossos «republicanos», o número anual de bacharéis permanece estável, nunca ultrapassando os 10000 laureados, e isso até 1920. É somente desde os anos de 1920 que esse número aumenta 1% a 2% num grupo etário! Continuemos a olhar para os números: em 1950, 30000 laureados (5%); em 1960, 60000 laureados (11%); em 1968, 170 000 (20%); e 500000 em 2008.
O mínimo que se pode dizer é que durante a III República a democratização do ensino nunca aconteceu, o que simplificava consideravelmente as coisas no que respeita ao nível escolar, sendo apenas escolarizados aqueles que pelas suas famílias...não necessitavam disso ou, pelo menos, não tanto quanto os filhos das classes populares
Já consigo ouvir a objecção; ela é ritual, está regulada como uma partitura musical: claro, democratizou-se o bacharelato no século XX, mas, justamente, o nível caiu a pique. Isso é sem dúvida exacto se compararmos o quingentésimo milésimo laureado de hoje ao décimo milésimo de 1920, o qual tinha decerto um nível de cultura e de ortografia muito superior.  Mas se tomarmos os 10000 melhores de hoje, ou mesmo os 50000 melhores, estou disposto a apostar que eles não têm nada a invejar aos dos anos de 1920, que eles são decerto muito superiores em ciência, provavelmente também em história, em letras e em abertura de espírito. É impossível, claro, verificar ou destruir a hipótese, mas o que é incontestável é que ela é conhecida para as raparigas. Porque, mais uma vez, em vez de idealizarmos o passado, olhemos para os factos: a primeira rapariga a obter o bacharelato em França - o nome dela é Julie Daubier - só consegue tal façanha em 1861! E com razão, porque, na verdade, até então o exame está reservado aos rapazes, sendo a escolarização das raparigas considerada inútil, ou mesmo prejudicial, como aliás o direito de voto para as mulheres - o que só por si já deveria proibir a idealização deste período.
Além disso, é só em 1920 que elas virão a receber um ensino secundário idêntico ao dos rapazes, embora não no domínio tecnológico, em que a aprendizagem da costura e da culinária continuará a ser regra até ao Maio de 68! Na universidade, a escolarização é marcada por um elitismo que não tem nada de republicano: 50000 alunos em 1900, e apenas 135000 ainda em 1950, contra 1500000 em 2013. E, também aí, se o nível médio é porventura menos bom que no passado, isso não é obviamente verdadeiro para a proporção de estudantes excelentes que aumentou muito em relação ao século XIX.

Luc Ferry, filósofo e ex-ministro da Educação francês, Sete lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017, pp.216-223

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Alemanha que vai a votos



*Ana Carbajosa aponta para um grande centro ideológico na sociedade alemã (80% dos alemães dizem-se do centro, muito mais do que sucede em Espanha ou França), na qual, afora algumas minorias, a grande maioria da população estaria de acordo em matérias como a política europeia, a economia, o meio ambiente, os direitos civis, o papel da religião, sendo que os próprios slogans refletem este estado de coisas (para além do que se viu no debate entre Merkel e Schulz, no qual "as diferenças foram micro" e a cada um dos candidatos "só faltou abanar a cabeça enquanto o outro falava"; isto, também, por razões históricas, nomeadamente a experiência do entrincheiramento partidário na República de Weimar a dar passo ao nazismo; uma sondagem da Forsa indica que 75% dos alemães estão contentes com a sua situação financeira, enquanto 59% entendem que o país vai na boa direcção, contrastando com uma média europeia de 36%): aqui.

*Wolfgang Munchau, no DN, entende que o SPD não foi capaz de pensar a globalização e assim que os alemães desacelerem nos seus "campeões nacionais" não haverá estratégia para o dia seguinte. Se os sociais-democratas aceitaram as "linhas neoliberais" do défice e da dívida "desde 1990" não apresentam alternativa, embora o colunista do FT também considere que na Alemanha não resultaria uma viragem pura e dura à esquerda como a de Corbyn, no Reino Unido. Mas faltou uma reflexão de fundo sobre o futuro europeu, com mais solidariedade, com Schulz a deixar todo o peso (e/ou brilho) nas costas de JunckerAqui.

*Clara Ervedosa, no Público, liga ainda a grande erosão eleitoral do SPD ao conjunto de reformas do tempo de Schroeder que entende terem debilitado o trabalho, gerado precariedade, colocado em causa a coesão social e a classe média, promovido a desigualdade (40% dos salários mais baixos são inferiores aos de 1995). Sem o "pai" Estado, fica a segurança simbólica da Mutti MerkelAqui.

*Lluis Bassets alude ao prestígio global de Merkel, que ultrapassará Adenauer e igualará Kohl no número de anos à frente do Governo, caso vença as eleições de dia 24, elenca possíveis coligações, mas refere também a falta de infra-estruturas (pelo medo do endividamento), a erosão das grandes marcas alemãs, uma demografia que mostra uma população muito envelhecida. Aqui.

sábado, 16 de setembro de 2017

O problema do livre-arbítrio, segundo Luc Ferry


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Reforça-se: para o filósofo Luc Ferry, a felicidade tem um carácter antinómico, isto é, o que nos faz felizes é também responsável pelos momentos de infelicidade. Reparemos na liberdade: como poderíamos ser felizes na servidão? Mas, sendo a liberdade a opção de escolha entre diferentes hipóteses, muitas vezes verdadeira e terrivelmente dilemáticas, estar perante essa decisão é, em si mesmo, causa de infelicidade. Neste âmbito, Ferry começa por colocar o binómio felicidade/liberdade como pólos alternativos: prefiro ser feliz, mesmo que à custa da liberdade (não é que esta última não seja relevante, mas na ordem dos valores, podemos, eventualmente, concebê-la num plano secundário), ou prefiro ser livre, ainda que à custa da felicidade? Entre os autores que se situariam na primeira das opções, de acordo com este pensador, estariam, de modo mais ou menos controverso segundo interpretações diversas - e penso em especial nos campos em que Ferry coloca Hans Jonas ou Rousseau - Hobbes, Marx, a ecologia política - é citado Hans Jonas); entre os que se filiariam na segunda das opções, estariam Rousseau, Kant, Tocqueville.
Em nome da felicidade (Hobbes), da sabedoria (Espinosa) ou da serenidade (Nietzsche) fomos tendo, inclusive, a pura e simples negação da existência da liberdade (livre-arbítrio). Ferry concede: "a liberdade e a responsabilidade são fardos, factores incontestáveis de perturbação, que nos impedem de andar à roda [dançar]". E isto porquê? "Desde que eu esteja convencido de que o mundo poderia ser diferente do que é, que eu poderia ter agido de forma diferente no passado ou que deveria corrigir o tiro no futuro, então é certo que a perturbação se instala na minha vida. Digamos as coisas francamente: o sentimento da liberdade, a convicção de que existem possíveis, de que o curso do mundo poderia ser outro, pode deixar-nos acordados durante a noite, estragar-nos o sono" (p.147). O facto de a liberdade poder ser perturbadora é motivo suficiente para a considerarmos inexistente? "Será isso uma razão para negar a nossa liberdade? Duvido, e, sem a menor hesitação, se eu tiver de escolher entre a felicidade e a liberdade, opto, seja qual for o custo, pela segunda, sem entrar sequer no debate metafísico sobre o seu carácter ilusório ou não, pois o debate que desde sempre opõe o kantismo e o espinosismo parece-me impossível de decidir, «infalsificável», como dirá Popper. Pelo que estou convencido de que a única categoria filosófica que nos permite pensar de maneira adequada as relações da liberdade e da felicidade é a do trágico no sentido que os gregos tinham dado a este termo. Porque o trágico designa em primeiro lugar os dilaceramentos do mundo engendrados pelas nossas escolhas livres e resolutas, dilaceramentos que, decerto, arruínam a vida de quem os vive, mas são inseparáveis daquela liberdade sem a qual eles já não se considerariam mais como seres humanos dignos desse nome - pelo que o exercício do seu livre-arbítrio soberano tem primazia sobre a preocupação com o seu bem-estar" (pp.147-148)

Luc Ferry, Sete lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017

O entusiasmo de aprender

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Porquê o entusiasmo com o conhecimento, com o aprender, com esse processo (aparentemente doloroso) de chegar a adquirir conhecimentos?

a) para Platão: porque regressamos - temos o sentimento de regressar - a casa. Adquirimos o conhecimento (verdade) no "céu do mundo inteligível"; esquecemos como o nascimento; aprender é, pois, recordar, anamnese, voltar a saber o que sabíamos; plenitude (em casa).

b) para Kant: quem tudo conhece é Deus, um sábio ideal; no processo de aquisição de conhecimentos, sentimo-nos, pois, a participar dessa experiência de tipo divino, junção da matéria e do espírito, do sensível e do inteligível; entendimento divino. Onde estão as verdades? No "entendimento divino". "Quando faço uma descoberta, quando aprendo algo importante, quando opero um progresso real nos meus conhecimentos, mesmo se for ateu, não posso deixar de ser tomado pelo sentimento de que me aproximo do divino, de que participo de alguma maneira do saber ideal, que seria o de um Deus ou de um sábio perfeito". "O processo de aquisição dos conhecimentos é, no sentido etimológico da palavra, «entusiasmante»: ele faz-nos entrar na esfera do divino (en theos)".

(pp.190-194)

[Então, se é assim, se há entusiasmo em adquirir conhecimentos, porque é que temos a sensação de que hoje novas gerações não estão entusiasmadas em os prosseguir, em chegar até eles, em participar nesse processo, com a sua penosidade, com as horas de estudo, mas a promessa da alegria da descoberta? Segundo Luc Ferry, um conjunto de imposturas pedagógicas, nomeadamente a ideia do conhecimento auto-construído pelas crianças como se fossem uma tábula rasa a criarem (-se) ex nihilo, a deslocação da noção da educação como continuidade na transmissão de uma herança de conhecimentos e competências (p.200), a perda da gramática, da civilidade, das boas maneiras (como se fossem uma imposição de classe), a inovação capitalista associada a uma "desconstrução muito problemática dos valores e das autoridades tradicionais" (p.225) são causas apontadas para muitos dos casos em que se não nota esse querer conhecer, sendo que o ex-ministro da educação francês não defende um regresso ao passado, mas deixa claro que medidas sublinhava da sua passagem como membro do Executivo: luta contra a incivilidade, reforço da autoridade dos professores, etc]

a partir de Luc Ferry7 lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Ainda a crise vista do cinema


A crise económica que recentemente afectou o país deixou marcas profundas na sociedade portuguesa. Não se tratou apenas de um período de austeridade esmagadora, com uma grande depressão que empobreceu quase todos levando casas e empregos. Foi uma crise com graves sequelas morais, emocionais e psicológicas, que se repercute ainda nos nossos dias. O ambiente durante o período de auxílio financeiro da troika era de tal forma devastador que não sobravam penas para escrever os sucessivos episódios dramáticos, muitas vezes roçando a tragédia, de cada família
Alguns cineastas portugueses sentiram a urgência de retratar aquele período, para memória presente e futura, até porque, além do mais, como se sabe desde a Antiguidade Clássica, as tragédias albergam um manancial de histórias. Contudo, não deixa de ser notável que a crise económica tenha despoletado tantos filmes, sabendo que outros períodos marcantes da história recente de Portugal (...) tenham sido objecto de relativamente poucas obras ao longo dos anos.

Manuel Halpern, As pequenas histórias da grande crise, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.18

Uma espécie de razia


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Por isso, arrendámos um apartamento na Póvoa de Santa Iria. Estive sozinho três, quatro meses, e depois esteve lá a equipa toda. Ia escrevendo enquanto fazíamos o casting. E há medida que fazíamos o casting também nos apropriávamos das histórias que nos contavam. Foi um processo de formação de ideia. Apercebemo-nos de uma gravidade a todos os níveis: pessoal a divorciar-se, a matar-se...Todo o tipo de dramas. (...) Sim, [a crise provocou sequelas] aos níveis psicológico, físico, emocional, afectivo...É muito mais do que o encerramento de uma fábrica. Havia ali uma espécie de razia. É um sentimento de impotência e humilhação, comum a toda a sociedade portuguesa. Quisemos trabalhar sobre essa impotência, sobre a escuridão. E procurar luzes para sair dali. Sendo que as narrativas ideológicas do século XX não são operacionais para a realidade deste século. (...) É essa a questão do filme: o que fazer com esta espada? (...) Algumas das cenas vêm diretamente de episódios relatados. Como é o caso dos valores de indemnização escritos na casa de banho, com uma das propostas muito desigual. Aconteceu mesmo, fez parte de uma estratégia de uma administração para dividir os trabalhadores (...) O filme é dominado por aquele momento. Mas fala de coisas que extravasam Portugal. A questão do fim do trabalho vai tornar-se central e falar-se-á nos próximos anos.

Pedro Pinho, realizador do filme Fábrica do Nada, também com a crise como pano de fundo, em entrevista a Manuel Halpern, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, pp.16-17

Os afectos destruídos que não se mudam por decreto


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A angústia é algo individual e paralisante, causa depressão que é a coisa menos reactiva que há. Acho que quando houve aquela manifestação gigante em 2012, a primeira do Que se lixe, as pessoas sentiam-se todas no mesmo barco, depois começaram a ver que não era bem assim, e que uns iam ficando pior que outros. Veio o medo de ficar tão mal como os que já estavam mal e as pessoas foram-se isolando. Não é como quando acontece uma catástrofe natural ou uma guerra, em que todos sofrem por igual. Aqui muitos desempregados iam ficando com vergonha da sua situação, primeiro perante os de fora, e depois mesmo perante os elementos da família. Em muitas famílias instalou-se um silêncio novo, um problema diferente dos problemas que as famílias já conheciam. Claro que nem todas as famílias reagiram assim, felizmente, mas o que me interessou mais foi esse silêncio (...) E sim, penso que quando chegamos à angústia e à vergonha por termos perdido o nosso trabalho, por não termos dinheiro para honrar os nossos compromissos, há o grande risco de acharmos que a culpa é só nossa, perdemos a energia para sequer tentar identificar o que nos levou aquela situação. (...)
Muitas famílias foram talvez irremediavelmente destruídas. As relações entre muitas das pessoas mudaram. Filhos e pais, mulheres e maridos e vice-versa. Mesmo com melhores políticas a nível nacional, isso não vem com varinha mágica, os afectos não se alteram por ordem governamental. (...)
Acho que o filme acaba em suspensão, em interrogação. Talvez que por cordões invisíveis, cada um esteja ainda a cuidar do outro. Todos são humanos e estão confusos, o que é normal naquelas circunstâncias. Penso que tem sempre que haver esperança, mesmo quando não a vemos, ela está sempre escondida em algum lugar, e às vezes um quase nada, faz uma diferença enorme. (...) Mas em relação a Portugal preocupa-me a ideia de que tudo vai já bem. Há muita gente que ficou para trás, e não se pode esquecer isso

Teresa Villaverde, realizadora do filme Colo, agora a estrear nas nossas salas de cinema, com o pano de fundo da crise, em Portugal, em entrevista a Manuel Halpern, JL nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, pp.14-15.

Guia para a noite eleitoral (de Vila Real)


Revendo os gráficos das últimas duas eleições autárquicas no concelho de Vila Real, como intróito para a avaliação de 1 de Outubro:

2013: votaram 30 mil pessoas (60% dos inscritos nos cadernos eleitorais)

*Diferença de 541 votos entre PS e PSD (13467 vs 12926 votos; 44% vs 42,23%)
*PS ganha mais de 2500 votos face a 4 anos antes
*PSD perde 2900 votos face às autárquicas 2009
*Possível (muito provável) transferência de votos do PSD para o PS
*O CDS perdeu 301 votos em 2013 face a 2009 (1482 votos; 4,84%)
*BE desce 297 votos, cerca de 1/3, em 4 anos (612 votos; 2%)
*O PCP perde 46 votos em 4 anos (730 votos; 2,39%)
*Todos os partidos, portanto, em 2013, perdem votos, na eleição para a Câmara Municipal, com excepção do PS
*Há mais votos brancos que votos no PCP e BE
*Há mais votos nulos que no BE
*Estes dois últimos dados são bastante curiosos e relevantes do ponto de vista cultural/sociológico
*A abstenção aumentou cerca de 3% em 4 anos

*Pode especular-se, não sem razoabilidade, creio, que num contexto de forte bipolarização, no concelho, além de transferência direta de votos do PSD para o PS, este último conseguiu captar votos que os restantes partidos perderam, sendo que os restantes votos terão ido para (engrossar) a abstenção

P.S: Nos debates pré-eleitorais fiquei a saber que 50 contribuintes que pagam IMI pagam 18% da receita deste imposto apurada no concelho e que, a crer no que disseram os candidatos dos dois partidos com maior implantação no concelho, o famigerado Hotel do Parque irá mesmo ser intervencionado (mesmo que para ser demolido em parte, pelo menos, em uma das soluções apresentadas) nos próximos quatro anos.

A Escola e a nação

(...)

4.Muitos, ainda não compreenderam a escola. Repetem que a educação não traz o desenvolvimento. Sempre pensei que o assunto havia sido encerrado por Ortega y Gasset na sua célebre conferência de 1930: "Quando uma nação é grande, também é boa a sua escola. Não há nação grande se a sua escola não for boa. Mas o mesmo deve dizer-se da sua religião, da sua política, da sua economia e de mil coisas mais. Se um povo é politicamente vil, nada se pode esperar da escola mais perfeita. A escola, como instituição normal de um país, depende muito mais de um ambiente público em que se integra do que do ambiente pedagógico artificialmente produzido dentro dos seus muros". Mas não. De tempos a tempos, temos de ouvir a ignorância de quem não entende que a escola é um lugar de humanidade, isto é, da arte e da ciência que forma os seres humanos. Não sendo uma condição suficiente, a escola é uma condição necessária do desenvolvimento.

5.Ler livros difíceis dá muito trabalho. A música dá muito trabalho. A matemática, também. Mas é nessa "dificuldade" que está a chave da educação. Não é fácil educar num tempo de gestos superficiais, de palavras irresponsáveis. Mas é preciso. Só se educa pelo exemplo. É por isso que os bons professores são tão necessários. Nada os substitui. Na educação, nada substitui a relação humana. "O meu professor me ensina para quando eu ganhar meu dinheiro eu ir morar bem longe do tiro com a minha mãe", escreve um aluno de oito anos do Rio. Não há nada mais importante do que adquirir na escola a possibilidade de ir "morar" num outro lugar.

6. 20 de Junho de 2017. O professor Roberto Ferreira é homenageado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No início da sessão, há um estampido na ligação do microfone. Uma criança ao meu lado assusta-se: "Ui!, outro tiro". A rede municipal tem mais de 1500 escolas. No decurso do último ano, houve apenas sete dias em que todas as escolas estiveram abertas. Nos outros dias, houve sempre escolas fechadas por causa da violência. "É muita guerra que eu vejo mesmo", diz uma criança. A violência tornou-se a regra. E quando a violência se torna a regra, deixa de haver educação e desenvolvimento.

 (...)
António Sampaio da Nóvoa, Rio de Janeiro, 1 de Setembro de 2017. O corredor da música, in JL, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.8

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O rico e a agulha (II)


A tradução e notas de Frederico Lourenço acerca do dito de Jesus sobre a agulha e o rico desmentem o que Luc Ferry escreveu no seu mais recente livro (a propósito de Mateus 19, 24):

"Atendendo à imagem presente na literatura rabínica de um elefante a passar através do buraco da agulha, é certo que os evangelistas sinópticos se estavam mesmo a referir a um camelo. Abandonada, por também carecer de fundamentação objectiva, está a ideia em tempos aventada de que o camelo era um portão muito estreito que dava acesso à cidade de Jerusalém (Nolland, p.795). Essa interpretação trazia um certo consolo a todos quantos quisessem juntar os dois projectos de vida (ser rico; ser cristão)" (p.123, do Primeiro Volume da Tradução da Bíblia que Frederico Lourenço está a empreender, este dedicado aos Quatro Evangelhos do Novo Testamento).

O Catolicismo face ao Ambiente

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A Igreja Católica e o ambiente: doutrina e testemunhos


O Cristianismo não encontrou uma resposta idêntica ao lento processo de formação do que hoje se pode designar como crise ecológica, ou crise global do ambiente. Católicos, Ortodoxos e Protestantes responderam em tempos e modos diversos, como bem notou Lynn White, Jr., há quase meio século.  No caso português, talvez uma das primeiras manifestações de preocupação com a salvaguarda do ambiente, onde a Igreja Católica assumiu um papel de destaque, se encontre na fundação do Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português, cujas raízes remontam a Maio de 1923. Ao longo de quase um século de actividades, este movimento tem desempenhado um notável e pioneiro papel no desenvolvimento da consciência ecológica de muitas gerações de jovens, traduzida numa atitude de respeito pela integridade da paisagem natural, e um respeito pela diversidade biológica.
Pessoalmente, registo dois testemunhos que considero relevantes (...). No Outono de 1986, num período em que presidi a uma organização ambientalista na cidade de Setúbal - o Projecto Setúbal Verde - tive ensejo de travar uma longa e fascinante conversa sobre as implicações filosóficas e teológicas da protecção das espécies em perigo com o então bispo de Setúbal, D.Manuel Martins. Na altura, essa notável figura do clero estava no centro das atenções públicas pelo modo corajoso e frontal com que denunciara o aumento exponencial da pobreza e da degradação das condições sociais da Península de Setúbal. A sua palavra muito contribuiu para a realização de um importante Plano de Emergência, que canalizaria fundos e recursos que em muito contribuíram para minimizar o sofrimento e as carências de muitas centenas de famílias.
Mas nesse dia de Outono, a conversa que mantivemos a sós - num diálogo entre um jovem professor e ecologista e um dos mais respeitados pastores da Igreja Católica em Portugal - tinha como objecto criaturas ainda mais desprotegidas, e completamente destituídas de voz: as cegonhas brancas, que, nessa altura, se encontravam em acelerado recuo populacional em Portugal. Dom Manuel Martins mostrou ter um coração suficientemente amplo para dinamizar o papel que os membros do clero poderiam desempenhar na protecção dos ninhos, e na educação dos crentes para o respeito por essas criaturas tão profundamente instaladas no nosso imaginário cultural. Poucos anos depois, a população de cegonhas recuperava, em zonas críticas como o distrito de Setúbal, encontrando-se hoje completamente fora de perigo no nosso país
O segundo testemunho, mais recente, foi suscitado por um amável convite do falecido cardeal-patriarca, D.José Policarpo (1936-2014) para se organizar uma reunião no Mosteiro de S.Vicente de Fora, em 6 de Junho de 2008, com meia centena de personalidades com fortes responsabilidades na área ambiental, nos planos político, científico, educativo, cívico e cultural. Numa altura em que o debate internacional já se encontrava bem marcado pela temática crucial das alterações climáticas, foi interessante verificar como tantas das mais conhecidas figuras do ambientalismo nacional tinham sido profundamente marcadas por uma educação católica, alimentando enormes expectativas sobre o grande potencial resultante do maior envolvimento da Igreja nesta causa ecuménica de primeira grandeza.
No plano doutrinário, contudo, a visita do Papa Francisco situa-se no momento de maior maturidade conceptual do Catolicismo universal em relação aos problemas ambientais
Acertadamente, João Paulo II designou o Santo de Assis como o patrono dos ecologistas. Com a sua recente e incontornável Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco situa-se na linha direta do pensamento desta figura maior do Cristianismo.
Para S.Francisco, a natureza não se reduz a um mero valor instrumental. Como que antecipando o advento do mecanismo cartesiano, em que a nossa civilização continua mergulhada (as versões do mecanismo têm-se sofisticado, "digitalizado", mas o núcleo semântico permanece inalterável). No triângulo metafísico representado por Deus-Homem-Criaturas, Francisco de Assis assinala e acentua a vizinhança ontológica da humanidade relativamente a todas as outras criaturas (seres vivos ou entidades físicas, como a "Irmã Chama"). Nesse gesto procura São Francisco obter um duplo efeito: primeiro, chamar a atenção para o verdadeiro abismo metafísico que é aquele que existe entre Criador e Criatura, entre a génese do Ser e o universo das criaturas, onde o homem tem um lugar ao lado de todos os outros entes; segundo, prevenir ou reduzir a arrogância antropocêntrica face às outras criaturas, insistindo em que o único privilégio da razão humana deveria ser o da responsabilidade pelo correcto cuidado do mundo, abrindo caminho para uma prudente e sustentável (para usar uma expressão dos tempos actuais) habitação da Terra.
A crise ecológica está mergulhada no mistério da história. Como nos diz o Papa, no capítulo III da Laudato Si, ela tem uma raíz humana. Uma perigosa combinação entre tecnologia e globalização aliada a uma visão desumana da economia, como processo de acumulação e reprodução de capital, e não como meio para vencer a pobreza e emancipação dos indivíduos e dos povos. Nessa poderosa aliança reside a fonte de muitos dos males e ameaças à nossa civilização. Não se trata tanto de colocar em causa cada um desses elementos de modo autónomo e isolado (tecnologia, globalização, economia de mercado), que correspondem a capacidades e necessidades humanas, mas sim de compreender os laços patológicos que actualmente os unem numa errada hierarquia de valores.
O segredo do futuro, passará por uma nova recomposição dos laços entre esses poderosos campos de experiência e da ação, numa nova aliança destinada a reconciliar História e Natureza. Sem essa recomposição, tanto a Terra como os mais pobres e deserdados continuarão a ser devorados no altar de uma concepção de crescimento, sem valores que a limitem e lhe confiram propósito. Que a visita do Papa a Portugal em 2017 possa servir de estímulo para que todos nós, seja qual seja a nossa postura religiosa ou política, saibamos assumir a nossa responsabilidade ética como cidadãos do mundo, face aos desafios escatológicos deste tempo.

Viriato Soromenho Marques, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.26 

[o texto integrará uma obra colectiva e monumental, comemorativa da recente visita do Papa Francisco a Portugal, intitulada "Portugal Católico: A Beleza na Diversidade", a sair com a chancela da Círculo de Leitores]

Da secção "prendas de Natal"




"Maria Callas Live 1949-1964" reúne 20 óperas em 42 CD e três 'blu-ray', todas elas lendárias, testemunhos dos grandes encontros, com os mais importantes intérpretes da época. E, acima de tudo, dos anos de ouro de Maria Callas, da sua glória nos palcos, do seu génio - um génio único usado a favor do canto, da música, sempre ciente do risco, numa entrega sem limites", assim a descrição de Maria Augusta Gonçalves, no JL, sobre a edição da Warner Classics. 

Rei Lear


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"Apesar de ser um texto de teatro, tem uma componente literária fortíssima, sendo uma obra muito complexa e extensa, que fala de muitas coisas, talvez de quase tudo", adianta o encenador [Bruno Bravo]. "Por isso, a ideia não foi fazer o todo porque exigiria dinheiro que não existe, um tempo de trabalho praticamente impossível, pelo número de personagens e por tudo o que envolve. Pensamos antes em iluminar uma parte". Surgiu assim Lear, que estreia a 16, no Teatro Nacional D.Maria II (TNDMII), pelos Primeiros Sintomas.
E o que se ilumina em Lear? Interessou a Bruno Bravo, desde logo, a ideia de um rei que perde tudo, o reino, as filhas e a razão. "Ao perder-se tudo, o que resta de humanidade?", interroga-se o encenador. E essa é uma das perguntas centrais do espectáculo. "É uma questão que dialoga com um plano mais filosófico, mas também com o que sentimos a nível quotidiano". Sobretudo em tempos de crise, em que se põe com particular agudeza a hipótese de se perder tudo, tendo nós "por garantidas coisas que não o são".
Lear fala sobre a perda, a loucura ou sobre a família como "um lugar de absoluta violência, em que os pais querem matar os filhos, os irmãos uns aos outros"."Fazemos igualmente uma reflexão sobre a própria peça que Shakespeare escreveu no séc.XVII, mas que se passa num tempo anacrónico, bárbaro, em que Lear pode ser o primeiro rei ou o início da Europa, da ideia de Ocidente", salienta ainda Bravo. "E, no final, tudo se desmorona. É uma peça muito pessimista, como se a verdade e a pureza não tivessem lugar no mundo. Há todo um simbolismo no texto que nos interessou".
Também o "valor das palavras ditas" foi tomado como fulcral na abordagem dos Primeiros Sintomas, quer na estética do espectáculo, quer a nível de interpretação. "Lear é como se fosse um livro, com uma parte sonora forte, através do texto e do modo como se representa, mas também da música, criada por Sérgio Delgado, a partir de coros", salienta ainda. "Quisemos explorar uma vertente mais lírica nesta peça, sempre num equilíbrio entre o drama, a emoção, e a poética". (...)
A missão [de interpretar o velho rei Lear] (...) foi entregue à atriz Paula Só. (...) A tradução é de João Paulo Esteves da Silva, músico e poeta, o que não terá sido indiferente no caso. Além do mais, um apaixonado por Shakespeare. "É uma belíssima tradução de tal forma que o texto é mais uma personagem do espectáculo", diz Bruno Bravo, para quem encenar o dramaturgo britânico não deixou de "meter algum medo". "É uma peça difícil, acho mesmo que Shakespeare é um dos autores mais difíceis de fazer em português, e por isso angustia um pouco, mas é um imenso desafio.

[esta encenação de Rei Lear vai passar por Vila Real]

[JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.22, peça de Maria Leonor Nunes]

Adolescentes e a cultura


Na mais recente entrevista ao JL, Tiago Rodrigues, director artístico do Teatro Nacional D. Maria II volta - como em outras entrevistas - a enfatizar a importância de aposta cultural num público adolescente, muitas vezes descurado nas programações culturais, e essencial de trazer às salas de espectáculo se se pretende formar públicos para futuro. Indo além das visitas pela(s) escola(s), procurando fomentar o gosto que leve o adolescente e os amigos, agora por vontade própria (não já acompanhando os pais enquanto crianças; não já por imposição da escola) aos espaços de cultura da cidade:

"Ainda este ano, teremos no Salão Nobre um conjunto de conferências sobre temas fundamentais da adolescência (...) Temos a convicção que é nessa fase que é interrompida a relação com o teatro. E acreditamos que o adolescente não pode ir ao teatro apenas no contexto escolar, embora trabalhemos com mais de 150 escolas. Tem que vir de mote próprio, escolher vir sozinho ou com amigos. Por isso, queremos que esse espaço exista e com legitimidade artística".

[JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.23, entrevista conduzida por Maria Leonor Nunes]

Sobre a felicidade e outros enganos


Para Luc Ferry, é muito mais fácil de determinar o que nos faz infelizes do que o que nos garante a felicidade - e isto, porque considera que não existindo algo como uma "natureza humana", essencial e imutável, tal implica que o que nos pudesse garantir um bom estádio de realização própria está vedado ao nosso conhecimento. Daqui resultam, ainda, dois precipitados: a) todas as receitas sobre como garantir a felicidade - nas quais estamos imersos e encharcados - são uma fraude intelectual (os livros de auto-ajuda e quejandos); b) a própria definição exacta de felicidade é de muito difícil, ou impossível, acesso. Momentos de alegria, de serenidade, de bem estar pessoais, sim. Saber o que seria uma felicidade (contínua) muito mais difícil.
Por outro lado, ainda, Ferry sustenta que o que nos faz estar contentes, com momentos de alegria, serenidade - amor, amizade, uma profissão - está ligado indissociavelmente ao que nos faz infelizes - o luto stricto senso, a separação, a perda, o desemprego...Não há, assim, uma via tão direta - e sem regresso/retrocesso - a um estado feliz, ou há uma antinomia indeclinável na felicidade (seja lá o que isso for) com o seu reverso.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Balanço de 120 meses de crise


A duração da actual crise financeira já ultrapassou por larga margem as anteriores crises sistémicas que a Europa viveu desde o início da década de 70. Segundo um relatório do Banco Central Europeu (BCE), publicado recentemente, as crises europeias - países da União Europeia e Noruega - duraram, em média, 50 meses e a sua gestão pelas autoridades estendeu-se por mais 24 meses. Esta crise financeira que chegou à Europa em Agosto de 2007, já leva 120 meses no total e a sua gestão ainda não terminou. O BCE continua com medidas extraordinárias no terreno e só a partir de Dezembro poderá começar a reduzir gradualmente a dose de compra de activos. Nos EUA, o processo de desmame da política monetária vai mais adiantado, mas continua, ainda assim, longe de regressar à normalidade (...) Portugal é um exemplo: foi um dos que mais utilizou a política orçamental em 2009, acabou resgatado em 2011 e a apertar o cinto entre 2010 e 2013 e agora é um dos países da Europa onde a política orçamental mais deverá contribuir para o crescimento até 2018.
A política orçamental, nomeadamente a 'moda' da austeridade com a crise da dívida soberana a partir de 2010, teve um papel importante no double dip (recaída na recessão) da zona euro em 2012 e 2013. O que marcou a viragem na crise foi a chegada de Mario Draghi ao BCE. (...) Baixou juros até zero, injectou doses massivas de liquidez no sistema financeiro, fez discursos decisivos e trouxe os QE para a Europa. (...) Ficaria célebre a sua frase proferida em Londres, em Julho de 2012, de que faria "tudo o que for necessário para preservar o euro". Draghi levou o BCE a fazer o que, de facto, era preciso, após três anos de austeridade, que levaram a que cinco economias periféricas integrassem o 'clube' das maiores contracções orçamentais (...) A própria 'locomotiva' da zona euro, a Alemanha,registou um aperto orçamental acumulado, entre 2011 e 2013, de 8% do PIB. (...)
A crise financeira nasceu no crédito hipotecário de alto risco (subprime) dos EUA, mas foi no continente americano que mais rapidamente morreu (...). A economia americana teve apenas um ano de recessão - 2,8% em 2009 - e voltou a crescer a partir daí. Logo em 2010 bateu o nível pré-crise e, desde então, a maior economia do mundo já acumulou um crescimento de 24%. Do lado de cá do Atlântico, a zona euro tem andado a soluçar. Caiu 4,5% em 2009, voltou a crescer em 2010 e 2011, mas, com a crise da dívida soberana que arrastou vários países para resgates, teve uma recaída em 2012 e 2013. Só em 2015 voltou ao nível pré-crise. O desemprego está em 9,1%, enquanto nos EUA está já com uma taxa de 4,3%, quase pleno emprego. Os diferentes desempenhos dos dois gigantes são, em larga medida, resultado das respostas dos seus responsáveis políticos. A Fed agiu mais cedo e de forma decisiva, algo que o BCE só fez a sério quando Draghi chegou no final de 2011. E a política orçamental foi bastante diferente
Enquanto nos EUA os dois pacotes orçamentais de 2008 e 2009 de resposta à crise somaram 1,5 biliões de dólares (mais de 1,1 biliões, no câmbio da altura), representando cerca de 10% do PIB, a União Europeia (UE) fica-se, em Novembro de 2008, pelo anúncio de um Plano de Recuperação Económica, advogando um impulso orçamental de €200 mil milhões, cerca de 1,5% do PIB. Mesmo em 2010, já depois de sofrida uma contracção do PIB muito superior na zona euro do que nos EUA, a política orçamental continuou expansionista em Washington, enquanto na área da moeda única foi claramente contraccionista (...) No conjunto dos três anos, o impulso orçamental na zona euro foi inferior a 3% do PIB, enquanto nos EUA foi de cerca de 6%. No plano da actuação dos bancos centrais, a diferença de intervenção é abissal. "A Fed agiu rapidamente no corte das taxas de juro e no arranque do quantitative easing, muitos anos antes", refere Charles Wyplosz, professor do Graduate Institute de Genebra, na Suiça. De facto, o BCE só quase sete anos depois da Fed lança um programa de QE, em Março de 2015, quando em Washington já se terminara esse tipo de intervenção no ano anterior. E, com um atraso de quase oito anos, desce a taxa de juro de referência para zero.
Também na gestão da crise bancária a Europa revelou fraquezas. Para Barry Eichengreen, professor da Universidade de Berkeley, nos EIA, essa é "a principal diferença" em relação aos EUA. "A Europa fez menos para limpar o seu sistema bancário. Os seus testes de stresse eram mais fracos". O pico do crédito malparado registou-se logo em 2009 nos EUA e só três anos mais tarde na União Europeia. Ainda no final de 2016, o peso do crédito mal parado na UE era de 5,1%, enquanto nos EUA não passava de 1,5%. Wyplosz recorda que "a Autoridade Bancária Europeia e as autoridades nacionais afirmavam que a 'limpeza' dos bancos estava completa, umas semanas antes de os problemas emergirem".
E conclui: "Mesmo dez anos depois, as recentes falências em Espanha, Itália e Portugal fazem-nos questionar se o trabalho está mesmo concluído".

João Silvestre e Jorge Nascimento Rodrigues, Mundo evitou Grande Depressão 2.0, suplemento Economia, Expresso nº2338, 19-08-2017, pp.10-11.