É verdade que a jeremiada com que o padre Paneloux começa por tratar, no primeiro sermão, a epidemia que se abateu, em Abril de 1940, sobre Orão, recorda, em muito, o Padre Malagrida do Terramoto de 1755 (ou os pastores evangélicos do início do século XXI, face ao furacão Katrina). Os céus rebentariam de ira divina como resultado da devassidão humana. Um deus retributivo mostraria, assim, a sua face mais colérica e o humano arrostaria com as consequências de ter criado Sodoma e Gomorra. E, no entanto, Paneloux junta-se à equipa sanitária voluntária que acompanha hora a hora os doentes da epidemia, nunca deserta, é, claramente, um homem de bem que sofre a bom sofrer com o sofrimento da criança que cai nas malhas da peste, passando (esta) horrores até à morte (mesma). Suplica e suplica. Rieux, o médico, não pode, num raro acesso de fúria, evitar um escárnio sobre a teodiceia: "Ah! Aquele [a criança], ao menos, estava inocente e o senhor bem o sabe!" (p.186) [pelo menos, a criança estava inocente e não foi por fazer o mal, portanto, que teve como paga o sofrimento atroz por que passou, até perder a própria vida]. E, radicalmente, o clínico rejeita a criação - uma criação na qual uma criança é torturada ("E hei-de recusar até à morte esta criação em que crianças são torturadas", p.187; "A dor inflingida a estes inocentes nunca deixara de lhes parecer o que era na verdade, um escândalo", pp.183-184). A indignação/revolta contra o mal como habitada pela própria presença do bem, como único modo de presença do Bem (com maiúsculas); Deus presente na pergunta pelo mal que não é naturalizado, nem tratado com indiferença, como diria João M. Duque. O padre Paneloux responde a Rieux: "Ah, doutor - exclamou ele com tristeza -, acabo de compreender aquilo a que se chama graça!" (p.187).
Não apenas a desconstrução de uma dada ideia de Deus - como vingativo; "eu tenho outra ideia de amor", atira Rieux, p.187 - se faz por aqui, como, adicionalmente, as observações do médico - "os cristãos falam por vezes assim sem que realmente o pensem. São melhores do que parecem" (p.111); "fico satisfeito por o saber melhor do que o seu sermão"(p.132), alertam para as palavras ditas mecanicamente sem nelas se advertir com caridade, o problema da pura retórica ou superioridade moral (o texto esclarece que Paneleux, no segundo sermão já falou, não na segunda pessoa do plural, mas na primeira; já não foi o "vós, pecadores impenitentes..."), como, ainda, nos termos hodiernos do Papa Francisco, o problema da realidade ser superior à ideia: "Paneloux é um estudioso. Não viu morrer bastante e é por isso que fala em nome de uma verdade. Mas o mais modesto padre de aldeia, que administra os seus paroquianos e que ouviu a respiração de um moribundo, pensa como eu. Esse acudiria à miséria antes de querer demonstrar-lhe a excelência" (p.112).
As falhas que se possam assinalar a Paneloux não obstam a que a aposta, a escolha de fundo, total, sem mas, por parte deste, sejam a da inteligência mais profunda e fecunda: se Rieux recusa a criação por nela haver crianças inocentes a sofrer, Paneloux considera que justamente, neste umbral definitivo, a confiança absoluta no Cristo que na cruz se junta a todas as vítimas inocentes e anónimas da história se torna, sem matizes nem meias tintas, a entrega total e imperativa a fazer; ter fé será essa queda (sem tibiezas, e no "crer tudo" da homilia do segundo sermão se encontrará, evidentemente, a fortiori, a ressurreição; nunca haverá nenhuma justiça final, uma vez mais a vexata quaestio, para as vítimas inocentes da História se a ressurreição não é a realidade última): "Pois, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante na Terra do que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento arrasta com ele, e as razões que é preciso encontrar-lhe. No resto da vida, Deus facilitava tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele punha-nos entre a espada e a parede. Nós estávamos, assim, sob as muralhas da peste e era à sua sombra mortal que nos era necessário encontrar o nosso benefício. O padre Paneleux recusava até as oportunidades que permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podia compensar o seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Com efeito, quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor na Sua carne e na Sua alma. Não, o padre ficaria ao pé da muralha, fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o símbolo, frente a frente com o sofrimento de uma criança. E diria sem temor, aos que o escutavam nesse dia: «Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem, de entre vós, ousaria negar tudo? (...) Era tudo ou nada" (p.192-193). Quando, neste contexto, o padre Paneloux falava da "aceitação total" (p.193), não remetia para uma "banal resignação", "nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação (...) Só assim o cristão a nada se pouparia e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial" (p.193).
No seu penúltimo livro, Teoria da Fronteira, José Tolentino Mendonça exortava a prática dos exercícios espirituais e neles o concretizar da exclusão das meias medidas para agarra a vida, por fim, pelos colarinhos: "arriscando em vez dos tropeços habituais/a queda infinita" (p.75). E, no seu recentíssimo O pequeno caminho das grandes perguntas, retoma: "é necessário decidir entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la permanentemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos" (p.14). Ou, dito ainda de outro modo, "a fé contemplada no Evangelho é, sobretudo, uma arte do risco. Crer é arriscar crer, como amar é arriscar amar" (p.35).
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