Em sentido preciso, nunca houve universidade no Portugal contemporâneo. Houve, e há, ensino universitário de alta qualidade científica e pedagógica, mas não universidade enquanto tal. Uma aluna que, concluído o ensino secundário, se inscreve numa universidade e se licencia em geologia, poderá vir a ser iniciada nesse domínio do saber de um modo excepcional, e nada nos leva a duvidar de que o seja. O confinamento curricular num único domínio do saber torna, todavia, a sua formação exclusivamente vocacional, e a universidade que a dispensa um mosaico de escolhas vocacionais. Não é claro em que consista a natureza universitária de uma formação mono-disciplinar e vocacional, a não ser que «formação universitária» signifique, neste contexto, «formação especializada avançada», a qual poderia ser obtida pela frequência de um instituto de investigação dedicado em exclusivo a esse domínio monodisciplinar; um tal instituto, por essa sua redução de âmbito a um único domínio, nunca será uma universidade, embora possa ser parte de uma (nem o Caltech, nem o MIT são, neste sentido, uma universidade, como o não seria o Instituto Superior Técnico ou a Academia Militar, se reduzidos a si mesmos).
O nosso argumento aqui não se funda no sentido original da palavra «universidade», que, como por vezes erradamente se julga, denotaria o «lugar onde se cultiva o conhecimento universal» (embora nos pareça que uma universidade deva ser exatamente isso). O sentido original da palavra é outro: uma «corporação» de mestres e alunos. Se algum argumento se pode deduzir do sentido original do termo é o de ser o ensino de licenciatura, e não a investigação, a actividade central de uma universidade. Esta centralidade da licenciatura explica que muitas das mais importantes universidades existentes tenham sido inicialmente relutantes em acolher a investigação e o ensino pós-graduado, tendo algumas delas afastado do campus as infra-estruturas que a actividade de investigação tornava necessário criar - laboratórios, por exemplo. (...)
A inexistência de uma universidade enquanto tal não é uma singularidade portuguesa, mas, com algumas excepções, uma realidade europeia. O modelo vocacional é aqui dominante (...)
António M.Feijó e Miguel Tamen, A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.20-22
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