A ideia de universidade que defendemos funda-se em três posições simples e antigas. A primeira é a de que a universidade não deve visar fins úteis. A segunda é a de que deve oferecer aos seus alunos o acesso a todos os domínios do saber. A terceira é que deve ser autónoma de todos os poderes, e gerir-se a si mesma.
Se a primeira posição parece etérea ou contra-intuitiva, considere-se a pequena parábola de alguém que queira inscrever-se num curso que o Estado tenha impedido de abrir num dado ano lectivo, por não satisfazer o requisito legal de empregabilidade dos seus licenciados, geologia, por exemplo. (...) Se o candidato responder que não procura emprego, mas apenas estudar geologia, ser-lhe-á respondido que não poderá fazê-lo por o estudo da geologia não lhe garantir emprego. O candidato insistirá que não quer emprego, só quer estudar geologia, prosseguindo, deste modo, sem fim aparente que não o cómico involuntário, um diálogo de surdos. Este inconclusivo diálogo trai, no entanto, uma posição do Estado face á ciência, a de a considerar de um ponto de vista exclusivamente prático (no sentido mais trivial deste termo).
As ciências, constituídas e especificadas em disciplinas, estão decerto entre os mais altos feitos da espécie. A geologia formaliza, sob a espécie conceptual e histórica, clara e distinta, uma parte da experiência e do mundo que, até à emergência e especificação dessa formalização disciplinar, se mostrou enigmática, sem uso, ou com um reduzido elenco de usos. O abandono ou redução de uma disciplina científica são destrutivos de um domínio da ecologia racional da espécie, árdua e cumulativamente construída por gerações de investigadores. Até mesmo do ponto de vista prático, tal negligência é imprudente, por não ser claro que eventual situação futura, lesiva da espécie, a disciplina possa ser chamada a responder. A razão maior do valor da universidade é hoje relativamente imperceptível. Pode, no entanto, ser formulada de modo preciso, mesmo se num vocabulário quase desaparecido: a criação e a aprendizagem de uma disciplina científica induzem uma forma de contentamento intelectual, e são um bem em si mesmas.
É este valor que constitui o sentido da designação «artes liberais», dada pela universidade, desde o seu início, às disciplinas que a constituem. A designação «liberal» tem aqui um sentido preciso. (...) Na definição do cardeal Newman, na mais influente descrição moderna da ideia de Universidade, o conhecimento liberal «funda-se nas suas pretensões próprias, é independente de sequelas, não espera complemento, recusa-se a ser informado por qualquer fim, ou absorvido por qualquer arte prática, para devidamente se apresentar a si mesmo á nossa contemplação».
Uma definição mais económica, a do filósofo britânico Michael Oakeshott, define «liberal», neste contexto, como significando «liberto da dispersiva actividade de satisfazer necessidades contingentes». O oposto de «liberal» é, pois, «servil» ou «regulado por um extrínseco fim prático». (...) Uma educação «liberal» é (...) a aprendizagem da participação naquilo a que se chama uma «cultura», termo habitualmente equívoco que, na definição de Oakeshott, denota «a totalidade daquilo que um conjunto associado de seres humanos criou para si mesmo, para além da satisfação evanescente das suas necessidades imediatas». A noção de «cultura», tal como nela se acolhem os domínios do saber estudados na universidade, denota aqui não uma doutrina, mas um «encontro conversacional» que pode ser, e muitas vezes é, argumentativo no tom. Cada disciplina ou domínio do saber constitutivo do conhecimento liberal, a geologia por exemplo, é uma linguagem específica unicamente acessível através da literatura particular que a fixa, a da exemplaridade e especificação do seu ensino por professores e alunos. Na definição de Oakeshott, uma cultura é o dissonante coro de vozes que num mesmo lugar se encontram e colidem numa conversa ininterrupta. A educação liberal é uma iniciação a essa conversa, a delimitação de um tempo em que os alunos ouvirão diferentes vozes e modos de enunciação, num espaço que deverá ser alheio a imperativos «práticos» que as conjunturas sempre, suposta e urgentemente, ditam. O que de importante se passa numa universidade ocorre num grupo de pessoas que falam entre si, durante um certo tempo, numa sala.
António M.Feijó e Miguel Tamen, A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.23-25
[Na universidade medieval, as «artes liberais» eram constituídas por dois sub-conjuntos disciplinares: o trivium, que incluía a gramática, a lógica e a retórica, e o quadrivium, que incluía a aritmética, a geometria, a astronomia e a música]
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