sábado, 30 de setembro de 2017

O descampado


A vida tem a forma de um grito

Muitas vezes aquilo que somos projeta-se numa pergunta em forma de grito. E esse grito é uma espécie de interpelação dirigida ao outro para encontrar uma resposta, um ponto de apoio sem o qual sentimos que nos perderíamos. 
Nascemos assim, e esse modo acompanha-nos a vida inteira, mesmo se os nossos gritos se tornam depois tendencialmente inaudíveis de tão silenciosos. Mas estão lá, para quem os quiser ouvir. O grito expressa, por um lado, o descampado da vida. Sozinhos, descobrimo-nos expostos à contingência, desarmados diante da sua vertigem, invadidos por uma sensação de impotência e perigo. Mas o grito reitera, por outro lado, e de maneira inequívoca, até que ponto a presença do outro nos é imprescindível. Sem a resposta do outro a nossa vida definharia, permaneceríamos uma interrogação a tatear os muros noturnos do tempo, seríamos apenas uma vontade de viver que não chega verdadeiramente a consumar-se. Cabe ao outro atender o nosso grito, transformando-o numa palavra humana, interpretando-o como um pedido de amor.
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». Dá que pensar que, no cimo da cruz, Jesus viva os últimos instantes transformado num grito.

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.76

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