sábado, 16 de setembro de 2017

O problema do livre-arbítrio, segundo Luc Ferry


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Reforça-se: para o filósofo Luc Ferry, a felicidade tem um carácter antinómico, isto é, o que nos faz felizes é também responsável pelos momentos de infelicidade. Reparemos na liberdade: como poderíamos ser felizes na servidão? Mas, sendo a liberdade a opção de escolha entre diferentes hipóteses, muitas vezes verdadeira e terrivelmente dilemáticas, estar perante essa decisão é, em si mesmo, causa de infelicidade. Neste âmbito, Ferry começa por colocar o binómio felicidade/liberdade como pólos alternativos: prefiro ser feliz, mesmo que à custa da liberdade (não é que esta última não seja relevante, mas na ordem dos valores, podemos, eventualmente, concebê-la num plano secundário), ou prefiro ser livre, ainda que à custa da felicidade? Entre os autores que se situariam na primeira das opções, de acordo com este pensador, estariam, de modo mais ou menos controverso segundo interpretações diversas - e penso em especial nos campos em que Ferry coloca Hans Jonas ou Rousseau - Hobbes, Marx, a ecologia política - é citado Hans Jonas); entre os que se filiariam na segunda das opções, estariam Rousseau, Kant, Tocqueville.
Em nome da felicidade (Hobbes), da sabedoria (Espinosa) ou da serenidade (Nietzsche) fomos tendo, inclusive, a pura e simples negação da existência da liberdade (livre-arbítrio). Ferry concede: "a liberdade e a responsabilidade são fardos, factores incontestáveis de perturbação, que nos impedem de andar à roda [dançar]". E isto porquê? "Desde que eu esteja convencido de que o mundo poderia ser diferente do que é, que eu poderia ter agido de forma diferente no passado ou que deveria corrigir o tiro no futuro, então é certo que a perturbação se instala na minha vida. Digamos as coisas francamente: o sentimento da liberdade, a convicção de que existem possíveis, de que o curso do mundo poderia ser outro, pode deixar-nos acordados durante a noite, estragar-nos o sono" (p.147). O facto de a liberdade poder ser perturbadora é motivo suficiente para a considerarmos inexistente? "Será isso uma razão para negar a nossa liberdade? Duvido, e, sem a menor hesitação, se eu tiver de escolher entre a felicidade e a liberdade, opto, seja qual for o custo, pela segunda, sem entrar sequer no debate metafísico sobre o seu carácter ilusório ou não, pois o debate que desde sempre opõe o kantismo e o espinosismo parece-me impossível de decidir, «infalsificável», como dirá Popper. Pelo que estou convencido de que a única categoria filosófica que nos permite pensar de maneira adequada as relações da liberdade e da felicidade é a do trágico no sentido que os gregos tinham dado a este termo. Porque o trágico designa em primeiro lugar os dilaceramentos do mundo engendrados pelas nossas escolhas livres e resolutas, dilaceramentos que, decerto, arruínam a vida de quem os vive, mas são inseparáveis daquela liberdade sem a qual eles já não se considerariam mais como seres humanos dignos desse nome - pelo que o exercício do seu livre-arbítrio soberano tem primazia sobre a preocupação com o seu bem-estar" (pp.147-148)

Luc Ferry, Sete lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017

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