terça-feira, 31 de outubro de 2017

Tudo é permitido


Os anarquistas, os terroristas e os déspotas florescem sempre nestas circunstâncias em que há enfraquecimento espiritual e psicológico.

Pankaj Mishra, Tempo de raiva, 2017, p.63

DESIGUALDADE (VI)


Três dilemas políticos importantes com que nos deparamos actualmente: (1) Como irá a China lidar com as crescentes expectativas de participação e de democracia da sua população? (2) Como irão os países ricos gerir várias possíveis décadas de nenhum crescimento da sua classe média? e (3) Irá a ascensão dos 1 por cento de topo a nível nacional e mundial conduzir a regimes políticos de plutocracia ou, na tentativa de apaziguar os «vencidos» da globalização, de populismo?

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, p.18

DESIGUALDADE (V)


O nosso mundo é, ainda hoje, um mundo em que o local onde nascemos ou vivemos tem uma enorme influência, talvez até determinando até dois terços dos rendimentos que recebemos durante a nossa vida. Chamo «renda de cidadania» à vantagem de que beneficiam as pessoas que nascem em países ricos.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, p.17

DESIGUALDADE (IV)


Agora, pela primeira vez desde a Revolução Industrial há dois séculos, a desigualdade no mundo não está a ser impulsionada por disparidades crescentes entre países. Com os aumentos dos rendimentos médios em países asiáticos, as disparidades entre países têm, na verdade, vindo a diminuir. Se esta tendência de convergência económica prosseguir, não só irá conduzir a uma redução da desigualdade no mundo, como também atribuirá, indiretamente, uma relevância relativamente maior às desigualdades dentro dos países. Dentro de sensivelmente 50 anos, poderemos regressar à situação que existia no início do séc.XIX, quando a maior parte da desigualdade no mundo se devia a diferenças nos rendimentos dos britânicos ricos e pobres, russos ricos e pobres ou chineses ricos e pobres e não tanto ao facto de os rendimentos médios no Ocidente serem superiores aos rendimentos médios na Ásia.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, p.17

DESIGUALDADE (III)


Distingo ainda dois tipos de forças que diminuem a desigualdade: forças «malignas» (guerras, catástrofes naturais, epidemias) e forças benignas (educação mais amplamente acessível, maiores transferências sociais, tributação progressiva). Destaco também o papel das guerras, que nalguns casos podem ser provocadas por uma elevada desigualdade a nível nacional, por insuficiente procura agregada e pela busca por novas fontes de lucro que exigem o controlo sobre outros países. As guerras podem conduzir a reduções da desigualdade mas também, infelizmente, e sobretudo, a reduções dos rendimentos médios.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, p.16.

DESIGUALDADE (II)


[Nesta obra documentam-se três grandes fenómenos do último quarto de século] (1) a ascensão daquilo a que se pode chamar a «classe média mundial», estando a maior parte situada na China e noutros países da «Ásia renascida»; (2) a estagnação dos grupos no mundo rico que se encontram numa boa situação financeira a nível mundial, mas que, a nível nacional, se inserem na classe média ou média baixa e (3) o surgimento de uma plutocracia mundial.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, p.15

DESIGUALDADE


A ascensão da Europa Ocidental e da América do Norte na sequência da Revolução Industrial deixou a sua marca na desigualdade no mundo, intensificando-a. Mais recentemente, o crescimento rápido de vários países asiáticos tem tido um impacto igualmente significativo, empurrando a desigualdade no mundo novamente para níveis inferiores. E os graus de desigualdade nacionais, quer aumentando em Inglaterra durante o início do período industrial ou na China e nos Estados Unidos da América (EUA) nas décadas recentes, também tiveram implicações mundiais.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo.Uma nova abordagem para a era da globalização, Actual, 2017, p.14

Não deixar ninguém para trás



Digo isso no livro. E creio que estamos todos a aprender que é verdade. Não quero armar-me em profeta, mas é bastante óbvio o que está a acontecer. Se olhar para a história do século XX, ela ensina que a democracia no Ocidente nem sempre foi estável, longe disso. A ascensão do nacionalismo, do populismo, do racismo, do fascismo, das políticas extremistas foram mais a norma do que a vitória dos valores democráticos. E esta vitória está longe de estar assegurada. Se a história de 1917 nos ensina alguma coisa, é precisamente que temos de defender esses valores. Não apenas mantendo-os legal e moralmente, mas defendendo também novas ideias sobre a justiça social. Quando se deixa que demasiada gente fique para trás, se sinta como a perdedora da história, essa gente acaba por encontrar a salvação para o desespero nessas ideologias de violência, de extremismo, de movimentos revolucionários, venham eles da esquerda ou da direita Como é que, na era da globalização, se valorizam as ideias de justiça social é o verdadeiro desafio.

Orlando Figes, autor de A tragédia de um povo, em entrevista a Teresa de Sousa, no Público. Aqui: na íntegra.

Histórias, no Grémio


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Quando se fala na falta de narradores, de contadores de histórias, nos nossos dias - e creio que, provavelmente, se fala com razão; sentimos que vamos perdendo os últimos dos que ainda dominam a arte -, a noite de ontem, no Grémio Literário de Vila Real, na evocação de Camilo de Araújo Correia, pelos dez anos do seu desaparecimento, contou com uma dessas avis rara, o psiquiatra Dr. Louzã Henriques, de Coimbra, cuja intervenção, envolta em uma liturgia de palavras pesadas delicadamente, uma elegia, convicta e convincente, da fraternidade e amizade (nas repúblicas coimbrãs dos anos 50), o retrato de carácter do homenageado, seus irmãos, terra, família, companheiros de boémias e letras, com a erudição de quem conhece bem a literatura - portuguesa e universal -, e fala por entre cuidados silêncios, vocábulos que nos aconchegam, intuições e vislumbres de um futuro de reunião plena (noutras dimensões) e sabe de cor a matéria dos néctares e conhece o tempo e o modo de os criar, fala da terra, de pais e filhos e seus carinhos e/ou severidades, tornou a noite em locus amenus
Ainda que à evocação da personalidade, de um tempo e espaço, depois faltasse, uma vez mais, uma aproximação estritamente literária: a medida do cronista, o porquê de aí - na crónica, mas ainda na dedicatória - ser grande, os meios em que escreveu, quando escreveu, as características que nesse contexto o diferenciavam, que estética e ética eram suas. O retrato humano fez-se; do retrato literário, pouco se disse.

domingo, 29 de outubro de 2017

Uma história do presente?

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A modernidade criou promessas (como se não houvesse constrangimentos à sua efectivação) de emancipação (individual) que não conseguiu concretizar. A civilização democrata e liberal, de indivíduos (emergentes, supostamente) cultos e endinheirados não teve a eficácia almejada. Em muitas sociedades, a combinação de uma apertadíssima competição, a rápida obsolescência dos indivíduos (ou das capacidades destes) e o seu carácter supérfluo (quando não ao encontro do que a sociedade comercial dos seus dias reclama), a ansiedade do status (e de poder) por concretizar (despida esta, ainda para mais, das amarras, ou, paradoxalmente também, do conforto de sistemas de castas, fossem estas propriamente ditas/formalizadas, fossem materialmente presentes nas sociedades), o aumento da riqueza mas a sua repartição excessivamente desigual; a perda das filiações (instituições que ancoravam a pessoa) e do sentido de pertença; as ambições, esperanças, expectativas, a ideia de progresso - tudo por cumprir e a desmoronar-se (passando-se para a ideia de retrocesso dos níveis de vida, muito presente nos nossos dias); a globalização e seus perdedores; as religiões ou a família, a comunidade depreciadas/menosprezadas fizeram com que estes abalos sísmicos de um mundo plano na vivência do espaço-tempo encontrasse um espaço desmedido para o ressentimento que, em se tendo sentido no Ocidente logo no pós-Revolução Industrial, gerando um conjunto de massas alienadas e prontas à glorificação da violência, encontram, hoje, num mundo completamente interligado, o seu semelhante mesmo no dito outro civilizacional: para os que não conseguem pensar fora das reduções binárias, torna-se difícil, porventura, compreender o porquê das semelhanças entre as práticas apocalípticas dos ditos fundamentalistas de hoje - com certeza, com as suas especificidades e idiossincrasias, a história não é pura repetição -, com contornos paralelos aos de há cem anos (a Ocidente) e mesmo no séc.XIX. O ponto (político), para Pankaj Mishra, é o do ressentimento e a manipulação e aproveitamento de líderes de pouca espessura intelectual, mas furibundos trauteadores dos bodes expiatórios que a massa produzida espera convocam o caos e o sem lugar para o qual se dirigem.
Notas: as promessas desmedidas com que o político - de todos os quadrantes ideológicos - semeou desmesuradas expectativas (naturalmente, por cumprir); uma tradição mandada borda-fora (e colocada, no entender de outros, também em causa, em um mundo interdependente e com migrações em grande escala), sem suficiente ponderação, em sociedades que descuram qualquer equilíbrio (ou balizas, qualquer noção forte de Bem para além de Justo, mesmo a nível societal que não seria, necessariamente, o do Estado); a glorificação de um individualismo sem individualidade, dos agentes egoístas e racionais (redutora descrição do humano); a redução da pessoa a indivíduo, numa sociedade puramente comercial e competitiva; uma globalização que, tendo diminuído a pobreza, aumentou a desigualdade no interior dos países e levada a uma expansão que coloca em causa a própria democracia (o trilema de Rodrick); a queda das instituições, da comunidade, da imaginação (quer dizer, de qualquer ideal, de qualquer ideia outra, o fim do sonho).





"Muitos leitores (...) recordar-se-ão do período de esperança que se seguiu à queda do Muro de Berlim em 1989. Com o desmoronamento do comunismo soviético, o triunfo universal do capitalismo liberal e da democracia parecia garantido. Os mercados livres e os direitos humanos foram considerados a fórmula certa para os milhares de milhões de pessoas que tentavam vencer a pobreza mais degradante e a opressão política; as palavras «globalização» e «Internet» inspiraram, nessa era de inocência, mais esperança do que ansiedade quando entraram no discurso comum (...) Ao longo das últimas duas décadas, as elites de muitos antigos países socialistas começaram a defender um ideal de liberalismo cosmopolita: a sociedade universal do comércio dos indivíduos racionais e egoístas, defendida no século XVIII por pensadores do Iluminismo como Montesquieu, Adam Smith, Voltaire e Kant. E, na realidade, vivemos hoje num mercado mundial, vasto e homogéneo, em que os seres humanos estão programados para maximizarem o seu egoísmo e o seu interesse pessoal e aspirar às mesmas coisas, independentemente da sua diferença em matéria de antecedentes culturais e temperamento individual (...) Mas a civilização universal - a que encontraria harmonia pela combinação do sufrágio universal, pelo alargamento das oportunidades educativas, pelo crescimento económico constante, pela iniciativa privada e pelo progresso pessoal - não se materializou.
A globalização - caracterizada pelo capitalismo apátrida, pela aceleração das comunicações e pela mobilização rápida - enfraqueceu por todo o lado as antigas formas de autoridade, tanto nos países social-democratas da Europa como nos regimes despóticos árabes, e fez emergir uma quantidade de novos e imprevisíveis protagonistas internacionais, dos nacionalistas ingleses e chineses aos piratas somalis, passando pelos traficantes de seres humanos, pelos hackers anónimos e pelo Boko Haram. (...) A disseminação do ódio contra os imigrantes, as minorias e os vários «outros» tornou-se banal e entrou no mainstream - mesmo na Alemanha, onde a política e a cultura pós-nazis foram fundadas no preceito «Nunca Mais». Pessoas a espumarem de aversão e de maldade (...) tornaram-se uma visão habitual nos meios de comunicação social (...) O racismo e a misoginia rotineiramente visíveis nas redes sociais e a demagogia no discurso político revelam agora aquilo que Nietzsche, ao referir-se aos «homens de ressentimento», designou por «um reino globalmente trémulo de vingança subterrânea, inesgotável e insaciável nas suas erupções» (...) Esta obra adopta uma perspectiva muito diferente de uma crise universal, transferindo a carga absurdamente pesada das explicações do islão e do extremismo religioso. Nela defendemos que a desordem sem precedentes nos domínios político, económico e social que acompanharam a ascensão da economia capitalista industrial no século XIX, e que conduziram a guerras mundiais, regimes totalitários e genocídio na primeira metade do século XX, está agora a infetar regiões e populações muito mais vastas; e que, expostas em primeiro lugar à modernidade pelo imperialismo europeu, grandes partes da Ásia e de África estão agora a mergulhar nas profundezas fatídicas dessa modernidade tal como o Ocidente a viveu.
O âmbito desta crise universal é muito mais vasto do que a questão do terrorismo ou da violência. Os que por rotina evocam um choque de civilizações à escala mundial, em que o islão se encontra em oposição ao Ocidente e a religião entra em choque com a razão, não são capazes de explicar muitas doenças políticas, sociais e ambientais. E mesmo os expoentes da tese do «choque» podem achar mais esclarecedor reconhecer, sob a camada da retórica quase religiosa, as profundas afinidades intelectuais e psicológicas que os alegres aficionados islâmicos do Califado do ISIS partilham com D'Annunzio e muitos outros radicais laicos, igualmente extravagantes, no século XIX e no início do século XX: os estetas que glorificavam a guerra, a misoginia e a piromania, os nacionalistas que acusavam os judeus e os liberais de um cosmopolitismo sem terra e festejavam a violência irracional e os niilistas, anarquistas e terroristas que florescem em quase todos os continentes num cenário de cómodas alianças político-financeiras, crises económicas devastadoras e desigualdades obscenas. Devemos regressar às convulsões desse período para compreendermos os nossos próprios tempos de raiva. Porque os franceses que punham bombas em espectáculos musicais, cafés e na bolsa de Paris no final do século XIX, e para o jornal anarquista francês que publicou um apelo para a «destruição» do «covil» (um teatro de espectáculos musicais em Lyon), onde «a fina-flor da burguesia e do comércio» se junta depois da meia-noite, têm mais em comum com os jovens da União Europeia inspirados pelo ISIS que massacraram quase 200 pessoas num espectáculo de música rock e em bares e restaurantes em Paris em Novembro de 2015
Grande parte da nossa experiência parece-se com a dos povos no século XIX. Os nacional-socialistas alemães, e depois os italianos, apelavam para uma «guerra santa» mais de um século antes de a palavra «jiade» entrar na linguagem comum (...) O messianismo revolucionário - a urgência de uma solução global e definitiva, a ideia do partido como seita de crentes fiéis e do chefe revolucionário como herói semidivino - prosperara entre os estudantes russos que rejeitavam a crueldade e a hipocrisia dos soberanos da família Romanov. Então como agora, o sentido de humilhação perante as elites arrogantes e enganadoras generalizou-se, atravessando fronteiras nacionais, religiosas e raciais. (...)
Numa mudança a uma escala maciça e que não tem sido devidamente apreciada, as pessoas começam a ver-se na vida pública em primeiro lugar como indivíduos com desejos e interesses (...) Na era da globalização que nasceu depois da queda do muro de Berlim, a vida política passou a ser preenchida como exigências ilimitadas de liberdade e satisfação individuais. Com início na década de 1990, uma revolução democrática de aspirações varreu o mundo, fazendo eclodir a procura ansiosa de riqueza, de estatuto e de poder, além dos desejos já comuns de estabilidade e de satisfação, nas circunstâncias menos favoráveis. As ambições igualitárias libertaram-se das velhas hierarquias sociais, como as castas na Índia e as classes em Inglaterra. A cultura do individualismo tornou-se universal, tomando formas que nem Tocqueville nem Adam Smith (...) conseguiram prever. (...) As crises de anos recentes puseram a nu o enorme fracasso que foi concretizar ideais de expansão económica sem limites e a criação da riqueza privada. Muitos dos recém-criados «indivíduos» trabalham no duro dentro de comunidades sociais e políticas criadas com pouca imaginação e/ou em países de soberania enfraquecida. Não sofrem apenas do facto de que, como escreveu Tocqueville noutro contexto, «os laços, os apoios e as restrições tradicionais foram deixadas para trás juntamente com a garantia do valor pessoal e da identidade do indivíduo». O seu isolamento também se intensificou com o declínio ou a perda das ideologias pós-coloniais associadas ao nation-building pós-colonial e do abandono da social-democracia pelas elites tecnocráticas globalizadas. Desse modo, indivíduos com passados muito diferentes dão por si pastoreados pelo capitalismo e pela tecnologia em direcção a um presente comum, em que a distribuição grosseiramente desigual da riqueza e do poder gerou novas hierarquias humilhantes. Esta proximidade, ou aquilo que Hannah Arendt chamou «solidariedade negativa», é tornada mais claustrofóbica pelas comunicações digitais, pelo aumento da capacidade de fazer comparações movidas pela inveja e pelo ressentimento (...) Ao mesmo tempo, as contradições arrasadoras de um sistema económico dinâmico, que se revelaram pela primeira vez na Europa do século XIX - assomos tecnológicos de inovação e crescimento contrabalançados pela exploração sistémica e pelo empobrecimento generalizado -, ganham uma dimensão universal. Muitos desses choques de modernidade foram, em tempos, absorvidos pelas estruturas sociais herdadas da família e da comunidade e pelas almofadas previdenciais do Estado. Hoje, os indivíduos estão-lhes diretamente expostos numa era de concorrência acelerada diretamente expostos numa era de concorrência acelerada em campos desiguais onde é fácil sentir que já não há sociedade nem Estado e que o que existe é só uma guerra de todos contra todos. (...) Na primeira metade do século XX, não foram só os nazis e os fascistas que abraçaram as teorias do darwinismo social, modernizando-as freneticamente. O apoio a esta perspectiva atravessou a Europa e a América e as classes cultas e ambiciosas da Turquia, da Índia e da China (...) E também se tornou claro como os esquemas da expansão e satisfação humanas, oferecidos pela esquerda, pela direita e pelos liberais e tecnocratas «centristas», raramente consideraram os factores de constrangimento que são um espaço geográfico finito, recursos naturais degradáveis e ecossistemas frágeis. Até há pouco tempo, os decisores políticos não levavam a sério esses constrangimentos, nem sequer os consideravam e muito menos previam que um desfecho do crescimento industrial e do consumismo mais intenso seria o aquecimento global. (...) Conforme os mercados globalizados e voláteis restringem a autonomia de acção dos Estados-nação e os refugiados e os imigrantes desafiam as ideias dominantes de cidadania, de cultura nacional e de tradição, o pântano de medo e insegurança expande-se. Capturados por uma febre competitiva, e incentivados pela possibilidade de que estão condenados a perder, mesmo os que só são relativamente abastados têm tendência a inventar inimigos - socialistas, liberais, um alienígena de rosto escuro na Casa Branca, os muçulmanos - e a responsabilizá-los pelos seus próprios tormentos interiores. (...)
Em 1914, explodiu na Europa uma grande euforia quando rebentou a guerra. A violência e o ódio foram, para muitos, uma promessa de libertação da venialidade, que destruía a alma, e do tédio da sociedade burguesa. Mas o culto de Napoleão e do chauvinismo beligerante já haviam projectado durante o século XIX um mal-estar nascido da perda da fé religiosa e uma crise severa da masculinidade. (...)
Dostoiévski já havia notado, com perspicácia, como os indivíduos formados para acreditarem numa noção elevada de liberdade e soberania pessoais, e depois confrontados com uma realidade que cruelmente as cancelava, podiam romper com a sua ambivalência paralisante, lançando-se no homicídio gratuito e na revolta paranóica - podvig, que era o conjunto das proezas espirituais espectaculares a que aspiravam as personagens de ficção de Dostoievski (...)
Retrospectivamente, a revolta de Gabriele D'Annunzio em Fiume cristalizou muitos temas do nosso próprio fermento global além dos da sua época, espiritualmente agitada: a emancipação ambígua da vontade humana, os desafios e os perigos da individualidade, o anseio de um novo encantamento, a fuga ao tédio, as utopias dementes, a política da acção direta, a rendição aos grandes movimentos de normas severas e chefes carismáticos e o culto da violência redentora. (...)  Vestindo a política com uma roupagem estética, este predecessor dos militantes do streaming em direto dos dias de hoje delineou um desfecho provável para um mundo em que, como escreveu Walter Benjamin, a auto-alienação da humanidade «alcançou um patamar tal, que pode viver a experiência da sua própria destruição como prazer estético de primeira grandeza (...)
Esta experiência específica da liberdade individual vivida no vácuo é agora endémica, tanto entre os habitantes do mundo «desenvolvido» como os dos mundos «em desenvolvimento» e «subdesenvolvidos». E é por isso que muitos países «em modernização», com a literacia a aumentar e as taxas de fertilidade a caírem, se encontram em conjunturas políticas e emocionais que já nos são familiares na história do mundo «modernizado». As taxas de suicídio e de depressão, para usarmos estatísticas reveladoras, subiram em flecha em países com economias de rápido crescimento. Tal como o número de jovens bombistas suicidas que se lançam nas suas próprias versões de podvig
O vácuo moral e espiritual está de novo repleto de expressões anárquicas de individualidade e de procuras loucas de religiões de substituição e de modos de transcendência (...)
As duas maneiras pelas quais a humanidade se pode aniquilar a si própria - uma guerra civil à escala mundial ou a destruição do ambiente natural - estão a convergir rapidamente. (...)
As análises materialistas que invocam as abstracções da nação e do capital, que seguem o movimento das mercadorias, as mudanças drásticas nos sistemas climatéricos e o crescimento da desigualdade por intermédio das técnicas da estatística, da sociologia quantitativa e do historicismo continuarão a ser indispensáveis. Mas a nossa unidade de análise também devia ser o simples humano, os seus medos, desejos e ressentimentos. É na relação instável entre o eu interior e o eu público que se pode começar a medir com maior precisão a guerra civil global dos nossos tempos."

Pankaj Mishra, Tempo de raiva. Uma história do presente, Temas e Debates, 2017, p.14-48

sábado, 28 de outubro de 2017

Francisco e a política



*E Dominique Wolton, o entrevistador de Francisco, em entrevista ao DNHá um mistério da Igreja. Se fizermos uma análise de sociologia política clássica, a Igreja é um aparelho de poder. Mas isso não explica porque é que dura há 2000 anos. Com tão pouco homens, tantos massacres e tantos erros. Por isso é preciso procurar outros mecanismos explicativos. A Igreja não hesitou, no último século, em eleger Papas totalmente anticonformistas. Os cardeais não conheciam bem Jorge Bergoglio, mas rapidamente o nomearam Papa. (...) É muito político, mas é preciso explicar que a sua política vem em primeiro lugar da espiritualidade. É sua visão do mundo, através dos Evangelhos, que lhe dá um sentimento de ira, de revolta e de condenação dos ricos, dos poderosos. E a atenção aos pobres, aos excluídos. (...) Ou melhor, acha que os ricos têm de cumprir o seu dever: dar, dar, dar. Mas voltando à pergunta: sim, acho que Francisco veio no momento certo. É aí que reside o génio da Igreja Católica. João Paulo II acabou com o comunismo. Francisco veio pôr todos os contadores a zero. Há uma capacidade nesta instituição antiquada, burocrática, fechada, para surpreender.

Sob o manto da indiferença (VI)


Recorde-se que em França, o primeiro país europeu com um Conselho Nacional de Bioética, nomeado por François Mitterrand em 1983, as chamadas leis de Bioética eram inicial e obrigatoriamente revistas todos os cinco anos e actualmente são-no todos os sete anos, tal a consciência da respectiva sensibilidade e do efémero que nelas se pode plasmar - a próxima revisão está prevista para 2018 e qualquer projecto de reforma é objecto de um debate.

Miguel Oliveira da Silva, Eutanásia, suicídio ajudado, barrigas de aluguer, Caminho, 2017, p.55

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Lear



Logo, estarei pelo Teatro de Vila Real.

Empréstimos a universitários


Em 2007, no ensino universitário público (...) apenas 1% dos alunos admitiu ter contraído empréstimos destinados ao financiamento dos estudos.

António M.Feijó e Miguel Tamen, A Universidade como deve ser, FFMS, 2017, p.54, nota de rodapé 29

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Para adultos

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A lei portuguesa (entre outras) prevê a possibilidade de pessoas sem licenciatura fazerem mestrados e doutoramentos. No livro A universidade como deve ser, os dois académicos que o redigem, António M. Feijó e Miguel Tamen, assinalam a páginas 55 (nota de rodapé 32): "A tese de doutoramento de um candidato admitido nestas condições no programa de pós-graduação a que estamos associados foi publicada pela Cambridge University Press". Ou seja: tivemos aqui um não licenciado que fez uma tese de doutoramento publicada na editora de uma das mais respeitadas universidades do mundo. Para quem tem a visão quadrada dos doutores e não doutores, deve ser um choque; para quem percebe, com facilidade, que não é o "dr" (ou "eng", ou "arq.") que distinguem - mesmo ao nível do conhecimento, de forma necessária - as pessoas (antes, a curiosidade intelectual, o mundo, a paixão pelo saber, o gosto de cultivar-se, o ser hoje mais sábio do que ontem), isto é perfeitamente plausível.

Conferência "A utilidade dos saberes inúteis" - Nuccio Ordine




O Utilitarismo tudo domina, tudo corrompe

Estamos tão dominados pelo utilitarismo que sempre que fazemos alguma coisa nos perguntam: “para que é que serve?”. “Para que é que serve ler um poema”, “para que é que serve ouvir um concerto?”, “para que é que serve estudar sânscrito, latim ou grego”, “para que é que serve o Museu do Prado, ou um museu no mundo?”. No universo do utilitarismo em que vivemos, um martelo vale mais do que um quadro, uma faca vale mais do que um poema, uma chave inglesa vale mais do que uma sinfonia – porque é fácil perceber, na nossa sociedade, qual é a eficácia de uma ferramenta, ao passo que é cada vez mais difícil saber para que é que poderá servir a música, a literatura ou a arte.
Vivemos numa sociedade em que qualquer coisa tem que ser medida, pesada, traduzida em números. Uma coisa, para existir, tem que ter uma quantidade, mas a qualidade já não interessa a ninguém. Qualquer coisa, para ter valor na nossa sociedade, tem que ter valor monetário, tem que ser considerada mercadoria. E, porém, na nossa humanidade nem tudo pode ser considerado mercadoria. É perigoso reduzir tudo a mercadoria e números. Existem instituições e valores que deveriam ser defendidos desta deriva utilitarista. Onde se cortam os fundos? Na Saúde, na Educação, nas Bibliotecas, nos Arquivos, tudo o que poderá ser considerado Cultura em Geral. Porque isto não produz lucro e o que não produz dinheiro, não presta.
Terríveis consequências desta lógica. Quatro pontos onde o utilitarismo está a entrar e não devia: educação, património artístico, investigação científica e a nossa vida de relação.
Não se vai para a faculdade para obter uma licenciatura – ao contrário do que pensam os estudantes que lá chegam. Se não, seriam uma fábrica de licenciaturas. Na universidade e nos liceus, os estudantes vão para aprender, para conhecer, podes tornar-te livre, uma pessoa culta (que estudou por amor) e, aí sim, podes desempenhar uma profissão. Os estudantes são puros e somos nós que os corrompemos. Quando dizemos: “Tu tens que ir à universidade e licenciar-te”: aí estamos a corromper o estudante. O Estudante vai à universidade pelo conhecimento, para ser melhor pessoa. O importante não é chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem, da riqueza dos encontros que ela proporciona. Na Itália, um filho de um político comprou uma licenciatura na Albânia com dinheiro do Estado: era estúpido antes de ter esse papel e assim se manteve depois de ter esse papel.
Quando daqui a 100 anos, aqueles que sabiam sânscrito, grego ou latim desaparecerem – em virtude de não darem lucro a uma universidade – em havendo um achado arqueológico (em qualquer país), com caracteres naquela língua, ninguém saberá ler uma epígrafe. Ninguém saberá ler um documento. Os arquivos do Estado serão queimados, porque não servirão para nada, pois as pessoas têm que compreender documentos do século XV ou XIV e o que nós estamos a criar é uma sociedade sem memória. Como podes compreender o presente e prever o futuro, senão compreendes o passado?
As duas primeiras palavras que o estudante universitário aprende são “créditos” e “débitos”: as palavras nunca são neutras e aqui estamos a usar palavras da economia, e aqui usamos palavras da economia perversa. A ideia hoje prevalecente na universidade é o “fast”: temos que licenciar rapidamente as pessoas. Ora, Nietzsche dizia para perceber e compreender é preciso ir devagar. Há uma necessidade de “slow Learning” (à semelhança do “slow food”). Em Itália, a este nível, estamos a viver uma loucura, com grandes cortes na Educação – mas penso que é o mesmo em toda a Europa. Com Renzi, houve até um aumento da dotação orçamental em mil milhões para a Educação. Mas como foram gastos? Em computadores e quadros ligados à internet. Isso significa que para a classe política italiana e europeia, a escola moderna é uma escola onde cada rapaz tem um computador na carteira. Mas se o tiveres, e não tiveres conteúdos, de que te serve o computador?
A meu ver a escola moderna deve estar centrar na relação professor-aluno; hoje, os professores passam a vida em reuniões, a preencher papéis, passam de um conselho para outro. E ensinam de má vontade, parece que esse é o último dos seus objectivos. Eles deviam levar paixão e amor (pelo estudo, pelo conhecimento) aos seus alunos. Nós amamos as disciplinas em que encontramos professores que fizeram que as amássemos.
No Japão, há agências que alugam amigos.
Quando pergunto a 500 estudantes quantos não têm facebook, no primeiro ano da faculdade, há cinco que levantam timidamente a mão. Então e porque têm facebook?, pergunto. E respondem-me: porque lá temos 1500 amigos. E eu digo: fica a saber que um homem, no fim da vida, se teve 3 amigos pode gabar-se de ter sido muito rico.
Hoje não conseguimos compreender que a música, a filosofia, a arte, a beleza são o que mais precisamos para uma humanidade mais humana.
Entre a corrupção e a evasão fiscal perdemos milhares de milhões que dariam para todas as apostas na educação e na cultura. Vítor Hugo dizia que nos momentos de maior crise temos que duplicar o investimento na educação e na cultura: a par do pão para a vida, quero o pão para o pensamento que é igualmente essencial para a vida. Era preciso multiplicar as escolas, os teatros, as bibliotecas, todas as instituições em que aprendemos, em que nos tornamos melhores (discurso de 1800 e que continua válido).

Com o dinheiro pode comprar-se tudo, mas não o saber – que é fruto de um esforço individual que ninguém pode fazer por nós. Sem sacrifício e esforço não podemos ter o prazer do conhecimento. O saber pode ser partilhado sem ninguém perder (alguma coisa). Neste sentido, enfraquece a lógica de mercado.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Terceira guerra mundial aos pedaços

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Pankaj Mishra, em Tempo de raiva. Uma história do presente (Temas e Debates, 2017, p.15), como que corrobora a tese do Papa Francisco de uma (presente e em curso) terceira guerra mundial aos pedaços. Senão, vejamos:

"Têm irrompido em anos recentes actos de violência selvagem em vastas extensões de território: guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, atentados de bombistas suicidas na Bélgica, em Xinjiang, na Nigéria e na Turquia, revoltas que vão do Iémen à Tailândia, massacres em Paris, na Tunísia, na Florida, em Daca (Bangladesh) e em Nice. As guerras convencionais entre os Estados ficam diminuídas pelas guerras entre terroristas e contraterroristas, insurgentes e contrainsurgentes e há também guerras económicas, financeiras e cibernéticas, guerras em torno da informação e travadas no próprio terreno da informação, guerras pelos negócios da droga e das migrações e guerras entre milícias urbanas e grupos das máfias.
Os historiadores do futuro, provavelmente, poderão encarar este caos descoordenado como começo da terceira das guerras mundiais, que será a mais prolongada e a mais estranha e a que, na sua ubiquidade, se aproximará de uma guerra civil global.
É inquestionável que se movimentam aqui forças mais complexas do que aquelas que intervieram nas duas anteriores grandes guerras. A violência, que já não está confinada a campos de batalha delimitados ou às linhas da frente, surge como endémica e ingovernável. E, o que é ainda mais invulgar, mesmo os combatentes mais visíveis desta guerra - os terroristas - são difíceis de identificar".

Entrada


Foi o poeta italiano Gabriele D'Annunzio quem inventou a saudação de braço estendido que os nazis mais tarde adoptaram.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Sob o manto da indiferença (V)


No livro de Miguel Oliveira da Silva, Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer (Caminho, 2017, p.161, nota de rodapé 1):

Houve, já, 4 casos de crianças, nascidas através de barrigas de aluguer, no Canadá, que tiveram de ser dadas para adopção, já que nem a grávida de substituição, nem o casal beneficiário as quiseram.

sábado, 21 de outubro de 2017

MUITO BOM


Bárbara Wong entrevista Nuccio Ordine, no Público:




O meu livro é um grito de alarme. Quando pergunto aos meus alunos por que estão na universidade, respondem-me que é para obter um diploma. Um diploma não serve para nada! Há uma visão utilitarista da educação que mata a ideia de escola. Vamos à escola para sermos pessoas cultas! Para sermos pessoas melhores, para sermos éticos, não importa o curso. Na apresentação do meu livro, viajei de Norte a Sul de Itália e os estudantes diziam-me: “Professor, adoro os gregos e os latinos, mas os meus pais perguntam-me ‘o que vais fazer com literatura? Porque não te inscreves num curso onde possas vir a ganhar dinheiro?’ Isto é a corrupção da ideia do que deve ser a universidade! É corromper os estudantes. Temos médicos que o são porque ganham muito dinheiro e não por razões humanitárias e não pelo que prometem no juramento de Hipócrates. Esta corrupção – a ideia de ganhar muito dinheiro – atravessa a sociedade inteira, chega à política, à economia. Por isso temos corrupção no mundo inteiro. Costumo ler uma história belíssima de Kavafis [poeta grego, 1863-1933] sobre Ítaca, a história de Ulisses, que diz que a experiência da viagem é que fará de ti um homem rico, fará de ti um homem melhor. 



Contesto a ideia de que as universidades sejam empresas. A nossa missão não deve ser vender diplomas que os estudantes compram. Isso é uma enorme corrupção. A escola não pode ser uma empresa porque a lógica da educação não é a do mercado. O princípio da educação é aprender a ser melhor, para si mesmo e não para o mercado. O que vemos na City em Londres [no centro financeiro britânico] são pessoas com elasticidade mental, pessoas que vêm dos estudos clássicos ou da filosofia porque compreendem melhor o mundo do que os especialistas em economia ou programação. As consequências da Declaração de Bolonha, que veio alterar a forma como o ensino superior está organizado, são negativas? Bolonha foi muito dura para o futuro do ensino. Há coisas graves, a começar no léxico, as palavras não são neutras, têm significado, e quando as primeiras palavras que os alunos aprendem, quando chegam ao ensino superior, é “créditos” e “débitos”, impomos uma lógica da economia no ensino. As universidades recebem financiamento consoante os seus resultados, quanto mais alunos com sucesso, mais financiamento recebem, e assim baixa-se o nível para todos passarem. Ninguém vai avaliar a qualidade, só a quantidade. Deixa-se de financiar as pesquisas de base, mas se não fossem essas não seria possível fazer ciência. As grandes revoluções são fruto de pesquisas de base. Por isso, é preciso redireccionar as coisas porque o inútil de hoje pode ser o útil de amanhã. 





Na íntegra, aqui.