domingo, 8 de outubro de 2017

"A capital das lágrimas"


A capital das lágrimas

Jerusalém tem uma beleza que nos obriga a sucumbir. Não há outro lugar assim no mundo. O vozeio dos mercados, onde as especiarias se amontoam nas lojas em que se trafica o ouro, se expõe no escuro a prata e a lenda, se empilham livros, de viagens ou de orações (duas palavras sinónimas, afinal), que não só descrevem o deserto, mas que o conservam e ampliam dentro de si. O silêncio dos pátios, a nudez dos terraços que depressa nos transforma em sentinelas de mundos invisíveis, as esplanadas de pedra, as portas que se abrem para tempos interiores que nunca são iguais.
Jerusalém é a cidade do Messias e ali percebe-se porquê (não estranhem o que vou dizer): porque é a capital das lágrimas. O filósofo E.M. Cioran, esse inesperado mestre contemporâneo dos caminhos da alma, explicava que a maior dádiva da religião só pode ser essa: ensinar-nos a chorar. As lágrimas dão um sentido de eternidade ao nosso devir. Elas guiam-nos da orfandade ao êxtase. São as lágrimas a linha divisória que distingue os seres que sabem tudo dos seres que não sabem nada. E se, por um absurdo, as lágrimas se esgotassem, o nosso desejo e o nosso conhecimento de Deus desapareceriam também.

José Tolentino de MendonçaO pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.129

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