
1."Felizes os insatisfeitos, porque se tornam caçadores de tesouros" (Ermes Ronchi, 2017).
Aqui, "insatisfeitos" quer dizer aqueles que não estão acomodados, os que se interrogam, os que andam à procura, os buscadores, os desassossegados, os que não são apáticos nem indiferentes. Sempre que há um aluno assim, vale a pena sair da cama às 7h da manhã.
2."Na tradição hebraica, conta-se que no princípio Deus criou o desejo de questionar e depositou-o no coração do homem. (...) Não a nossa resposta, mas a nua pergunta é palavra de Deus, que entra em nós, como uma mão que abre caminhos e nos ensina a respirar. Uma mão especializada em nascimentos. (...) Aquele verbo, «procurar», oferece a definição do homem: nós somos criaturas de perguntas e de procura, criaturas de desejo. Prospectores de ouro nascidos do sopro do Espírito (...) «Se Deus me pusesse numa mão toda a verdade e na outra as perguntas sobre a verdade, eu escolheria a mão que interroga» (Gotthold Ephraim Lessing). (...) As perguntas abrem para a novidade; são um dom que ninguém espera, um maná para a nossa peregrinação em direcção à Terra Prometida (...) Alimentamo-nos com uma ração quotidiana de interrogações, são pão para o coração, para o espírito, maná para uma longa viagem.
Rainer Maria Rilke, nas Cartas a um jovem poeta, exorta o seu interlocutor a «viver bem cada pergunta» (...) As respostas definem, as perguntas sugerem. As definições fecham-nos, as perguntas convidam-nos a ir mais além. As perguntas são frescura, como as manhãs luminosas (...) A procura nasce de uma falta, de um vazio que pede para ser preenchido (...) E eu, do que preciso? O que é que me falta? (...) «Que procurais?» significa: qual é o teu desejo mais forte? O que é que mais desejas na vida? (...)
Jesus não pede nem renúncias, nem sacrifícios, não pede mais imolações sobre o altar do dever ou do esforço, pede, antes de mais, que entremos no coração, que o compreendamos, que conheçamos o que mais desejamos, o que nos faz felizes, o que se passa no nosso íntimo. Pede para perscrutares o coração. Para o abraçares. Para aproximares os teus lábios às nascentes do coração e para dele beberes (São Bernardo). Os padres definem este movimento como regressar ao coração, reditus ad cor. (...) O que te faz bem a ti, isso deves aprender a dar aos outros - a palavra de acolhimento, o sorriso sem fingimento, um aperto de mão caloroso (...)
O que é que eu procuro? Esta é a pergunta que abre as fechaduras do meu coração; e não outras, como: que devo fazer? Como devo ser? Não perguntemos o que devo ou não devo, mas quem sou eu; o que é que vive em mim, o que se passa no meu espaço vital. (...) É muito importante que exista alguém que nos lembre com frequência: mas tu, por quem caminhas? Que lógica te orienta? Porque estou eu aqui? (...) «Tu és para mim aquilo que a primavera é para as flores» (Giuseppe Centore [sobre Deus]). Como a chama procura pelos ares o seu próprio elemento, assim a nossa alma Te procura, como seu único elemento, seu princípio e último fim. (...)
Soren Kierkegaard afirma: «A fé está na paixão infinita do existente». Paixão pela vida e para aquilo que dela é a nascente. Pensemos que a fé, a esperança e a caridade não são ideias; são paixões, factos passionais, ou então não são nada.
Todos nascemos como seres apaixonados. A nossa vida não avança por ordens ou proibições, mas por uma paixão. Não caminha por golpes voluntaristas, mas por atracção (...) Procuro um Deus sensível ao coração, alguém que faça feliz o coração, e cujo nome é alegria, liberdade e plenitude (...) Caminho por causa de Alguém que faz feliz o meu coração" (Ermes Ronchi, As inquietantes perguntas do Evangelho, Paulus, 2017, pp.9-21)
Quando falo em "frescura", por exemplo, este passo tem como uma das características mais nítidas do discurso a clara recusa do moralismo ("Jesus não pede nem renúncias, nem sacrifícios, não pede mais imolações sobre o altar do dever ou do esforço, pede, antes de mais, que entremos no coração, que o compreendamos, que conheçamos o que mais desejamos, o que nos faz felizes, o que se passa no nosso íntimo", ou "O que é que eu procuro? Esta é a pergunta que abre as fechaduras do meu coração; e não outras, como: que devo fazer? Como devo ser? Não perguntemos o que devo ou não devo, mas quem sou eu"). Em 2017, a meu ver, isto ainda tem o travo da frescura, maxime em contexto de Igreja; dito de outro modo, a (re) descoberta de Deus como misericórdia, e se sem misericórdia não [é] Deus, leva a diferentes consequências, em particular o "legalismo", a "observância externa" a um plano outro, secundário, do que em acentuações pretéritas.
Bom dia, um abraço,
Pedro
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