A compaixão
A compaixão é uma forma de subtrair a dor à solidão que ela própria gera, dizendo àquele de quem nos aproximamos: «Não estás só, porque reconheço o teu sofrimento e tomo a tua dor, em parte, para mim».
A dor sequestra-nos num isolamento que pode atingir proporções inomináveis. A compaixão é essa peculiar relação humana que começa aí, quando precisamos de cuidado e somos positivamente correspondidos por uma presença amigável. O grito do que sofre chega-nos frequentemente sem palavras: o silêncio indefeso diz tudo, estando a vida mais nua ainda do que é habitual, o olhar ferido pela adversidade. A compaixão torna-se escuta, consonância, responsabilidade, escolha solidária, gestos, permanência. Há na compaixão a suspensão do julgamento sobre a vulnerabilidade do outro. Ela constrói-se como um consentimento oferecido ao outro como nos aparece, aqui e agora. A compaixão liberta-nos do peso do passado ou das idealizações do futuro: ancora-nos vitalmente neste instante, que é o que temos de viver.
No exercício da compaixão também se aprende o papel benéfico da «neutralidade terapêutica» e da distância afectuosa. Uma coisa é sofrer com o outro, outra é sofrer em vez do outro ou projectando-se nele. Compadecer-se significa sofrer o sofrimento do outro enquanto outro. Não se trata de uma simbiose. Sabemos que não nos cabe curar, mas que tão ou mais importante do que a cura é estarmos presentes.
José Tolentino de Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.51
Sem comentários:
Enviar um comentário