O
Utilitarismo tudo domina, tudo corrompe
Estamos
tão dominados pelo utilitarismo que sempre que fazemos alguma coisa nos
perguntam: “para que é que serve?”. “Para que é que serve ler um poema”, “para
que é que serve ouvir um concerto?”, “para que é que serve estudar sânscrito,
latim ou grego”, “para que é que serve o Museu do Prado, ou um museu no mundo?”.
No universo do utilitarismo em que vivemos, um martelo vale mais do que um
quadro, uma faca vale mais do que um poema, uma chave inglesa vale mais do que
uma sinfonia – porque é fácil perceber, na nossa sociedade, qual é a eficácia de
uma ferramenta, ao passo que é cada vez mais difícil saber para que é que
poderá servir a música, a literatura ou a arte.
Vivemos
numa sociedade em que qualquer coisa tem que ser medida, pesada, traduzida em
números. Uma coisa, para existir, tem que ter uma quantidade, mas a qualidade
já não interessa a ninguém. Qualquer coisa, para ter valor na nossa sociedade,
tem que ter valor monetário, tem que ser considerada mercadoria. E, porém, na
nossa humanidade nem tudo pode ser considerado mercadoria. É perigoso reduzir
tudo a mercadoria e números. Existem instituições e valores que deveriam ser
defendidos desta deriva utilitarista. Onde se cortam os fundos? Na Saúde, na
Educação, nas Bibliotecas, nos Arquivos, tudo o que poderá ser considerado
Cultura em Geral. Porque isto não produz lucro e o que não produz dinheiro, não
presta.
Terríveis
consequências desta lógica. Quatro pontos onde o utilitarismo está a entrar e
não devia: educação, património artístico, investigação científica e a nossa
vida de relação.
Não
se vai para a faculdade para obter uma licenciatura – ao contrário do que
pensam os estudantes que lá chegam. Se não, seriam uma fábrica de
licenciaturas. Na universidade e nos liceus, os estudantes vão para aprender,
para conhecer, podes tornar-te livre, uma pessoa culta (que estudou por amor)
e, aí sim, podes desempenhar uma profissão. Os estudantes são puros e somos nós
que os corrompemos. Quando dizemos: “Tu tens que ir à universidade e
licenciar-te”: aí estamos a corromper o estudante. O Estudante vai à
universidade pelo conhecimento, para ser melhor pessoa. O importante não é
chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem, da riqueza dos encontros que ela
proporciona. Na Itália, um filho de um político comprou uma licenciatura na
Albânia com dinheiro do Estado: era estúpido antes de ter esse papel e assim se
manteve depois de ter esse papel.
Quando
daqui a 100 anos, aqueles que sabiam sânscrito, grego ou latim desaparecerem –
em virtude de não darem lucro a uma universidade – em havendo um achado
arqueológico (em qualquer país), com caracteres naquela língua, ninguém saberá
ler uma epígrafe. Ninguém saberá ler um documento. Os arquivos do Estado serão
queimados, porque não servirão para nada, pois as pessoas têm que compreender
documentos do século XV ou XIV e o que nós estamos a criar é uma sociedade sem
memória. Como podes compreender o presente e prever o futuro, senão compreendes
o passado?
As
duas primeiras palavras que o estudante universitário aprende são “créditos” e “débitos”:
as palavras nunca são neutras e aqui estamos a usar palavras da economia, e
aqui usamos palavras da economia perversa. A ideia hoje prevalecente na
universidade é o “fast”: temos que licenciar rapidamente as pessoas. Ora,
Nietzsche dizia para perceber e compreender é preciso ir devagar. Há uma
necessidade de “slow Learning” (à semelhança do “slow food”). Em Itália, a este
nível, estamos a viver uma loucura, com grandes cortes na Educação – mas penso
que é o mesmo em toda a Europa. Com Renzi, houve até um aumento da dotação
orçamental em mil milhões para a Educação. Mas como foram gastos? Em
computadores e quadros ligados à internet. Isso significa que para a classe
política italiana e europeia, a escola moderna é uma escola onde cada rapaz tem
um computador na carteira. Mas se o tiveres, e não tiveres conteúdos, de que te
serve o computador?
A
meu ver a escola moderna deve estar centrar na relação professor-aluno; hoje, os
professores passam a vida em reuniões, a preencher papéis, passam de um
conselho para outro. E ensinam de má vontade, parece que esse é o último dos
seus objectivos. Eles deviam levar paixão e amor (pelo estudo, pelo
conhecimento) aos seus alunos. Nós amamos as disciplinas em que encontramos
professores que fizeram que as amássemos.
No Japão, há agências
que alugam amigos.
Quando
pergunto a 500 estudantes quantos não têm facebook, no primeiro ano da
faculdade, há cinco que levantam timidamente a mão. Então e porque têm
facebook?, pergunto. E respondem-me: porque lá temos 1500 amigos. E eu digo:
fica a saber que um homem, no fim da vida, se teve 3 amigos pode gabar-se de
ter sido muito rico.
Hoje
não conseguimos compreender que a música, a filosofia, a arte, a beleza são o
que mais precisamos para uma humanidade mais humana.
Entre
a corrupção e a evasão fiscal perdemos milhares de milhões que dariam para
todas as apostas na educação e na cultura. Vítor Hugo dizia que nos momentos de
maior crise temos que duplicar o investimento na educação e na cultura: a par
do pão para a vida, quero o pão para o pensamento que é igualmente essencial
para a vida. Era preciso multiplicar as escolas, os teatros, as bibliotecas,
todas as instituições em que aprendemos, em que nos tornamos melhores (discurso
de 1800 e que continua válido).
Com
o dinheiro pode comprar-se tudo, mas não o saber – que é fruto de um esforço
individual que ninguém pode fazer por nós. Sem sacrifício e esforço não podemos
ter o prazer do conhecimento. O saber pode ser partilhado sem ninguém perder
(alguma coisa). Neste sentido, enfraquece a lógica de mercado.
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