quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Conferência "A utilidade dos saberes inúteis" - Nuccio Ordine




O Utilitarismo tudo domina, tudo corrompe

Estamos tão dominados pelo utilitarismo que sempre que fazemos alguma coisa nos perguntam: “para que é que serve?”. “Para que é que serve ler um poema”, “para que é que serve ouvir um concerto?”, “para que é que serve estudar sânscrito, latim ou grego”, “para que é que serve o Museu do Prado, ou um museu no mundo?”. No universo do utilitarismo em que vivemos, um martelo vale mais do que um quadro, uma faca vale mais do que um poema, uma chave inglesa vale mais do que uma sinfonia – porque é fácil perceber, na nossa sociedade, qual é a eficácia de uma ferramenta, ao passo que é cada vez mais difícil saber para que é que poderá servir a música, a literatura ou a arte.
Vivemos numa sociedade em que qualquer coisa tem que ser medida, pesada, traduzida em números. Uma coisa, para existir, tem que ter uma quantidade, mas a qualidade já não interessa a ninguém. Qualquer coisa, para ter valor na nossa sociedade, tem que ter valor monetário, tem que ser considerada mercadoria. E, porém, na nossa humanidade nem tudo pode ser considerado mercadoria. É perigoso reduzir tudo a mercadoria e números. Existem instituições e valores que deveriam ser defendidos desta deriva utilitarista. Onde se cortam os fundos? Na Saúde, na Educação, nas Bibliotecas, nos Arquivos, tudo o que poderá ser considerado Cultura em Geral. Porque isto não produz lucro e o que não produz dinheiro, não presta.
Terríveis consequências desta lógica. Quatro pontos onde o utilitarismo está a entrar e não devia: educação, património artístico, investigação científica e a nossa vida de relação.
Não se vai para a faculdade para obter uma licenciatura – ao contrário do que pensam os estudantes que lá chegam. Se não, seriam uma fábrica de licenciaturas. Na universidade e nos liceus, os estudantes vão para aprender, para conhecer, podes tornar-te livre, uma pessoa culta (que estudou por amor) e, aí sim, podes desempenhar uma profissão. Os estudantes são puros e somos nós que os corrompemos. Quando dizemos: “Tu tens que ir à universidade e licenciar-te”: aí estamos a corromper o estudante. O Estudante vai à universidade pelo conhecimento, para ser melhor pessoa. O importante não é chegar a Ítaca, mas a experiência da viagem, da riqueza dos encontros que ela proporciona. Na Itália, um filho de um político comprou uma licenciatura na Albânia com dinheiro do Estado: era estúpido antes de ter esse papel e assim se manteve depois de ter esse papel.
Quando daqui a 100 anos, aqueles que sabiam sânscrito, grego ou latim desaparecerem – em virtude de não darem lucro a uma universidade – em havendo um achado arqueológico (em qualquer país), com caracteres naquela língua, ninguém saberá ler uma epígrafe. Ninguém saberá ler um documento. Os arquivos do Estado serão queimados, porque não servirão para nada, pois as pessoas têm que compreender documentos do século XV ou XIV e o que nós estamos a criar é uma sociedade sem memória. Como podes compreender o presente e prever o futuro, senão compreendes o passado?
As duas primeiras palavras que o estudante universitário aprende são “créditos” e “débitos”: as palavras nunca são neutras e aqui estamos a usar palavras da economia, e aqui usamos palavras da economia perversa. A ideia hoje prevalecente na universidade é o “fast”: temos que licenciar rapidamente as pessoas. Ora, Nietzsche dizia para perceber e compreender é preciso ir devagar. Há uma necessidade de “slow Learning” (à semelhança do “slow food”). Em Itália, a este nível, estamos a viver uma loucura, com grandes cortes na Educação – mas penso que é o mesmo em toda a Europa. Com Renzi, houve até um aumento da dotação orçamental em mil milhões para a Educação. Mas como foram gastos? Em computadores e quadros ligados à internet. Isso significa que para a classe política italiana e europeia, a escola moderna é uma escola onde cada rapaz tem um computador na carteira. Mas se o tiveres, e não tiveres conteúdos, de que te serve o computador?
A meu ver a escola moderna deve estar centrar na relação professor-aluno; hoje, os professores passam a vida em reuniões, a preencher papéis, passam de um conselho para outro. E ensinam de má vontade, parece que esse é o último dos seus objectivos. Eles deviam levar paixão e amor (pelo estudo, pelo conhecimento) aos seus alunos. Nós amamos as disciplinas em que encontramos professores que fizeram que as amássemos.
No Japão, há agências que alugam amigos.
Quando pergunto a 500 estudantes quantos não têm facebook, no primeiro ano da faculdade, há cinco que levantam timidamente a mão. Então e porque têm facebook?, pergunto. E respondem-me: porque lá temos 1500 amigos. E eu digo: fica a saber que um homem, no fim da vida, se teve 3 amigos pode gabar-se de ter sido muito rico.
Hoje não conseguimos compreender que a música, a filosofia, a arte, a beleza são o que mais precisamos para uma humanidade mais humana.
Entre a corrupção e a evasão fiscal perdemos milhares de milhões que dariam para todas as apostas na educação e na cultura. Vítor Hugo dizia que nos momentos de maior crise temos que duplicar o investimento na educação e na cultura: a par do pão para a vida, quero o pão para o pensamento que é igualmente essencial para a vida. Era preciso multiplicar as escolas, os teatros, as bibliotecas, todas as instituições em que aprendemos, em que nos tornamos melhores (discurso de 1800 e que continua válido).

Com o dinheiro pode comprar-se tudo, mas não o saber – que é fruto de um esforço individual que ninguém pode fazer por nós. Sem sacrifício e esforço não podemos ter o prazer do conhecimento. O saber pode ser partilhado sem ninguém perder (alguma coisa). Neste sentido, enfraquece a lógica de mercado.

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