quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Estudos Gerais


Sobre o processo de aprovação do curso de Estudos Gerais:

No decurso de uma destas discussões, quando alguém defendia pela décima vez que não havia maneira de um aluno que não tivesse tido matemática desde os quinze anos ser integrado numa disciplina de matemática de natureza universitária, um colega da Faculdade de Ciências levantou-se e, para nosso espanto e gratidão, afirmou que toda a matemática de que viesse a precisar lhe poderia ser rapidamente ensinada por qualquer professor da Faculdade de Ciências, e muito mais rapidamente do que o teria sido aos dezasseis ou dezassete anos. Aos que se queixavam da preparação deficiente que nos propúnhamos oferecer foi lembrado que não existem critérios abstractos de preparação. Saber latim, ou saber cálculo ou saber desenhar são actividades sempre medidas em relação a outras coisas. Aos que invocavam os efeitos do processo de Bolonha nos padrões de circulação dos alunos na sua universidade foi lembrado que tal circulação é meramente ficcional, e que os alunos que quisessem beneficiar dela encontravam sempre inúmeros entraves. Aos que se propunham tratar como seres extra-planetários os alunos impreparados lembrámos até à exaustão que esta licenciatura criaria pela primeira vez alunos da Universidade, e favorecia justamente a coesão da universidade. Quanto aos que duvidavam da existência de interessados, e porque o curso ainda não tinha aberto, só podíamos garantir que deveria haver algures uma população de alunos do ensino secundário com interesses diversificados, que forçados a escolher áreas científicas sentiam a falta das artes; ou que forçados a escolher áreas humanísticas sentiam falta da matemática; e que tivessem pais ou famílias que não os obrigassem a escolher o seu emprego futuro quando o seu ingresso na universidade lhes permitiria simplesmente continuar a aprender coisas novas e coisas diferentes. (...) Em meados desse ano [2010] discutia-se de novo a empregabilidade e a utilidade duvidosa do que estava a ser proposto; foram-nos por fim requeridos pareceres daquilo a que no jargão administrativo já na altura se chamava «entidades empregadoras». O desafio parecia temível, e foi a ocasião para uma das melhores surpresas que tivemos: uma após outra, quinze pessoas escolhidas pela administração, a maior parte pessoas que não eram famosas pelo carácter público do seu amor pelas artes liberais, explicaram pacientemente em pareceres circunstanciados aos órgãos cépticos da nossa universidade que o que os empregadores pretendiam era pessoas com talentos gerais que podem ser usados e treinados de muitas maneiras: pessoas que soubessem pensar, ler estatísticas, avaliar argumentos e explicar ideias; e também queriam pessoas que fossem capazes de ter ideias. Quanto à formação específica, disse-nos um empresário muito conhecido, só pode ser adquirida no local de trabalho (...)
À preocupação com a imprevisibilidade do que é novo, que nesse encontro nos foi transmitida, foi possível contrapor não ter a proposta que apresentávamos nada de inédito. A quase totalidade das vinte universidades no topo do ranking de Xangai [designação por que é conhecido o Academic Ranking of World Universities, o primeiro ranking global baseado em indicadores múltiplos, publicado desde 2003], por exemplo, tem como única licenciatura, sob outras designações, uma estrutura curricular indistinguível da de Estudos Gerais. As licenciaturas nas universidades norte-americanas são quase exclusivamente deste tipo, constituindo a sua frequência bem-sucedida um pré-requisito no acesso a cursos monodisciplinares como direito, medicina ou veterinária, os quais, pela sua natureza vocacional, são vistos como complementares ao ensino universitário stricto sensu: tipicamente, só se frequenta direito, medicina ou veterinária depois de se ter concluída uma licenciatura, mais ou menos análoga a Estudos Gerais. Propostas como as que, em Portugal, periodicamente ressurgem de incluir uma cadeira de Ética na licenciatura de Medicina ou Direito, no intuito de robustecer a deontologia da actividade futura dos diplomados, miniaturizam ineficazmente este modelo (...) O seu florescimento ulterior [o florescimento que o curso de Estudos Gerais veio a conhecer] validou a presciente decisão da agência [de o validar].

António M.Feijó e Miguel Tamen, A Universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.41-44


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