terça-feira, 3 de outubro de 2017

O que decidirá o PSD? (II)


Há umas semanas, a quando do aniversário do Público, Pacheco Pereira reflectia sobre a história do jornal e referia-se a um certo período em que este tinha sido quase uma espécie de revista de ensaios. O cronista considerava esse um desvio face ao que um jornal teria de ter como prioridade e objecto: as notícias. Se o purismo da concepção de um diário, de facto, assim o dita e, muito provavelmente, até, mesmo, o próprio modelo de negócio o reclama - o ensaio não vende demasiado em Portugal -, confesso que essa fase me interessou em particular e que uma edição como a de hoje, do referido periódico, em que, com o futuro do PSD em equação, se apresenta uma mini-colecção de ensaios (incluindo o do próprio José Pacheco Pereira) se reveste de um valor que muita notícia, com prazo inferior a 24 horas, não alcança.
Assim, hoje, encontramos nas páginas do Público a ambiguidade, complexidade, heterogeneidade (para alguns, contradição e impossibilidade de clara definição do que é o PSD): por um lado, os textos de José Pacheco Pereira e Pedro Duarte, claramente inscritos numa linha mais social-democrata; por outro, João Miguel Tavares e Paulo Rangel com uma agenda mais liberal(izadora).
Paulo Rangel como que abdica de um potencial legado por si criado no Congresso do PSD realizado a meio do mandato do anterior Governo (PSD-CDS); Pedro Duarte é o primeiro "notável" do PSD a equacionar o tema do Rendimento Básico Universal - para mencionar potenciais "vantagens" e "desvantagens"; mesmo que não, propriamente, original, só a sua menção é, em si mesma, muito significativa -, escrevendo um texto onde as questões tecnológicas, do mundo do trabalho, da desigualdade, do que é e como se organiza um partido hoje estão presentes. Um texto, o seu, bem melhor do que a intervenção por si produzida no último Congresso, e aggiornato. Havia alguma necessidade de alguém da sua geração trazer estes temas, dentro de uma tradição social-democrata.
A referida ambiguidade programática do PSD pode, ainda, ilustrar-se no modo como em abono das suas teses social-democratas, ou liberais, Pacheco Pereira ou José Miguel Júdice (este na TVI) reclamam a interpretação autêntica do pensamento de Francisco Sá Carneiro.

P.S.: os artigos do Públicoaquiaqui, aqui, aqui, e aqui.

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