segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O que decidirá o PSD?


1.Com a queda de Passos, Rui Rio (fosse qual fosse o resultado seria candidato) e Luís Montenegro estarão, por certo, no terreno a disputar as eleições internas do PSD. 

2.Tenho bastante curiosidade em perceber se o partido irá escolher o candidato que parece mais próximo do legado - do tipo de aproximação ao aparelho - de Passos (caso em que as fidelidades pessoais poderiam mostrar mais "robustez", ou "indiferença" ao contexto externo; alguns diriam, pela negativa, "ensimesmamento" do partido), ou se, pelo contrário, apesar das fidelidades pessoais, o partido, em instinto de sobrevivência fará, precisamente, a opção pela ruptura com o que se mais poderá parecer com algo como mais próximo do passismo

3.Ontem, mas desde há muito, Manuela Ferreira Leite colocou a tónica numa aproximação ideológica como principal problema do PSD: a viragem à direita teria sido tão pronunciada que imensos sectores da sociedade teriam sido perdidos pelo Partido Social-Democrata, sendo necessário recentrá-lo. Hoje, no Público, António Tavares, presidente da Mesa do Plenário do PSD-Porto, escreve, num curto texto, que o PSD "é um partido que tem uma leitura social da sociedade" (1), tem "uma visão da Economia Social de mercado" (2), "vê o papel do Estado como garante dos direitos, das liberdades e das garantias dos cidadãos" (3), "um partido que sabe a importância do Estado Social" (4), "não alienando o eleitorado do centro-esquerda para o qual representa a ambição de ser o elevador social" (5), sendo, pois, preciso "lutar por um PSD social-democrata, à portuguesa" (6) [sublinhados meus]. É de tal modo sublinhada a importância do "social" neste breve texto que fica claramente implícito que o autor entende que essa dimensão não estava salvaguarda com a actual liderança do PSD e, portanto, podemos dizer que há, aqui, uma concordância com Manuela Ferreira Leite. 
Mas outra questão que me coloco, neste contexto é: que papel desempenhará o debate estritamente ideológico na futura eleição interna do PSD?

4.Um amigo perguntava-me hoje quem pensava eu que viria a ganhar a eleição do PSD. Respondi-lhe que, se queria um palpite, a resposta é Rui Rio: Luís Montenegro não conseguiu controlar o timing político da candidatura - não fazer frente a Passos Coelho e o que ele representou, depois de ser o líder da bancada parlamentar no mais difícil período de governação laranja; uma coisa seria surgir como o "herdeiro natural" de Passos, depois deste perder as legislativas de 2019 -, surge em contra-curva (uma derrota muito grande do passismo) e, por outro lado, Rui Rio chegou-se à frente mais cedo que qualquer outro oponente a Passos. Portanto, no puro domínio da táctica, e no que os ventos do contexto político ditaram, Rio surge com algum embalo (embora, muito provavelmente, apoios como os de Miguel Relvas, ou outros, de diferente natureza, como o de Marques Mendes e até o elogio de Marcelo, possam vir a ter uma importância muito superior a esta, do tempo político, e Montenegro termine na frente). A necessidade de uma viragem; o tempo de Rio na sua proto-candidatura; um instinto de sobrevivência (ainda presente no aparelho, apesar de tudo) talvez sejam factores que colocaria como decisivos para este palpite. Veremos se esses critérios foram bem ponderados. 

5.Creio que a ideologia não terá sido o factor determinante em vários momentos da escolha de lideranças do PSD. E, para lá do PSD, as eleições, de um modo geral, têm sido muito personalizadas (desde há um bom lapso de tempo). Não afasto a hipótese de a ideologia vir a ter, nestas eleições do PSD, um papel...tático. Mas é provável que a escolha seja personalizada e, portanto, que se olhe ao candidato que aparece como o opositor a um caminho que, no momento, conheceu uma derrota clara. 

6.À partida, como Montenegro falha, um tanto, o timing; como já não há um líder (e ex-PM) a defrontar (não existindo, assim, nenhum prurido de avançar); como Rio, apesar de suscitar o apelo de certos sectores e ter tido bons editoriais durante uma parte da carreira (embora, é certo, esse período já seja algo longínquo), não fez a mais triunfante das entradas em cena durante as proto-primárias no PSD, seria de esperar que os candidatos fossem mais do que dois, na luta pela sucessão de Passos, por, à primeira vista, a eleição poder ser mais aberta e competitiva do que se poderia pensar (caso Passos não tivesse perdido de modo tão clamoroso). E, no entanto, os resultados de Lisboa talvez tenham deixado um pequeno arranhão em José Eduardo Martins, e os certificados social-democratas de Ferreira Leite ou Silva Peneda (que, segundo as notícias, terão sido convidados por Rio para um documento a apresentar ao partido) poderão limitar outras candidaturas da área das "elites", e/ou com uma dimensão mais "social-democrata".
Sem prejuízo de tal documento emergir, seria Rio a personalidade com um pensamento mais alinhado com a social-democracia, no PSD, ou, diversamente, com um perfil dito mais "economicista" e um rasgo mais autoritário?

7.As escolhas, a meu ver, deviam ser tão fundas quanto o papel de um partido hoje em dia; modo deste habitar a cidade; possibilidades de produzir e articular conhecimento e política; modos de inovar e convocar pessoas; leituras prospectivas da cidade do trabalho e da tecnologia e presença no mundo global (com que redes).

8.Não é só na política, mas é muito na política: a estigmatização dos "críticos", dos que divergem e ousam o dissenso. Hoje, seria caso para perguntar quem prestou um maior serviço ao PSD (além de a si mesmos, e ao capital perante o país): os que bateram palmas e alinharam na ortodoxia mais frenética, ou os que chamaram a atenção, com veemência, para os problemas substantivos de que era feita a política que subjazia à governação 2011-2015? Por exemplo, porque é que um texto como aquele que hoje António Tavares fez sair no Público não conheceu quase antecedentes? (alguém, com peso, no interior do PSD a questionar as opções seguidas - afora duas ou três excepções, nalguns casos muito afastadas da militância mais activa).


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