O vocábulo «omnipotente», martelado na liturgia, nunca aparece no Evangelho, nunca na boca de Jesus como atributo de Deus. Jesus é a narração não da omnipotência, mas da ternura de Deus, da sua combativa ternura. Deus é amor (...) pode somente o que o amor pode. Sua não é a potência de um cirurgião que intervém e extirpa o mal, nem a potência de um exército que destrói os inimigos, ou de um vulcão que transforma a geografia de uma ilha...Mas sua é a potência de uma semente, de um amante, de uma mãe com o seu filho amado, que não pode curar, mas mantém-se a seu lado e não o deixa só, está ali com o coração, com força e segurança, numa presença que não abandona.
Deus não é um «omnipotente que ama», um rei cheio de poder absoluto que se digna a amar; é um «Amor omnipotente», que pode amar as suas criaturas até ao extremo, até ao fundo, sem limites, como ninguém (cf. Jo 15,13). Ele é o primeiro a amar, ama perdidamente, ama sem contracâmbio. É um Deus que só pode o que o amor pode. Não é um Deus omnipotente, em conformidade com a linguagem política ou os nossos mitos humanos, que aniquila os inimigos (com efeito, as trevas persistem e o mal encontra-se ao lado do bem...), mas é um Deus omni-amante, que só pode tudo o que o amor pode.
Omni-amante significa belo, porque a norma, a regra, o nomos da beleza é o amor. Belo é todo o gesto de amor, belíssimo é quem te ama até ao extremo.
Ermes Ronchi, As inquietantes perguntas do Evangelho, Paulinas, 2017, pp.33-34
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