
Mudar o paradigma do trabalho
O trabalho vem-se tornando um problema-chave das nossas sociedades, com um impacto cada vez mais pesado e que afecta particularmente os jovens. Coexistem, por agora, no campo laboral três realidades muito distintas: a dos trabalhadores com um contrato por tempo indeterminado, que têm direitos adquiridos e um quadro de estabilidade previsível; a dos empreendedores, profissionais por conta própria ou trabalhadores de pequenas e médias empresas, que estão mais expostos à turbulência dos mercados, mas ainda assim têm os seus direitos acompanhados por associações do sector e sindicatos; e o mundo dos excluídos, com trabalho precário ou desemprego e sem qualquer representação. Este último grupo tem crescido no século XXI, e há quem o estime em torno ou mesmo acima de 1/3 da população activa. Há, por isso, uma reflexão urgente a fazer. Nos diagnósticos que circulam assomam elementos que fazem pensar: a necessidade de articular melhor os percursos formativos e o horizonte profissional (por exemplo, a taxa de estudantes universitários que iniciam os seus cursos desconhecendo as oportunidades profissionais na área escolhida permanece muito alta); a necessidade de valorizar a aquisição não só de competências técnicas mas também transversais (soft skills), que se ligam não só ao "saber fazer" mas à qualificação das experiências pessoais, à criatividade e às competências de relação; ou a necessidade de políticas para defender o trabalho humano e as suas vantagens (o World Economic Forum mostra, por exemplo, que desde 2015 o custo horário de um robô passou a equivaler ao de uma pessoa).
Na viragem que estamos a viver teremos também de enfrentar a mudança de paradigma na organização do trabalho. Uma voz interessante é a da canadiana Jennifer Nedelsky, professora da Faculdade de Direito de Toronto e conhecida pela sua proposta "trabalho a part-time para todos, actividade de cuidado para todos". Nedelsky participa há muitos anos no debate sobre cuidar e o reenquadramento (também económico) das relações sociais entre homens e mulheres, jovens e idosos, ricos e pobres. Ela adverte que sem um novo equilíbrio entre a cultura do trabalho e a cultura do cuidado será a democracia e a igualdade entre as pessoas a ressentir-se dramaticamente. No seu projecto, ninguém deveria trabalhar mais de 30 horas semanais e todo o adulto deveria dedicar-se à actividade do cuidado pelo menos 12 horas por semana. A expressão "trabalho a part-time" teria de ser revista para descrever o novo modelo do trabalho. E Jennifer Nedelsky concretiza esta revolução de mentalidades num exemplo: se hoje um homem de 30 anos, num convívio social, confessa que nunca trabalhou nem tem intenção de procurar trabalho, é alvo de reprovação dos outros, enquanto há um ou dois séculos essa atitude sinalizava pacificamente uma elevada condição social. O seu sonho - diz a autora - é que hoje, numa conversa, alguém que se apresente dizendo "nunca desenvolvi trabalho no campo do cuidar" fique envergonhado pelas reacções que colhe dos outros. Tal como levamos tempo a deslocar o respeito social da renda para a actividade laboral, teremos de fazer o mesmo em relação ao cuidar.
A própria ideia do que é o sucesso deverá ser alterada, e o espaço ocupado pelo trabalho e pelo dinheiro redimensionados, para que não permaneçamos analfabetos de dimensões humanas fundamentais. O termómetro da excelência tem de ser a vida integral e não apenas o trabalho produtivo.
José Tolentino de Mendonça, Mudar o paradigma do trabalho, in Que coisa são as nuvens, edição 2346, Revista do Expresso, 14 de Outubro de 2017, p.94
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