Os termos da carta de demissão de Constança Urbano de Sousa atiram a António Costa. Todavia, se alguém alimentava a expectativa de o Governo perder o suporte parlamentar, o debate quinzenal foi esclarecedor: tal não ocorrerá (e, diga-se, que conhecidas as linhas do OE 2018 não se compreenderia outra atitude dos partidos à esquerda do PS). Esta tarde, Hugo Soares não resistiu ao número de pequena política quando insistiu numa moção de confiança que o Executivo devia apresentar para se perceber se as esquerdas estavam unidas - como se fosse isso o mais importante do dia de hoje, e como se alguma mossa isso causasse no Governo, como se viu, de imediato, na primeira intervenção da tarde de Catarina Martins. Assunção Cristas, no tom certo, colocou o ponto: o que disseram secretário de Estado da Administração Interna, e Ministra da mesma pasta, durante a tragédia de Domingo, foi um "salve-se quem puder". Eis um tópico em que João Miguel Tavares, no Público, teve razão: não se pode ter um discurso contra uma visão (ultra)liberal do Estado e da sociedade e, simultaneamente, fazer-se o discurso de que "as populações têm que ter outra resiliência" e não podem estar à espera dos aviões e do Estado (levando a lógica da visão criticada ao paroxismo). Tavares fazia, aqui, uma analogia com o "não sejam piegas" e o "aguenta, aguenta" (da legislatura anterior), e compreende-se, com efeito, a comparação. Há uma triste dança de máscaras. E, já agora, a contrario, durante quatro anos João Miguel Tavares sustentou - e creio que continua a defender - esse tipo de visão sobre o estado (mínimo) e a sociedade, em cujo discurso se situava o governo onde esteve também Assunção Cristas.
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