A natureza humana não é certamente imutável nem perfeita, e a humanidade tem o direito e o dever de intervir na correcção das suas imperfeições. Em que condições, com que limites, e o que são imperfeições? [nota de rodapé nº2, p.29]. (...) E, talvez já num futuro não distante, a gravidez e o parto poderão vir a decorrer fora do organismo feminino, em «úteros» artificiais (ectogénese), já hoje estudados na prevenção do parto pré-termo em ovelhas.
A tecnocracia cria a sua própria normatividade, uma nova heteronomia da vontade, impondo as suas regras no mercado em novos e velhos costumes. É a tecnociência, subtraída ao controlo da Ética e da regulação política, a ditar as regras desde o início até ao final da pessoa humana.
Tecnociência que, de algo constitutivo, intrínseco, libertador do ser humano, se subtrai a qualquer influência externa e passa, ela mesma, a ser a própria normatividade da acção humana: a técnica a ditar as normas à Ética. A tecnolatria, a fé incondicional nas biotecnologias. Confundem-se causas com consequências, chama-se mal ao bem e bem ao mal. E criam-se novas dependências, pseudo-deveres e obrigações na e para com a sociedade e nós próprios investigadores e profissionais de saúde (...) Pensar bioeticamente supõe, nas ciências da vida, estar informado e informar com profundidade, participar, remar contra a apatia e anestesia geral que recusa ou evita o debate público de cidadãos e aceita um seu simulacro institucional. (...)
É tomar como ponto de partida a capacidade de espanto, a permanente inquietação e tensão das dissensões na biomedicina e suas tecnociências, estar atento às consonâncias e dissonâncias entre o tecnicamente possível, o moralmente desejável e o juridicamente aceitável e praticável - da lei à prática vai um grande passo -, numa moral que se deixa interrogar, não de semáforos e interditos, e que recusa a violência mediática e lógica dicotómica, binária e bivalente do pró e do contra. Pensar e agir bioeticamente é, com base na indefectível sensibilidade moral, sentido de justiça e respeito pela alteridade e reciprocidade, saber viver o lugar do outro, sobretudo do mais vulnerável, do mais fragilizado, do mais desfavorecido, do não afluente, do meu interlocutor antitético: nisto se arrimam o altruísmo, a tolerância, a solidariedade, aqui e agora, o real cuidado e responsabilidade com a dimensão norte-sul e transgeracional da problemática bioética, tanto quanto possível independente de lobbies e de interesses particulares.
Miguel Oliveira e Silva, idem, pp.30-32.
Sem comentários:
Enviar um comentário