Comecei a semana a ouvir a estreia de Manuela Ferreira Leite na TSF: desancou o CDS (e a sua proposta, a nível fiscal, das horas extra). Na quinta, na TVI24, considerou que Santana Lopes era a pessoa indicada para decidir sobre a participação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no Montepio Geral - por conhecer todos os dados do problema - e garantiu não perceber a saída daquele dirigente de tal instituição, ao mesmo tempo que se mostrou ufana com o discurso de apresentação de Rui Rio ("muito bom"). Já se tinha percebido com Marques Mendes: com Rio ao leme, o comentário laranja nas televisões deixará, em grande medida, de conter fogo amigo e haverá mais intervenções de tipo claque.
No discurso de apresentação aos militantes, de Rui Rio, tudo é conjuntural, ditado pelas circunstâncias, o que depois de mais de um ano no terreno soa a pouco: o "reconhecimento a Passos" é resposta ao Santana que na véspera pedira que não se votasse em quem andou a criticar o "líder" em anos difíceis; o "não vou fazer um bloco central" era a resposta a todo o passismo que reagia em uníssono, dessa forma, aos avanços de Rio; o "partido que não é de direita" correspondia à necessidade do momento e a alguma base social de apoio no interior do partido (algumas elites). Todavia, Rio utilizou a expressão "rótulo de direita" (que teria sido colado ao PSD, nos últimos tempos). Das duas, uma: ou o problema é do rótulo - e aí a questão não implica nenhuma mudança de liderança, para quem acha mal essa vinculação à direita; quando muito, mudava-se a agência de comunicação no partido -, ou é de conteúdo, de políticas, e, nessa altura, sim, seria preciso mudar de liderança. Ora, como havia que fazer o elogio do trabalho de Passos - de quem, na entrevista à TVI, aliás, Rio disse nunca ter divergido por aí além - e, ao mesmo tempo, afastar-se de Passos, usa-se o velho truque do "problema de comunicação" (agora é o "rótulo"). Mesmo entre os mais afamados corajosos do país, a táctica e a velha escola não falham. E, claro, o que também não podia faltar no dia de apresentação, na mesma altura em que era conhecida a acusação do caso Marquês, era o "banho de ética" - embora os mais cépticos, depois da entrevista de Rio à TVI, se questionem se será ético associar André Ventura a Santana Lopes, em termos ideológicos (com todos os defeitos, não me recordo de Santana Lopes ter atacado etnias por inteiro, aceitar a pena de morte e ter percorrido com embalo tudo o que podia ser tema de franjas extremistas de direita, ou populistas).
A frase, em todo o caso, que talvez, a meu ver, melhor sintetize, o que vai estar em jogo até Janeiro, na disputa interna do PSD, foi assim dita por Rio: "acho que o que vai estar em jogo é um confronto de personalidades". Se a apreciação destas seria sempre importante e nada dispicienda, contudo, depois de ano e meio no terreno, não seria de apresentar algo do ponto de vista programático?
Do lado de Santana Lopes, as coisas não foram diferentes: com instinto mediático e 200 mil pessoas a invadirem o espaço do Tempo Extra de Rui Santos, lá fez a proverbial antecipação a Rio, teve a "converseta" (segundo o próprio) com o espectador e avançou "porque senti que tinha esse dever" - pois, mas a pergunta é porque acha que tinha esse dever -, até porque o outro menino dizia mal do anterior que estava no mesmo lugar. Não perguntem a Santana pelo programa - embora se diga uma pessoa que "não é de esquerda" - porque ele não esperava por esta e não é de um dia para a noite que este se elabora (dizemos nós, com candura).
Nas hostes, digamos que não reina o entusiasmo: José António Saraiva, dos articulistas mais aguerridos no PSD, no Sol, escreveu que Rio "não tem dimensão nacional" e Santana é "uma solução do passado"; Sousa Tavares, que Luís Nobre Guedes sugeriu para um grupo de independentes a apoiar uma futura coligação do centro-direita, no Expresso, não poupou nenhum dos candidatos.
Marques Mendes considera que serão eleições "muito competitivas". Ele conhece infinitamente melhor do que eu o partido e os bastidores, mas permito-me duvidar: depois da experiência governativa de Santana, depois de se ver como grande motivação de apoio a S.Lopes um movimento anti-Rio, creio que o ex-autarca do Porto tenderá a vencer com certa facilidade.
Marcelo Rebelo de Sousa recebeu Santana dando o evidente sinal político (adivinha-se que mais anti-Rio que pró-Santana), e logo a seguir negou-o ("sabem bem que não visto a camisola de ninguém"; mais uma "traquinice" de Marcelo, apontou, Saraiva). Ao nível do jogo das personalidades, surpreendente mesmo, talvez só Carlos Moedas: "como sabem, um comissário europeu não pode apoiar ninguém, mas Santana Lopes é alguém excelente e com muito para dar ao país". A cantiga e a manha são as mesmas - aí, não há surpresa nem inovação.
A ideia de um Congresso programático já lá vai - parece que essa proposta foi há uma eternidade, tal a forma como qualquer ilusão a esse respeito foi desfeita em uma semana - e tudo se joga no "perfil", na "personalidade", na "táctica". Como diria Carlos Amaral Dias, "só pedia 10%" de empenho - em políticos; isto é, não é preciso bater demasiado no peito - pelo interesse público e o bem comum (quer dizer, para lá do ego). Mas não está fácil.
Na semana em que se conheceu uma proposta de orçamento de estado que nos deixa muitas interrogações, reservas e difícil concordância, gostar do que se vê na política nacional - em que tudo parece subsumido a pequenos joguinhos, em praticamente todas as áreas políticas, onde a convicção e uma ideia de cidade surgem tão longínquos; Marques Mendes tem razão neste ponto: o resultado final da proposta de OE é indissociável do resultado autárquico do PCP, mas não se pode colocar em causa a sustentabilidade das finanças públicas em virtude desse arranjo - fica difícil.
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